Miguel Urbano Rodrigues

Foi redactor do Diário de Notícias entre 1949 e 1956, chefe de redacção do Diário Ilustrado (1956 e 1957), antes de se exilar no Brasil, onde foi editorialista principal de O Estado de S. Paulo (1957 a 1974) e editor internacional da revista brasileira Visão (1970 a 1974). Regressado a Portugal após a Revolução dos Cravos, foi chefe de redacção do Avante! em 1974 e 1975 e director de O Diário entre 1976 e 1985. Foi ainda assistente de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1974-75), presidente da Assembleia Municipal de Moura em 1977 e 1978, deputado à Assembleia da República pelo PCP entre 1990 e 1995 e deputado às Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da União da Europa Ocidental, tendo sido membro da comissão política desta última. Tem colaborações publicadas em jornais e revistas de duas dezenas de países da América Latina e da Europa e é autor de mais de uma dezena de livros publicados em Portugal e no Brasil.

#Releituras
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Atualidade de Mariátegui

Em Lima tinham-me falado da importância de Mariátegui. No limiar do século XXI a própria direita peruana reconhece a dimensão de grandeza do autor dos Siete Ensayos. E os comunistas da América Latina vêem nele o introdutor do marxismo no Continente. Miguel Urbano Rodrigues*

Miguel Urbano Rodrigues
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Álvaro Lins

Encontrei pela primeira vez Álvaro Lins em São Paulo, em l960. Tinha-lhe escrito quando ele era embaixador em Lisboa e concedera asilo ao general Humberto Delgado. A decisão, tomada sem consulta a Brasília, desagradou ao Governo de Juscelino Kubitschek e enfureceu Salazar. Miguel Urbano Rodrigues* A sua resposta à minha carta comoveu–me. A empatia, quando o abracei pela primeira vez, foi imediata. E evoluiu rapidamente para um sentimento de amizade. Na época, eu divergia da linha…

Miguel Urbano Rodrigues
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Meio século depois: Tolstoi e a Revolução

Percorrendo a estrada de muitos rencontros com autores que descobri na juventude, reli nas últimas semanas O Caminho dos Tormentos, de Alexei Tolstoi. Miguel Urbano Rodrigues* Lido em Conakry em l961, provocou em mim o terremoto interior que infletiu o rumo da minha vida. O choque emotivo e ideológico desencadeado pela trilogia de Alexei Tolstoi conduziu-me à opção comunista e ao combate político pelo socialismo. Ao regressar a São Paulo, o encontro com o Caminho…

Miguel Urbano Rodrigues
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Teixeira Gomes e o envelhecimento

“E a parte mais dolorosa da senilidade consiste em assistir, consciente mas impotente, à nossa própria ruína mental! (…) a vista já muito mal me serve e a minha memória é um vidro transparente onde logo se apaga tudo quanto nela se reflete”. Miguel Urbano Rodriguez* São palavras de Teixeira Gomes, anotadas em 1938 no quarto do hotel em Bougie onde faleceu em 1941. Tinha então 77 anos e via-se como ruína física e mental…

Miguel Urbano Rodrigues
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Le fil rouge – Una saga revolucionária

LE FIL Rouge** (O Fio Vermelho) é uma saga. Apresenta-se como romance, mas enquadra-se mal nesse gênero literário. Miguel Urbano Rodrigues* Gilda Landino Guibert escreveu um poema revolucionário em prosa que projeta os leitores para cenários de luta pela liberdade e pela transformação do mundo. O sujeito é simultaneamente individual, uma família, e coletivo, os italianos de aldeias da Toscana que se bateram contra o fascismo mussoliniano e posteriormente em França, como imigrantes, ao lado…

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Em Paris pela última vez

Quando alguém tem uma profunda consciência histórica -como é o caso de Miguel Urbano- mesmo as reflexões mais íntimas e pessoais têm o cunho não apenas de um ser humano individual, mas o de um tempo comum. A sua história pessoal nunca foi e nunca é apenas pessoal. Miguel Urbano Rodrigues* Mais de uma vez ao longo da minha extensa vida, na despedida de uma cidade pensei, por motivos diferentes, que não voltaria ali, que…

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Miguel Urbano Rodrigues: Istambul, cidade mágica

