Crônicas

Tempos Brutos

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Desde garotinho preferiu o não ao sim, a tentativa à certeza. Esse temperamento não correspondia às fantasias dos pais e professores. Fernanda Pompeu* Ele era uma ave rara no meio de um rebanho rotineiro. De avós a netos, todos haviam encarado a vida como uma biblioteca de tramas já escritas. Na qual bastava estender a mão, colher um volume e…

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Teixeira Gomes e o envelhecimento

“E a parte mais dolorosa da senilidade consiste em assistir, consciente mas impotente, à nossa própria ruína mental! (…) a vista já muito mal me serve e a minha memória é um vidro transparente onde logo se apaga tudo quanto nela se reflete”. Miguel Urbano Rodriguez* São palavras de Teixeira Gomes, anotadas em 1938 no quarto do hotel em Bougie…

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Poderosas Mulheres

“Escuta, formosa filha do amor, as instruções da prudência, e permite que os preceitos da verdade penetrem profundamente em teu coração, assim os encantos de tua mente darão brilho à elegância de suas formas, e tua beleza, como a rosa a qual se assemelha, conservará sua doçura mesmo depois de murchada”. Olavo Câmara* Portanto, você mulher, mãe e amiga receba…

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As migrantes em trânsito

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Saem de suas casas: em municípios, aldeias, casarios, arrabaldes… sem rumo fixo, como folhas secas arrastadas pelo vento, mortas em vida, caluniadas, golpeadas, abusadas, rechaçadas e estigmatizadas. Ilka Oliva Corado* Pouco se sabe delas: são invisibilizadas, o Estado as marginaliza, a sociedade as exclui, o classismo, o racismo e os resquícios do patriarcado. Seu país as obrigam ao abandono e…

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Saúde ao meu pai: De filhas e pais

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A última vez que eu o vi, me disse meu paizinho: “Preta, eu vou morrer”. Fria e direta como é natural em mim, eu respondi sem sentir pena: “paizinho, não fique chateado, todos nós vamos morrer”. Quase um mês depois ele faleceu, a notícia nos chegou de longe, na diáspora, a milhares de quilômetros da Guatemala, há apenas cinco dias.…

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Em Paris pela última vez

Quando alguém tem uma profunda consciência histórica -como é o caso de Miguel Urbano- mesmo as reflexões mais íntimas e pessoais têm o cunho não apenas de um ser humano individual, mas o de um tempo comum. A sua história pessoal nunca foi e nunca é apenas pessoal. Miguel Urbano Rodrigues* Mais de uma vez ao longo da minha extensa…

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A farsa do dia de Ação de Graças

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Não há nada mais falso, mais ruim, mais soberbo nos Estados Unidos que celebrar o Dia de Ação de Graça. É a celebração mais importante depois do 4 de julho, a terceira é o Natal. Ilka Oliva Corado* Amparados numa história falsa, escrita pelos genocidas que invadiram este país e exterminaram os nativos do norte do continente, celebra-se a cada…

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Do ódio ao inimigo

Quando temos um inimigo – e estamos em luta contra esse inimigo – suspendemos a crença de que nele há um ser também capaz de algo bom. Abstraímos suas características de ser humano como nós. Passamos a vê-lo como um ser achatado, sem família, sem sentimentos, sem uma vida que, para ele, certamente é tão preciosa quanto, para nós, a…

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Nossas terríveis armas

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Mãos ao alto! Agora, sim, de vez, chegamos à conclusão que somos, nós mesmos, armas; e que tudo pode mesmo ser ou virar arma. Que de um segundo a outro algo pode vir de qualquer lado e estragar tudo. Só com corações e mentes desarmadas poderemos nos sentir seguros. Marli Gonçalves* Andamos todos nós armados até os dentes. Aliás, literalmente,…

