Jorge Mansilla Torres*

A migração é mulherContra toda lógica, são as mulheres que se atrevem a romper rotinas e mudar destinos.

Dizem as estatísticas que as mulheres são maioria nas migrações de todos os tempos. Quem assume a necessidade de ir embora ao não encontrar em seu país condições de realizações plenas para si e os seus é consciente dos riscos que há de enfrentar em âmbitos alheios e longínquos. Assim, a migração não é fuga, mas busca; não é escapatória, mas opção de encontro.

Contra toda lógica, são as mulheres que se atrevem a romper rotinas e mudar destinos. Optam por abordar territórios que os homens, criaturas sedentárias, acreditam serem utopias. A migrante caminha com a esperança e o risco à flor da pele. Não se deixa vencer diante de adversidades de ilegalidades, nem de angústias de ser indocumentada. Finca suas prioridades existenciais em duas palavras afins e rimadas: promessa e remessa. Há países que ostentam as remessas como a coluna vertebral de suas economias. Para cumprir o que jurou a si mesma aceita afrontar trabalhos que nunca teria feito. Sobrepõe-se a vergonhas e sofrimentos em apego a sua dignidade e em oferenda aos que ama na distância: filhos, irmãos, pais, avós.

Toda migrante vai pelo mundo com um passaporte sem confisco nem caducidade: canções, danças, comidas, sentimentos, costumes, bandeiras… E chegada a ocasião, onde estiver e como quer que se encontre, exibe esses papéis com orgulho. Tais documentos têm, além do mais, carimbo de retorno à pátria de origem tão pronto haja condições aptas para o quando e o como.

Na Bolívia há uma palavra quéchua que diz muito: pachacuti, que significa pacha, sempre e cutiy, volta. O eterno retorno. Voltas de vai e vem que dá a vida agarrada do dia e da noite em redor do sol. Nenhuma mulher toma a migração como protagonista de uma aventura, mas sim como titulo de residência na terra. Quando os homens fazem a guerra, elas já estão vivendo o dia seguinte da batalha para sustentar a sobrevivência de seus filhos. Não foi em vão que elas foram as inventoras da agricultura, o primeiro grão de semente no horto das gestações.

Muitas destas considerações eu as deduzi das expressões de uma bela mulher boliviana, oradora em um recente encontro de migrantes na Europa. Ela disse diante de uma centena de delegadas de outros países que a migração tem vocação feminina e deve ser suportada sem tristeza, resignação nem desesperança. Está em sua natureza vislumbrar outros horizontes. Não creio nos contos da Bíblia, mas a mulher deve ser essa Eva que incitou Adão, o sossegado, a sair da rotina cômoda, aborrecida e sem liberdade no paraíso. Diz-se que por culpa de Eva foram expulsos desse Éden de obediência e submissão a um deus ególatra. Ainda bem. Isso tornou possível que Adão e Eva fundassem o amor a dois sobre a solidez do livre arbítrio e do trabalho. Criatividade e lazer sobre o fundamentalismo da chamada Criação.

*Colaborador de Diálogos do Sul