Tenho dificuldade em encontrar palavras para expressar o que senti ao chegar a Istambul pela primeira vez. A cidade, fundada há 25 séculos, fascinou-me. Transcorrido mais de sessenta anos, Istambul continua a ser para mim enfeitiçante. Miguel Urbano Rodrigues* Voltei agora em fevereiro para mais uma despedida. Passaram apenas cinco anos desde a última visita. A primeira surpresa foi rever Santa Sofia, hoje  museu. Tinha esquecido que, contempladas do exterior, duas das fachadas da Basílica, pela…

Miguel Urbano Rodrigues
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Losurdo e a atualidade da luta de classes

Losurdo é um comunista hoje pouco comum. Decepcionado pelo defunto PCI e pela Rifondazione Comunista, aderiu ao jovem Partido dos Comunistas Italianos. Miguel Urbano Rodrigues* Rejeita qualquer modalidade de dogmatismo e revisionismo. Fiel aos ensinamentos de Marx e Lênin, distancia-se do reformismo e do dogmatismo subjetivista (bem caracterizado por Gyorgy Lukács) que durante décadas atingiu muitos partidos comunistas que, afirmando ser marxistas-leninistas, negavam na práxis a opção ideológica. A editora brasileira Boitempo lançou em 2015…

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Os povos da Ex URSS

O desaparecimento da União Soviética – URSS foi uma tragédia para a Humanidade. Foi acelerada pela traição de Gorbatchov e pela guerra não declarada do imperialismo norte-americano, mas numerosos outros fatores contribuíram para ela. Para a tentarmos entender, e também a para tentarmos entender a Rússia contemporânea é imprescindível, nomeadamente, um conhecimento mínimo da história dos povos que habitam o seu gigantesco território. Miguel Urbano Rodrigues* Não há precedente histórico para o Estado multinacional que…

Miguel Urbano Rodrigues
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De Eduard Bernstein ao novo reformismo-revisionismo

Após a proclamação do Império Alemão, Bismarck sentiu a necessidade de enfrentar sem repressão a combatividade da classe operária. Foram aprovadas leis que melhoravam sensivelmente a qualidade de vida dos trabalhadores. Miguel Urbano Rodrigues* O Partido Social Democrata alemão-SPD, que era marxista e uma referência para todos os partidos revolucionários da Europa, uma vez legalizado, cresceu muito numa época em que a Alemanha se tornara a segunda potência industrial do mundo. No final do século…

Miguel Urbano Rodrigues
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Daniel Ortega traiu a Revolução sandinista

A trajectória pessoal e política de Ortega, agora reeleito presidente da Nicarágua, é um caso de estudo. De dirigente da luta armada anti-somozista a possuidor de uma fortuna pessoal que supera a que o próprio Somoza extorquiu ao seu povo, de lutador pelo socialismo a patriarca de uma família de oligarcas, o sucesso de Ortega é o insucesso da libertação do seu povo. Miguel Urbano Rodrigues* Daniel Ortega foi reeleito presidente da Nicarágua. É o…

Miguel Urbano Rodrigues
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URSS / Reflexões sobre a Revolução de Outubro

Em vésperas das comemorações do centenário da Revolução de Outubro, sinto a necessidade de afirmar que, não obstante as graves deformações, o desaparecimento da URSS configurou uma tragédia para a humanidade. Miguel Urbano Rodrigues.*

Miguel Urbano Rodrigues
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Xenofonte: a mentira histórica do grande historiador

Admiro Xenofonte desde a juventude. Nos anos do «período especial”, quando viajava para Cuba onde então residia, levava no bolso a Anábases, para reler no avião. A saga dos Dez Mil Gregos no regresso à pátria ajudava a compreender a resistência heróica do povo cubano. Miguel Urbano Rodrigues* Transcorridos muitos anos, com a vida útil a findar, reli nas últimas  semanas, com prazer, a Anábases e Ciropédia. Xenofonte foi um escritor maravilhoso. Usou o talento e a…

Estados Unidos
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A Derrota de EUA no Laos: uma guerra esquecida

Os historiadores estadunidenses, com poucas exceções, sustentam que os EUA somente perderam uma guerra: a do Vietnam. Mentem. Perderam a guerra contra a Inglaterra em l812/1814 e foram também derrotados no Laos Miguel Urbano Rodrigues* Essa é uma guerra esquecida de que se não fala. É portanto natural que tenha chamado a minha atenção um livro que encontrei em Havana num alfarrabista: La derrota del imperialismo yanqui en Laos*. O autor, Luis M. Arce, é…

América Latina
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América Latina, da ficção à realidade