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O príncipe menstruado

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Três meninas. Denise, Fátima e eu. A tarde era de um domingo medíocre e acalorado. A brincadeira, proposta por Fátima, consistia em representar uma cena teatral: o momento em que o príncipe encantado beijava a bela adormecida, acordando-a de um sono enfeitiçado para uma vida fausta em promessas principescas de amor, filhos e paz. Fernanda Pompeu* A falta de cenário…

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O colonialismo por trás da cortina da Eurocopa

Cristiano Ronaldo entrou para o rol das lendas do futebol mundial. Conseguir que a fraca seleção portuguesa obtivesse seu primeiro título Europeu só foi possível por sua atuação dentro e fora do campo. Sua atitude de conter o choro de frustração por deixar o campo devido a uma lesão no joelho, para voltar a motivar e dirigir os jogadores se…

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Desafinando o coro dos contentes

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A frase do título é verso de Torquato Neto (1944-1972). Poeta que em sua brevíssima vida desafinou as mesmices do redigir. O cara experimentou para valer e pôs a alma para fora. Salve, menino Torquato! O craque da máquina de escrever. Fernanda Pompeu* Foi pensando no poeta e letrista piauense que me recordei do carioca Carlos Lamarca (1937-1971). Não que…

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Pode me escutar um minuto?

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Tem de pedir por favor? Pagar? Comprar uma ficha? Você diz uma coisa e respondem outra. Ninguém mais dá mais atenção um ao outro? Reparou? Será que alguém pode me escutar um minuto? Virou uma competição de egos, de desgraças, coisa para novos estudos sobre intercomunicação e a nova Torre de Babel. Marli Gonçalves* Melhor falar com o espelho, com…

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Sempre alerta, que estado é este de viver?

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Marli Gonçalves* Já ia mesmo falar sobre isso. Sobre o medo, o estado constante de alarme, de alerta, de atenção, aqueles que decretamos por nós mesmos praticamente todos os dias. A sexta-feira de terror e sangue em Paris, no entanto, mostrou que os horizontes do perigo passaram a ser ainda maiores, mais mortais e complexos. Fica difícil viver em paz…

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Kafka: A barata faz 100 anos

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Fernanda Pompeu* Uma das venturas – não são muitas – de envelhecer é a capacidade de reconhecer e agradecer o que muitas pessoas fizeram por nós. Júlio, meu avô postiço, judeu fugido da barbárie nazista, deu com o destino no Rio de Janeiro. Sua vida se tornou um esforço de adaptação à língua, à cultura, ao calor diabólico. Ao constatar…

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Que venha a Primavera brasileira

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Marli Gonçalves* Há de chegar a nossa primavera, para que os dias possam voltar também a ser mais normais, que possamos realizar as coisas, com mais perspectivas, e não tenhamos mais de perder tanto tempo só cortando prazeres das nossas vidas, nem mais discutindo e pensando nas pragas que devassaram esse nosso imenso jardim. Eles não são flores que se…

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A californiana em sua bicicleta

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Ilka Oliva Corado* Eu ia em minha bicicleta desfrutando a ciclovia e a paisagem do lago Michigan no centro da cidade, quando de repente passou um adolescente puna em sua bicicleta californiana, e eu o senti como uma ventania, um ar frio que me fez ficar arrepiada e vieram de golpe as recordações da minha infância com a frase “chifres…

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Sua excelência, o rádio

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Fernanda Pompeu* Muito antes dos iPods e similares colados nos ouvidinhos, houve os rádios de tomada e depois de pilha. Pelo Brasil profundo eles ainda resistem, apesar do assombroso avanço dos smartphones. Mas bem mais interessante do que o aparelho em si, é viajar para atrás no relógio e encontrar a importância do rádio antes que a televisão roubasse as…

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Sonhei que eu era a Dilma

Maria José Silveira* Como em todo sonho, eu não reconheci bem onde estava. Era um quarto, o meu quarto no Palácio da Alvorada, mas era como se nunca estivesse estado lá. O que não tinha a menor importância; o que importava era decisão que eu havia tomado. O primeiro que fiz foi me vestir do jeito que gosto: calça preta…

