Europa, Estados Unidos e agora a América Latina vivem sob a sombra de um dos movimentos mais destrutivos da história da humanidade. O fascismo revivido acaba com qualquer intento de humanizar as políticas dos Estados e carcome a própria alma das sociedades, criando uma onda de repulsa por tudo o que é considerado “diferente” e segregando os grupos mais pobres como se fossem eles os culpados por todos os males do planeta.

Carolina Vásquez Araya*

Nesse ambiente de desprezo e repressão contra as pessoas por motivos de etnia, religião, nível socioeconômico ou simplesmente por falar outro idioma, são as tropas de choque — uniformizadas ou de mercenários — que realizam a tarefa de fazer saber quais são as regras do jogo. Por essas regras da discriminação e do racismo é que crianças, homens e mulheres do triângulo norte da América Central sofrem perseguições, violações, tortura e morte, pela simples audácia de se atreverem a cruzar fronteiras que supostamente os levaria a encontrar melhores condições de vida. Foi assim que uma jovenzinha de apenas 20 anos — Claudia Patricia Gómez González — perdeu a vida com um tiro na cabeça disparado por um guarda fronteiriço ao ingressar ao território estadunidense, no final maio.

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Claudia Patricia Gómez González | Imagem: Reprodução

Claudia Patricia encontrou a morte por mandato da própria cabeça do império, desde o momento em que o presidente do país mais poderoso do planeta empreendeu a missão de “limpar” seu território de latinos e toda classe de estrangeiros “indesejáveis” para seus planos de impor um estilo fascista de governo. Ao parecer ignorante de sua própria história, este mandatário tem se empenhado, com uma persistência digna de melhores causas, à tarefa de transformar a sociedade estadunidense em uma espécie de modelo de seu conceito de comunidade na qual não cabe a diversidade.

Claudia Patricia não se encaixa no perfil aceitável para as leis de imigração dos Estados Unidos. Tampouco se encaixou nos objetivos dos planos de desenvolvimento de seu país, Guatemala, onde não teve oportunidade de ter acesso a uma educação de qualidade que lhe permitisse progredir na vida. Se tivesse tido, hoje provavelmente estaria viva. Em sua cidade, San Juan Ostuncalco, tal e como costuma acontecer nas áreas rurais guatemaltecas, os serviços estatais são deficientes; a população carece de água potável, de banheiros e de cobertura educativa suficiente para uma população em crescente aumento, com níveis inaceitáveis de pobreza e abandono.

Assim como ela não se encaixava nos planos de seu governo, tampouco se encaixaram milhares de crianças e adolescentes migrantes destas terras que, capturados em uma cadeia de horrores desde seu nascimento e ávidos de encontrar uma rota para o futuro, lançam-se em uma louca aventura. Desse desfile interminável em direção à terra da abundância são poucos os que conseguem seu objetivo. Muitos ficam pelo caminho, submetidos aos mais atrozes abusos pelas organizações criminosas dedicadas — com a cumplicidade das autoridades de todos os países envolvidos — ao muito produtivo negócio do tráfico de seres humanos. Outros, simplesmente, são vítimas de sua própria fragilidade e ficam largados no deserto, afogados nos rios durante uma travessia para a qual nunca estariam preparados, ou mortos por um tiro, mas sem que ninguém registrasse o fato para denunciá-lo.

Deste lado do continente sua família a chora e as redes fervem de justa indignação por esse absurdo fato sangrento. As autoridades, por sua parte, estão muito ocupadas em lutar contra a Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (Cicig) para dar atenção a este “fato isolado”.

Claudia Patricia foi condenada por sua pobreza, por seu país e pelo fascismo revivido.

*Colaboradora de Diálogos do Sul, da Cidade da Guatemala