“…um acento pessoal e uma agudeza pouco frequente no encontro do símbolo; assim como também que a linguagem compõe uma textura de muito sutis associações formais e semânticas, e inclusive de elegante humorismo; tudo o que leva luz a um universo poético original, sem desmerecer a postura militante que Corcuera assume diante da realidade.

Alberto Escobar

“Fábula do escaravelho” `Fogem-lhe os saltamontes./ As aranhas detêm / minúsculas oficinas.// Las cigarras emudecem/ enquanto irradia sombras.// Burguês contaminado,/ escarávaro,/ es cabisbaixo,/ leva um mundo em suas mãos,/ mestre escaravelho. ´

Arturo Corcuera.

Winston Orrillo*

Winston OrrilloUm dos maldizentes que medram por ali, questiona o que chama de meu “súbito interesse” pela poesia do autor de Noé Delirante. Pois a ele respondo, e para informação geral, digo que na Seção Cultural que dirigia o subscrito, na falecida revista Oiga, de 49 anos atrás ( Nº 284, de  2 de agosto de 1968)  escrevi um artigo “Arturo Corcuera, um poeta de classe que fala com desenvoltura”, no qual aludia ao seu polêmico e revelador livro Poesia de classe e analisava não apenas seu conteúdo, mas me detinha em seu continente: a linguagem, os mecanismos expressivos, que o poeta foi amadurecendo de obra em obra.

Daniel Arturo Corcuera Osores (Trujillo, Salaverry, 30 é um dos maiores poetas peruanos.
Daniel Arturo Corcuera Osores (Trujillo, Salaverry, 30 é um dos maiores poetas peruanos.

Sem demonstrar fadiga alguma, pelo contrário conseguindo uma maestria que, somada ao seu permanente e aguçado sentido do humor, nos leva à pequena obra mestra (Baladas da pedra, do amor e da morte) que, por terceira vez – e esperamos que seja a última-  comentamos.

Recordo que, como assinalamos em parágrafos anteriores, o poeta faz uso não apenas do humor desenfreado, que diverte, mas também daquele que desmistifica e nos permite ingressar – via magistral manejo da língua – ao cerne do criticável. Cito de memória “Em general, lhe agradou muito o descanso, ao general…” o que é uma bofetada (literária) à miríade de governos nos quais os milicos prosperaram… com pouco trabalho e oneroso dispêndio do erário (me permito, por certo, corrigir o erro crasso em que incorrem os que perpetram aquilo de erário nacional.)

Enfim, Corcuera desenvolve uma obra literária que, além do magistral uso do universo literário, se encontra comprometida… e já sei como  salvarão aqueles que pensam e sustentam, sem se envergonhar, que o termo “compromisso” é como um tipo de palavrão, obsoleto de toda obsolescência, com o que – fiéis discípulos do equivocado Fukuyama – insistem naquilo do fim da história, que deve ser traduzido como o fim das ideologias… (claro, para que só floresça a sua: a do capitalismo neoliberal com qualquer disfarce… Enquanto eles desfrutam de bolsas, subvenções e estadias muito bem pagas nas metrópoles de moda, e entre nós proliferam os suplementos culturais  e a mídia-lixo.

Porém, a obra comprometida de nosso grande poeta, não descuida um ápice de sua altíssima qualidade literária, mas sabe assumir sua militância junto às lutas, verbi gratia, de Nossa América, e a sua se alinha com o Primeiro Território Livre na América, Cuba (um poema seu dedicado a Fidel – é quase vox populi –  constitui uma das jóias mais esclarecidas em meio às centenas de homenagens a quem – momentaneamente – acaba de nos deixar: a pátria de Martí, “honrar, honra, condecorou, recente e muito justamente a A.C. Da mesma forma nosso poeta ama e defende a Nicarágua sandinista, a República Multinacional da Bolívia; a República Bolivariana da Venezuela: a do imortal comandante Hugo Chávez e a do Presidente-Operário Nicolás Maduro, ameaçado pelo império norte-americano e seus representantes. O Uruguai de Pepe Mujica (não o de agora); o Equador da Revolução Cidadã, de Rafael Correa; o Brasil no qual atropelaram a Dilma; a irmã Argentina,  que hoje está sendo saqueada por esse agente transnacional de sobrenome Macri, senhor das contas off-shore…

Enfim, e no mundo, esse largo e vasto mundo, por certo a Mater et Magistra, a entranhável URSS (de férias by the moment), e a então República Popular da Bulgária (e seus inesquecíveis Congressos Mundiais de Escritores em Defesa da Paz Mundial: a pátria do herói  nacional Jorge Dimitrov) , e a Romênia  e a Polônia…

Em nosso doloroso país, Arturo é uma das primeiras vozes (em meio, em muitas oportunidades, de um mutismo atroador) que se levanta  para os protestos, para a defesa dos direitos das maiorias, para a denúncia dos desajuizados e as traições ad usum. Nosso poeta crê, fervidamente, que só a unidade dos setores de esquerda e progressistas, será a arma para derrotar a podridão enquistada no governo, tanto no Parlamento como no Palácio de Pizarro.

Bastaria apenas citar suas defesas da invicta memória de Javier Heraud e das lutas de Alejandro Romualdo e do compromisso de grandes bardos como Gustavo Valcárcel ou Juan Gonzalo Rose ou Mário Florián, entre vários outros mencionáveis.

Da mesma forma, é paradigmático seu afeto e suas orientações aos poetas das seguintes gerações, aos quais convida à sua dacha da Avenida Santa Inês, em Chaclacayo que, seguramente, cedo ou tarde será o vivo Museu de nosso imenso poeta Arturo Daniel Corcuera Osores, paradigma de “galo de briga” na lírica e na vida.

E queremos terminar, por assim dizer, com a cinta completa de um texto do livro que resenhamos (pela III vez) e que é, precisamente, uma amostra do estilo desmistificador (político) do bardo:

“Balada dos poderosos” `Se disputam/ destruição e morte,/ arrasam tudo./ No dia em que se viram,/cara a cara,/ turvos e enlutados,/ lado a lado./se aliaram/olho a olho: o olho da tormenta/ e o olho do furacão ´

*Winston Orrillo é poeta e jornalista peruano colabora com Diálogos do Sul, de Lima, Peru

Assista também ao Recital Poético ‘Carnet de identidad de un poeta’
O evento foi apresentado pelo encarregado dos negócios da embaixada do Perú, Javier Sánchez Checa.

Arturo Corcuera (Trujillo, Salaverry, Perú 1935), realizou estudos de literatura na Faculdade de Letras da Universidade Nacional Mayor de San Marcos y na Universidade Autônoma de Madrid. Publicou, entre outros Primavera triunfante (1963); Noé delirante (1963); Poesía de clase (1968); La gran jugada (1974); Puente de los suspiros (1982); Prosa de juglar (1992); Canto y gemido de la tierra (1995); Puerto de la memoria (2001, que incluye Prosa de juglar, Vidalas para mi sombra, Voces y vientos y Puerto de la memoria que da el título del libro); Declaración de amor (o los derechos del niño) que circulou em Periolibros simultâneamente em todos os países da América Latina, com apoio da UNESCO, do Fundo de Cultura Econômica, Unicef y Rada Barnen; Sonetos del viejo amador (2001); Parajuegos (2002); El bazar de los letreros (2004); A bordo del arca (2006). Corcuera é ganhador de importantes prêmios na Espanha, Itália, Cuba, Chile e Romênia, e também do Prêmio Nacional, do Prêmio César Vallejo e do Prêmio José María Eguren.