Lembra-se do desafio do balde de gelo? Com o “Acaba de me Matar”, a internet angolana está protagonizando a sua própria versão dessas brincadeiras predominantemente estadunidenses.

Por Dércio Tsandzana, em Global Voices

Conheça o “acaba de me matar”, desafio em que jovens partilham imagens fingindo-se de mortos com objetos sobre suas cabeças: blocos de cimento, geleiras, fogões ou armários — quase sempre acompanhadas de referências aos problemas sociais enfrentados pela sociedade angolana.

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As cenas parecem remeter às chuvas que vêm fustigando Angola desde o fim de 2017. Na capital, Luanda, já somam mais de 2 mil residências inundadas e 10 mortes resultantes de desabamentos.

Mas a febre ultrapassa os problemas causados pelas chuvas e tornou-se uma forma de protesto contra o governo do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), partido no poder desde 1979.

No Facebook, a seguinte mensagem está sendo compartilhada com as imagens, como uma “corrente”. Ela faz referência às insatisfações gerais da população de Angola, entre elas a aprovação do orçamento geral de 2018, que prevê mais gastos com defesa e segurança do que saúde e educação.

ACABA DE ME MATAR
Acaba de me matar você que aprovou o OGE que vai piorar ou manter a vida dos jovens na desgraça.
Acaba de me matar você que na abundância só se preocupou com desvio do herário público.
Acaba de me matar você que se apoderou dos campos deixando os jovens sem espaço de prática de desporto.
Acaba de me matar você que só está preocupado comigo quando precisas do meu voto depois se esquece de mim.
Acaba de me matar você que não coloca medicamentos nos hospitais e quer punir os técnicos.
Acaba de me matar você que não consegue construir escolas, mas aparece todos os anos dizendo que estamos a combater analfabetismo.
Acaba de me matar você que se aproveita da Bíblia para explorar as pobres mamães que de tanto sofrimento, mesmo sem fé procuram auxilio de Deus.
Acaba de me matar você que vem à televisão dizendo que os produtos baixaram de preços, mas na verdade os preços continuam a subir.
Acaba de me matar você que não cria políticas de emprego mas continua a correr com as zungueiras.
Acaba de me matar você que aproveita da farda para extorquir bolso do taxista.
Acaba de me matar você que exige que eu pague a taxa de circulação, mas não provê estradas em condições.
Acaba de me matar você que não paga o meu dinheiro.
Acaba de me matar você que fez o KILAPI que compromete o futuro dos meus filhos e netos.

Importa realçar que existe alguma intolerância à crítica por parte do governo angolano.

Por exemplo, no momento que escrevemos este artigo, o ativista Rafael Marques acaba de ver o seu julgamento adiado num caso em que é acusado de “crimes de injúrias e ultraje a órgão de soberania” — no caso concreto, trata-se de um artigo que escreveu em 2016 denunciando um negócio alegadamente ilícito envolvendo o antigo Procurador-Geral da República.

O mesmo podemos dizer do caso dos activistas conhecidos como 15+2, detidos em 2015 durante uma reunião de um grupo de estudos que se propunha a discutir métodos pacíficos de protesto, condenados a penas de prisão de 2 a 8 anos por de tentativa de golpe de Estado. Em 2016, os 17 ativistas passaram a cumprir pena em prisão domiciliar por ordem do Tribunal Supremo.

O paciente-zero da febre angolana

Tudo indica que os pioneiros do desafio foi o grupo de kuduro e afro house “Os Nandako”. Kuduro é um estilo musical angolano influenciado pelo rap estadunidense, a soca caribenha e o nativo kizomba.

No dia 20 de fevereiro, o grupo lançou a música “Vanessa”, em homenagem a uma das vítimas das chuvas em Luanda. Na ocasião do lançamento, partilharam fotos com blocos caídos no peito (como aquela que ilustra esse artigo ou a do tweet abaixo) e inesperadamente outras pessoas passaram a fazer o mesmo.

Houve quem criticasse o desafio: alguns o classificam como trivial, e afirmam que existem “outras maneiras” de falar sobre problemas sociais.

Mas para o artista plástico angolano Kiluanji Kia Henda, o desafio é ainda mais do que uma forma de protesto: é também uma forma de performance. Ele afirmou em sua página do Facebook:

Depois de vários anos a trabalhar como artista plástico e, com um claro interesse por questões ligadas a história e intervenção social, não poderia deixar de expressar a minha admiração e deslumbre, com a série de fotografias do desafio que se tornou viral nas redes sociais, “Acaba de me matar”. Mais do que um acutilante protesto contra a degradante condição da vida nos musseques em Luanda, “Acaba de me matar” é também um ato de performance que se enquadra perfeitamente nos pensamentos e criações, no tal de universo da arte contemporânea. Apesar da sua estética extremamente violenta, o que ilustra bem o desespero de muitos jovens, não podemos esquecer que nada é pior do que a violência na vida real. Por isso, a ficção será sempre um meio pacifico de reivindicação. Sem muita margem para duvidas, é dos protestos mais inteligentes que já vi alguma vez. Fico feliz que ainda haja criatividade (o que na verdade é o que mais abunda na periferia), para expressar a tamanha indignação que se vive hoje. Parabéns ao autor anônimo desta ideia! “Acaba de me matar”, acabou de me matar! Éué!!!

Chuvas

Todos os anos as chuvas expõem a exigiguidade das infra-estruturas de Angola. Esse ano, já foram registados desabamento de pontes e o corte de algumas estradas, chegando a interromper o funcionamento de alguns serviços públicos, entre eles escolas.

No Twitter, algumas imagens mostram o estado das vias decorrente das chuvas:

Outros cidadãos denunciaram que as autoridades lhes imputam responsabilidade quanto aos desastres, como sublinha Kambeu De Sousa Tomé: