“A divisão territorial e a fratura social coloca em cheque a integridade da Espanha. Quais as razões dos atores envolvidos? Quais os possíveis cenários futuros?”

Rodolfo José Bernat*

Jorge Rendón Vásquez“Victus”, é um livro de Albert Sanchez Piñol, que conta a vida de uma criança que pouco a pouco vai aprendendo a arte de defesa e de ataque a fortalezas; de maneira amena vai explicando as coisas que ocorrem durante suas viagens pela França, Castela e Catalunha. Faço constar que algumas das passagens aqui publicadas são de “Victus”.

Em 1476, o reino de Aragão (Aragão-Catalunha) em aragonês: Corona de Aragón; em Catalão, Corona de Aragó; englobava o conjunto de territórios que estiveram sob a jurisdição do rei de Aragão; em 1164, Alfonso II de Aragão herdava o conjunto do patrimônio.

Mais tarde, por conquista de novos territórios e matrimônio, essa união de reino e condado sob uma mesma coroa ampliaria seus territórios até incluir novos domínios: os reinos de Maiorca, Valença, Sicília, Córsega, Sardenha e Nápoles, e também os ducados de Atenas (1331 a 1388) e Neopatria (1319 a 1390).

Em 17 de julho de 1936, em Medina, dois coronéis e outros oficiais que estavam informados sobre a sublevação militar, traçaram os planos para ocupar, em 18 de julho, os edifícios públicos. O plano dos sublevados chegou ao conhecimento do general Romerales, comandante militar de Medina, que envia uma patrulha de soldados e guardas de assalto. Era o começo da guerra civil espanhola.

Durante todo o domingo de 1/10/2017, as redes sociais se inundaram de vídeos e imagens sobre a violenta operação militar policial na Catalunha que deixou um saldo de mais de 800 feridos.

As forças de segurança atuaram por ordens do governo nacional espanhol, que declarou ilegal o referendum e proibiu a realização do ato eleitoral. A divisão territorial e a fratura social mantêm toda Espanha em tensão. Uma maioria de espanhóis se pergunta: “como chegou a esse ponto um conflito que desafia a unidade nacional? Quais as razões dos atores envolvidos? Quais cenários possíveis no futuro?

Ninguém ignora que a Espanha é um país com severas tensões regionais. Desde a união das coroas de Castela e Aragão, de quem dependia a Catalunha, no século XV, o país ibérico teve que enfrentar o fato de que em seu interior existiam territórios com identidade, cultura e até línguas diferentes. São muitos os pensadores que definem a Espanha como uma nação de nações.

É longa a história do antagonismo entre Barcelona –capital da Catalunha- e Madrid, sede do governo central, com uma história que se remonta à constituição da Espanha como nação moderna. Não obstante, a demanda do nacionalismo catalão, adquiriu força nos últimos anos por conta de uma série de fatos que valem destacar:

Junho de 2010. “O Tribunal Constitucional anulou alguns artigos do Estatuto de Autonomia Catalã (equivalente a uma constituição estadual) o que foi interpretado por amplos setores catalães “como um avassalamento por parte do poder central, dos direitos e da autonomia política e financeira do povo catalão”.

Setembro 2012. Mais de um milhão de catalães saem às ruas pedindo a ruptura com a Espanha, sendo esta a primeira grande mobilização independentista das últimas décadas. O governo de Mariano Rajoy não escuta o clamor e, paralelamente, desestimula a possibilidade de renegociar um novo pacto fiscal orientado a reduzir o que Barcelona contribui ao conjunto da Espanha.

Novembro 2014. Liderado pelo então presidente regional, Artur Más, a Catalunha realiza uma consulta não oficial sobre a independência. Votam mais de 2,3 milhões de pessoas de um total de 5,4 milhões de habitantes.

Setembro 2015. “Junts Pel Si” aliança eleitoral favorável a secessão ganha as eleições regionais.

Junho 2017. O presidente regional Carles Puigdemont, convoca a um referendum independentista para o dia 1 de outubro.

Setembro 2017. O “Parlamento” catalão aprova a lei do referendum, que em poucos dias foi declarada inconstitucional pelo máximo tribunal de justiça espanhol. De toda maneira, as autoridades catalãs decidem desobedecer a sentença judicial e seguir adiante com a organização da consulta.

Vejamos agora algumas das muitas posições:

Por exemplo, qual é a posição do governo de Mariano Rajoy?

Desde que o movimento independentista começou o presidente espanhol resolveu encarar o desafio como uma questão não legal, portanto, alheio ao encaminhamento constitucional. Com essa concepção, tratou de desativar a demanda catalã com base em duas vias: uma judicial e outra coercitiva. Rajoy interpretou a ruptura como um problema judicial antes que político. Não obstante, a declaração de inconstitucionalidade do referendum não freou a consulta na Catalunha, que ingressou numa espécie de desobediência civil.

Em vez de deixar que realizassem o ato eleitoral de 1 de outubro para depois desconhecer seus resultados, Rajoy se posicionou como o “garantidor das leis e da constituição espanhola” e ordenou o envio das forças de segurança nacionais à Catalunha com o objetivo de assumir o controle dos centros de votação.

Qual é a posição dos empresários?

Sob o título “Independência da Catalunha: O desastre de 17 para as empresas”, a maioria dos empresários catalães qualifica a possível declaração de independência da Catalunha como “um grande desastre econômico”. Para muitos faz lembrar o ambiente prévio à guerra civil de 1936 e se aterrorizam com a possibilidade de ter chegado a um ponto de não retorno.

Muitos empresários catalães participaram do XX Congresso do Instituto de Empresa Familiar e aproveitaram a ocasião para comentar como estão vivendo essa situação. Para os empresários espanhóis isso pressupõe renunciar a um mercado que representa 20% das vendas.

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Argentina