Em Lima tinham-me falado da importância de Mariátegui.

Miguel Urbano Rodrigues*

Mariátegui.
Mariátegui.

Dias depois, no Cusco, entrei numa livraria e vi numa estante os Siete Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana.

Foi no início de Novembro de 1970. Comprei o livro e comecei a lê-lo no hotel; quase não dormi nessa noite. Senti algo próximo de deslumbramento.

Recordo que ao longo da vida adquiri outros exemplares; ofereci uns e perdi outros.

Antes de regressar a Portugal em l974, consegui que uma editora de São Paulo, a Alfa Omega, publicasse no Brasil os Siete Ensayos, com um prefácio de Florestan Fernandes.

O percurso na “Idade da Pedra”

Li há semanas um interessante livro da professora brasileira Leila Escorsim Netto: Mariátegui – Vida e Obra*. Numa nota prévia a autora esclarece que o seu ensaio nasceu de uma tese de doutoramento sobre o grande revolucionário peruano; e informa que o seu objetivo foi contribuir para a divulgação no Brasil do «maior pensador marxista latino-americano do século 20».

Mas Leila não desconhece que o marxismo de Mariátegui tem sido tema de muitas polémicas. Não é portanto surpreendente que sejam também polémicas muitas das opiniões que ela emite sobre o pensamento e a personalidade do biografado.

José Carlos Mariátegui (1894/1930) nasceu em Moquegua, no Sul do país numa família modesta. O pai era funcionário de um Tribunal, a mãe uma mestiça.

Ainda na adolescência, para ajudar a mãe, abandonada pelo marido, começou a trabalhar como ajudante de tipógrafo no diário conservador La Prensa, de Lima.

Tendo apenas concluído o ensino primário, cedo revelou paixão pela leitura e pela escrita e textos seus, assinados com pseudónimo, foram publicados pelo jornal.

As crónica de Juan Chroniqueur sobre os mais diferentes temas chamaram a atenção.

O Peru era então governado por uma oligarquia agrária. A pequena elite de crioulos descendentes de espanhóis, concentrada nas costas, detinha o poder econômico e político. A esmagadora maioria da população, índios e mestiços, era vítima de uma exploração comparável à do período colonial. Mas nas altas planuras andinas e nos vales da Sierra, subsistia a propriedade comunitária da terra, herança do Incário.

O jovem Mariátegui nas suas crônicas denunciava o regime oligárquico, a corrupção, a semi-escravidão dos índios pelos latifundiários feudais.

Ganhou prestígio nos meios intelectuais de esquerda. Mas as suas críticas ao sistema, então publicadas em El Tiempo, refletiam uma atitude humanista, a ausência de uma opção ideológica.

A sua saúde, frágil desde a infância, piorou a partir dos oito anos quando fraturou um joelho e ficou coxo.

Anos depois, ele próprio qualificou o seu combate político na juventude como a fase da sua «idade da pedra».

Mas incomodava o governo. O presidente Augusto Leguía, que em breve assumiria poderes ditatoriais, para não o prender mas afastá-lo do país, enviou-o para a Europa; confiou-lhe a missão de explicar o Peru aos italianos.

Um marxista herético

Em Itália Mariátegui leu muito: Marx, Lenin, Trotsky, Gramsci, Rosa Luxemburgo, Kautsky, clássicos gregos, mas também ensaios, teatro e ficção: Freud, Nietzsche, Shakespeare, Proust, Anatole France, Zola, Barbusse, Romain Rolland, Gide, Joyce, Thomas Mann, Tolstoi, Dostoievski, Gorki, Malaparte, Papini, Marinetti, Pirandello, d’Annunzio, etc.

Uma dose excessiva para poder assimilar em apenas três anos uma transmissão de saber e cultura tão ampla, densa e variada.

Assumiu-se como marxista ao ultrapassar a fronteira da «idade da revolução”. Foi pelos caminhos da Europa, afirmou, que encontrou o seu país e começou a compreendê-lo. Visitou a França, a Suíça, a Alemanha, a Áustria, a Hungria, a Tchecoslováquia. A Europa revelou-lhe «até que ponto pertencia a um mundo primitivo e caótico».

A vitória da Revolução de Outubro reforçou a sua convicção de que o mundo estava no limiar de uma época de grandes revoluções.

Mas a influência de Benedetto Croce e de Freud  está na origem de tendências que colidem com o materialismo histórico .

A sua conceção de vanguarda era tão ampla que foi seduzido pelo futurismo e se entusiasmou com o surrealismo, que definiu como antecipação do «verdadeiro realismo», atribuindo-lhe um conteúdo positivo .

Não via o marxismo, tal como o próprio Marx, como um sistema estático, e sim dinâmico, num processo enriquecido por contribuições nascidas da evolução da história. Mas para exemplificar essa atitude recorreu a uma linguagem reveladora das  contradições da sua formação política. Utilizou com frequência a expressão «revisionismo de Lênin» para elogiar a atitude criadora do revolucionário russo ao ir «mais além do Capital» na aplicação do pensamento de Marx a sociedades em permanente mudança.