América Latina e Amérique Latine são expressões geográfico-históricas relativamente recentes. Miguel Urbano Rodrigues* Essas palavras foram utilizadas pela primeira vez em l836 por um francês, Michel Chevalier, e vulgarizadas por Napoleão III quando invadiu e ocupou o México em 1861. O objetivo do imperador foi excluir os povos da América que falavam inglês. Mas a expressão é enganadora. Com uma superfície de 21 070 000 km2, e uma população de aproximadamente 620 milhões, a América…

Colômbia
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Colômbia: Do cessar-fogo à paz, muita distância

A assinatura em Havana, no dia 23 de Junho, pelas FARC-EP e pelo governo de Juan Manuel Santos, dos Acordos de Cessar Fogo e de Hostilidades Bilateral e Definitivo, de Renuncia às Armas, e o de Garantias de Segurança e Combate ao Para militarismo  foi recebida com entusiasmo pelo povo colombiano e com alívio e satisfação pela maioria da humanidade Miguel Urbano Rodrigues* Mas seria uma ingenuidade concluir que o fim do conflito armado trouxe…

Estados Unidos
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Hillary Clinton, a rainha do caos

São poucos os escritores progressistas norte-americanos cujos livros denunciam a estratégia de dominação planetária dos EUA como ameaça à Humanidade. Miguel Urbano Rodrigues* Diana Johstone é quase uma exceção. Não é marxista nem revolucionária e acredita nos valores da democracia ocidental. O que critica é o funcionamento da engrenagem do poder, a ambição, a perversidade, a irresponsabilidade, o belicismo da elite oligárquica que no seu país controla o sistema e define a sua relação com o…

México
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O fascínio desumanizado de D.H. Lawrence pelo México

Desconhecia o México quando li A Serpente Emplumada*. A partir de l970 visitei muitas vezes aquele país. Percorri alguns Estados e adquiri um razoável conhecimento da sua história, sobretudo da pré-colombiana. Miguel Urbano Rodrigues* Reli agora numa edição francesa A Serpente Emplumada e percebi que a minha compreensão do romance tinha sido, quando jovem, lacunar. Em busca do desconhecido Filho de um mineiro, David Herbert Lawrence (1885-1930) cresceu numa família de trabalhadores incultos. Sofreu privações, mas a…

Miguel Urbano Rodrigues
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Lenin e o imperialismo

A palavra imperialismo – originária do latim- é muito anterior ao aparecimento do moderno imperialismo como realidade politica, social e econômica. Miguel Urbano Rodrigues* Mas foi Lenin quem pela primeira vez chamou a atenção para a ameaça que a nova fase do imperialismo significava para a humanidade, o que exigia uma  estratégia revolucionária. O seu livro – O Imperialismo fase superior do capitalismo – foi publicado em l917, meses antes da Revolução de Fevereiro, que…

Israel
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Koestler, um sionista que nega a origem judaica de Israel

Voltei a ler nos últimos meses alguns livros de Arthur Koestler. Quase esquecido, Koestler foi em meados do século passado um dos escritores mais famosos e polêmicos do mundo. Miguel Urbano Rodrigues* Nascido em Budapeste numa família de judeus, o seu interesse pelo sionismo levou-o a viajar para a Palestina aos 20 anos. Dessa experiência resultou, em 1946, o romance Os Ladrões da Noite (Thieves in the Night, no original inglês) inspirado na fundação dos…

Miguel Urbano Rodrigues
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Qual a alternativa para a crise grega?

A crise grega é a crise do capitalismo. Assim sendo, qual a saída? A alternativa para o sistema capitalista passa pela Revolução Miguel Urbano Rodrigues* A evolução da crise grega manifesta traços do poder do imperialismo que talvez em nenhuma situação anterior se evidenciassem de forma tão flagrante. O Syriza, força social-democrata, nada põe em causa do capitalismo. Mas a enorme distância entre as suas promessas eleitorais e as imposições da troika obrigaram-no a tentar…

Grécia
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O Syriza sem máscara

A Grécia Revisitada-1 – O Syriza sem máscara Miguel Urbano Rodrigues* Os dirigentes das principais potências da União Europeia e os media controlados pelo capital projetam no mundo uma imagem da Grécia grosseiramente deformada. Na caracterização da crise começam por esconder que os empréstimos concedidos à Grécia se destinaram a financiar o grande capital financeiro no âmbito da estratégia da União Europeia. Contrariamente ao que amplos sectores sociais admitiram, o governo Syriza-Anel foi recebido com…