Em sua loucura, eu achava Diego Rísquez parecido com Klaus Kinski (alter ego de Werner Herzog) em Aguirre ou em Fitzcarraldo (e em outros de seus desmesurados filmes) porque tratava como ele de vencer grandes barreiras para plasmar a aventura ou o caminho percorrido em filmes transcendentes.

Alfonso Gumucio*

Sempre pensei que Diego Rísquez estava possuído por uma febre de grandeza. Enquanto os demais “superoiteiros”— cineastas pioneiros do Super 8 como instrumento para fazer cinema profissional — usávamos o pequeno formato porque não tínhamos uma melhor opção para abrir um espaço na produção cinematográfica (o vídeo analógico ainda não era portátil e não tinha qualidade técnica), para Diego, o Super 8 era uma escolha e com essas pequenas câmeras que os demais sustentávamos com mão um tanto insegura, ele se lançava a realizar grandes produções com atores, figurinos, locações difíceis,

Diego Rísquez

cenário, etc.

Em sua loucura, eu achava Diego Rísquez parecido com Klaus Kinski (alter ego de Werner Herzog) em Aguirre ou em Fitzcarraldo (e em outros de seus desmesurados filmes) porque tratava como ele de vencer grandes barreiras para plasmar a aventura ou o caminho percorrido em filmes transcendentes.

Enquanto Diego Rísquez realizava obras argumentais ambiciosas como Bolívar, sinfonia tropical (1979), Orinoko, nuevo mundo (1984) ou Amerika, tierra incógnita (1988) os demais realizávamos modestos documentários sobre temas sociais e políticos, com comunidades camponesas e operárias.

Ele fez com orçamento baixo filmes que pareciam grandes produções e, assim, chegou com muita convicção até festivais de cinema industrial aos quais nós nem sequer teríamos nos atrevido a apresentar nossas propostas.

Curioso destino do filho, neto e bisneto de médicos, que foram muito reconhecidos em seu tempo, o de escolher a vida incerta de artista múltiplo e cineasta, embora pudesse ser catalogado como pintor de grandes telas históricas em movimento. Provavelmente, sua adolescência na Suíça e na Itália teve que ver com isso, assim como suas viagens a países da Ásia na década de 1970. Nunca abandonou sua característica venezuelana, apesar de sua origem insular.

Era só um ano mais velho que eu. Nasceu em 1949 em Juan Griego (cuja sonoridade me parece deliciosa), um porto da Ilha Margarita, com o sobrenome Rísquez que tem muito a ver com o verbo francês “risquer”, que significa arriscar. É o que sempre fez Diego Rísquez em seu cinema, arriscar. Dizem que quem não arrisca não petisca. Suas apostas, para dizer a verdade não o levaram tão longe como ele teria querido ir — embora Bolívar, sinfonía tropikal tenha sido selecionada na Quinzena de Realizadoras do Festival de Cannes — mas ganhou um lugar respeitável na Venezuela, na América Latina e no circuito independente internacional.

Nós nos frequentamos no final dos anos 1970 quando ele acabava de realizar em Super 8 seu Poema para ser leído bajo el agua, “a história de amor entre uma sereia que chega às margens do mar Caribe e o homem que a conquista”, e A propósito de la luna tropikal, homenagem a Armando Reverón (1978) poema visual no qual mostra sua devoção pelo grande pintor venezuelano. Essa admiração plasmada no curta-metragem se manteve durante muitos anos até que em 2011 pode realizar com melhores meios uma ficção sobre o artista da luz.

A princípios da década de 1980, quando estávamos ambos metidos a fundo na produção de cinema Super 8 e nos encontrávamos um par de vezes por ano no circuito de festivais de “superoiteros”, que incluía a Cidade do México, Caracas, Montreal, Toronto, Bruxelas, Paris e outros destinos mais exóticos como o porto de Kelibia, em Tunis. 

Dessa rede internacional de superoitistas ou superoiteros formavam parte também Rafael Rebollar, Sergio García e Luis Lupone (México), Carlos Castillo e Julio Neri (Venezuela), Mario Piazza (Argentina), entre outros. Existem algumas pesquisas publicadas recentemente que dão conta dessas apostas sem muito futuro.

Foi também na beira do mar e em sua própria terra natal que estivemos pela última vez no Festival de Cinema Latino-americano e Caribenho, na Ilha Margarita, Venezuela. Estivemos ali com outros colegas cineastas em fins de outubro de 2012.

No sábado, 13 de janeiro, Diego Rísquez morreu em Caracas. Um tumor cerebral levou esse companheiro de encontros episódicos e distantes. Ficou-lhe para sempre o mérito de haver sido pioneiro do cinema Super 8 em seu país. 

*Colaborador de Diálogos do Sul, de La Paz, Bolívia