Não captou, creio, a diferença entre a aplicação do marxismo a um mundo transformado e a revisão do marxismo por social-democratas como Bernstein e Kautsky, que, dizendo-se marxistas, se incompatibilizaram com a sua visão da História, admitindo que se podia chegar ao socialismo através de reformas institucionais, sem revolução. Essa contradição é aliás assinalável na sua obra de crítica literária, reunida em livros editados postumamente pelos filhos.

Muitos dos textos de El Alma Matinal deixam transparecer sequelas do anticapitalismo romântico. Distanciou-se do seu esteticismo juvenil, mas é absurdo o elogio simultâneo a Breton, Nietzsche e Lenin.

Em artigos dedicados à crítica do fascismo italiano subestima e deturpa o papel dos intelectuais na História.

«A inteligência- escreveu, comentando a adesão ao fascismo de intelectuais europeus- é essencialmente oportunista. O papel dos intelectuais na história resulta na realidade muito modesto (…) Os intelectuais constituem a clientela da ordem, da tradição, do poder, da força, etc, e, em caso de necessidade, do porrete do óleo de rícino».

A generalização é inaceitável, carece de fundamento científico.

Manifestou repetidamente admiração por Benedetto Croce. Tinha por merecida a «enorme fama» do filósofo liberal italiano.

Ouso afirmar que, tal como em Fidel Castro, um voluntarismo não consciencializado contribuiu para uma formação ideológica onde se fundem o idealismo e o materialismo.

A especificidade do chamado marxismo Mariáteguiano valeu-lhe críticas de acadêmicos que atribuem contradições do seu pensamento a um estudo insuficiente de Marx. A professora Leila Escorsim, sua grande admiradora, regista no marxismo de Mariátegui, contradições inseparáveis de uma formação filosófica pobre.

Mas essas limitações não afetam minimamente a grandeza e o significado da sua obra. Aliás não se deve esquecer a época e o país em que viveu e a doença que lhe abreviou a vida (nos últimos anos amputaram-lhe a perna atrofiada).

O Amauta

Foi no regresso ao Peru, em l923, que Mariátegui escreveu os Siete Ensayos. fundou o Partido Comunista do Peru -inicialmente intitulado socialista- e a Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru – CGTP.

Nos últimos sete anos da sua vida, enfrentando sempre dificuldades financeiras para sustentar a família, desenvolveu uma atividade frenética, apesar do agravamento da saúde sempre precária.

A revista que criou, Amauta, é ainda recordada como um instrumento cultural ímpar e, indiretamente, guia para a ação revolucionaria. Nela colaboraram entre outros Haya de la Torre (com o qual posteriormente rompeu), Jorge Luis Borges, Ruben Dario, Jorge Guillen, Pablo Neruda, José Antonio Mella, Diego Rivera, José Vasconcelos, Gabriela Mistral, Jesus Herzog.

Amautas, recorde-se, eram no Peru pré-colombiano os detentores do saber que educavam a família do Inca e a nobreza. A escolha do nome é significativa da ambição de uma iniciativa que, sendo cultural, foi também política, divulgando textos de Marx, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Stalin, Bukharine, Gorki, Ortega y Gasset. etc.

Nos Siete Ensayos reuniu trabalhos diferentes. Neles estão ausentes as contradições do seu marxismo.

O primeiro é sobre a evolução econômica do Peru desde o período colonial; o segundo sobre o problema do índio; o terceiro sobre a terra; o quarto sobre a instrução pública; o quinto sobre a questão religiosa; o sexto sobre regionalismo e centralismo; o sétimo sobre a literatura.

Interrogações sem resposta

Até onde teria ido Mariátegui se a morte não o atingisse em plena juventude?

Seria especulativa qualquer resposta à pergunta. Mas o seu pensamento, obra e trajetória conduzem a uma certeza: Mariátegui aceitou a expulsão e a deportação de Trotsky, que admirava, vendo nele o porta voz da «ortodoxia comunista», mas teria reagido com indignação aos processos de Moscovo em 1937 e 1938.

A sua atitude perante a evolução da III Internacional anunciou tensões inevitáveis. Aderiu com entusiasmo à defesa da frente única antiimperialista, mas desaprovou a mudança de estratégia da organização após o VI Congresso. As comunicações que enviou à I Conferencia Comunista Latino Americana de Buenos Aires, dirigida pelo argentino Victório Codovilla (ele não compareceu por doença) foram ali criticadas não merecendo aprovação.

Se tivesse vivido mais alguns anos, as suas posições teriam sido denunciadas pelo PCUS como contra revolucionárias e ele como instrumento da burguesia.

Era então imprevisível o rumo que a Historia tomaria e inimaginável que a União Soviética desapareceria e a Rússia se transformaria num país capitalista.

Mas o pensamento e a obra de Mariátegui ficaram.

No limiar do século XXI a própria direita peruana reconhece a dimensão de grandeza do autor dos Siete Ensayos. E os comunistas da América Latina vêem nele o introdutor do marxismo no Continente.

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lisboa, Portugal

*Mariátegui,Vida e Obra, Leila Escorsim, Ed. Expressão Popular,316 páginas, São Paulo 2OO6