Já não se trata mais de ser contra o imperialismo ianque. Já foi ultrapassada essa fase. Agora, se trata de lutar contra uma ocupação colonial. Se trata, portanto, de desencadear uma luta de Libertação Nacional para conquistar uma verdadeira independência.

Paulo Cannabrava Filho*

Paulo Cannabrava Filho
Como ocorreu e, como ocorre, essa ocupação? É mesmo uma colonização?

Foi um processo longo e paciente. Começou em 1964 com a captura do Estado pelo capital transnacional, seguido a partir dos anos 1980 pela implantação do poder do capital financeiro e dos monopólios até chegar à condição de submissão à ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro.

Agora, entramos na fase de colonialismo explícito. Se não, vejamos, e quem tiver fatos e provas que me contradigam, por favor, me mande.

Já ocuparam os meios de comunicação e agora estão ocupando as escolas, mudando as políticas de ensino.

Não se trata de vir aqui e comprar um escola para ganhar dinheiro. Antes fosse. Eles compraram escolas e formaram gigantescas redes de ensino. As que estão chegando agora são redes de tempo integral, que recebem alunos desde a pré-escola até a diplomação, MBA, pós-graduação e doutorado nos “isteites”.

Eles seguem a grade curricular da matriz estadunidense e até o calendário escolar é o deles: as aulas começam em agosto, como nos Estados Unidos.

A propaganda diz que estão educando nossos jovens para a modernidade com escolas de excelência. A mídia aceita aplaudindo, por fim, agora teremos boas escolas, saem falando inglês fluentemente.

Nos EUA, todas essas corporações dedicadas à educação formam ideólogos do neoliberalismo e operadores do mercado financeiro. Então, estão educando os nossos jovens para serem cúmplices da ocupação colonial.

Publicidade

Era assim durante a ocupação luso-britânica, tanto no período colonial como na fase em que o país foi reino e depois império “independente”. Os filhos das oligarquias iam estudar em Coimbra, Paris ou Londres. Não havia escolas para os pobres e muito menos para os escravizados ou seus descendentes.

A partir do início da ocupação do Estado, a má escola passou a ser projeto das elites dominantes. Até as melhores universidades deixaram de pensar o país e de propor solução para sair do subdesenvolvimento. Formam economista com textos e apostilhas importadas cujo sonho é fazer um MBA ou um pós em Harvard ou MIT, para ter um bom emprego numa instituição financeira ou num organismo multinacional.

Agora já nem precisam se preocupar em como ir para os EUA. Os filhos dos executivos das transnacionais, dos banqueiros e financistas, das corporações da agroindústria e dos rentistas milionários já podem ir para as escolas ianques aqui mesmo, desde bebezinho até pós-graduarem-se.

É ou não é colonialismo explícito? Agora liguem isso com os demais fatos que estão ocorrendo, como com os meios de comunicação.

Mídia brasileira tem, nitidamente, lado no jogo político brasileiro | Charge do Latuff
Mídia brasileira tem, nitidamente, lado no jogo político brasileiro | Charge do Latuff

De porta-voz do pensamento único imposto pela ditadura do capital financeiro, a mídia escrita se tornou cumplice da ocupação ao não denunciar esses fatos. Perdeu completamente a noção de pátria.

As emissoras de televisão, já há algum tempo, vêm contribuindo para alienar a população, para aculturar a nação. As grades de programação das televisões são ocupadas, majoritariamente, por filmes e seriados estadunidenses, programas brasileiros de banalização de nossos valores e com programas ditos religiosos que pregam a teologia da prosperidade do fundamentalismo neopentecostal.

As maiores editoras do país são agora propriedades de grandes corporações transnacionais ligadas ao capital financeiro e até à indústria de armas de guerra. A maioria das obras que editam são best-seller nos EUA ou na Europa, sobrando muito pouco espaço para os autores nacionais. São as pequenas editoras que ainda resistem em oferecer autores nacionais e obras clássicas requeridas para uma boa formação. Livrarias? Agora só sobraram as mega-livrarias de shoppings centers.

Esses são só alguns aspectos da desaculturação da nação brasileira. Faz parte dessa estratégia que estamos assistindo diariamente e, agora com mais ênfase, praticada pelo ilegítimo governo Temer:

∗ O processo contínuo de desindustrialização;
∗ A transferência dos monopólios estatais e estaduais para monopólios estatais de outros países ou de transnacionais;
∗ Desnacionalização da produção em todos os setores;
∗ A desregulamentação do trabalho;
∗ Desmontagem da Seguridade Social;
∗ Compra descontrolada de terras por estrangeiros;
∗ Ocupação da Amazônia por ONGs a serviço da estratégia de colonização;

Para assegurar essa situação, a metrópole colonial, inteligentemente, foi quem organizou e equipou os serviços de inteligência brasileira e também a Polícia Federal. Também já estão instaladas no país as maiores empresas estadunidenses de inteligência e espionagem. A militarização da Segurança Pública também faz parte dessa ocupação. Faz parte também a instalação de bases militares estadunidenses com tropas no Brasil e nos países vizinhos.

E o que fizeram no Rio de Janeiro longe de ser uma intervenção federal no Estado, é uma ocupação militar dos bairros por tropas das Forças Armadas Brasileiras. Ou seriam guardas pretorianas do império?. Seja lá o que for, é muito grave.

O mais grave é eu pensar, ou deduzir, que o Estado Maior das Forças Armadas está também sob ocupação. Se não, como explicar essa inércia dos responsáveis por assegurar a soberania nacional, diante dessa verdadeira ocupação colonial?

Estamos diante de uma constante violação da soberania nacional, de um verdadeiro processo de recolonização, e, enquanto isso, a esquerda grita: Fora Temer!

*Jornalista editor de Diálogos do Sul