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A pura verdade

Carolina Vásquez Araya* O denominador comum do discurso político é a falsidade. Assim pensam aqueles que desejam conquistar um espaço e acham que é impossível fazê-lo sem mentir, porque segundo eles ninguém dará um voto a quem destroce suas aspirações. Por isso: “em meu governo será dada prioridade às necessidades do povo”, “quando me elegerem presidente as coisas vão mudar…

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Quando as putas são nossas

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Ilka Oliva Corado* Eu me lembro claramente de um meio dia quando voltava para casa depois da escola quando estava no primário, e que me agarrei aos socos com uns moleques e cheguei em casa toda estropiada e com a barra do uniforme desfiada. Minha pobre mãe que me considerava a filha indomável me perguntou desanimada: e agora, com quem…

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Arruma, rearruma e desarruma

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Marli Gonçalves* Esta é a nossa vida. Fazemos isso o tempo inteiro, numa espécie de TOC que é comum a todos. Já notou? Pode ver aí que você também tem alguma coisa ou ocasião que tem esse faniquito. Tira dali, põe aqui. Troca. Por exemplo, nossas finanças – quer coisa que a gente mais arrume, desarrume e rearrume? Há também…

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Telefone de Deus vai dar ocupado

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Marli Gonçalves* Deus me livre de imaginar que o povo está todo apelando para Deus porque está é jogando a toalha de tal forma que vai parecer muito aquele filme do piloto que sumiu, por isso que é preciso apertar o cinto e tal, pensa só. Apertar o cinto já estão mandando. Não olha agora, mas repara: o piloto sumiu.…

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Ô Véi, vamos falar dos véios?

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Marli Gonçalves* É véi para lá. Véi pra cá. Fala aí, véio! No pobre linguajar que se instala na nossa população o vocativo “Véi” virou uma daquelas pragas – de gíria e de muleta oral e verbal – que ninguém sabe onde começou nem quando vai acabar. O problema é que a rapaziada não sabe nem que o tal Véi/…

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Jornalismo: profissão João Bobo

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Marli Gonçalves* Bate no centro, pela direita, bate pela esquerda, soca, soca, soca; verga, mas não cai. Jornalista, com orgulho muito especial e carinho pela profissão que escolhi, embora tenha hora que um desânimo sem medida tome conta, vejo que viramos mesmo belo saco de pancadas, de um lado; culpados pelos problemas do mundo, de outro. Mal amados, malvistos. A…

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Retrospectivas e umas perspectivas

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Marli Gonçalves* Já começou. Nos próximos dias vai ser um tal de olhar para trás e lembrar tudo de ruim – coisa boa, pensa bem, foi pouca – que aconteceu nesse ano, que a gente vai ficar enjoado. Acho meio chato sofrer de novo, principalmente com as mortes. Também ando lendo muito sobre troféus Melhores de Alguma ou Qualquer Coisa…

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Prêmio Rose Marie Muraro

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Fernanda Pompeu* Clara Charf, Herilda Balduino de Sousa, Lenira Maria de Carvalho, Mireya Suárez, Moema Viezzer e Neuma Aguiar foram agraciadas com o Prêmio Rose Marie Muraro: Mulheres Feministas Históricas, destinado para ativistas com mais de 75 anos. A iniciativa vem da parceria entre a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e…

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Brasil 40 graus

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Fernanda Pompeu* O livro 1964 na visão do ministro do Trabalho de João Goulart, escrito por Almino Affonso, se parece com o filme Titanic. Todos que foram ao cinema sabiam do naufrágio final. Assim como os leitores do livro sabem que o golpe de 1964 afundou, por mais de duas décadas, a democracia brasileira. Então qual a graça em ver…

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Tristeza, Tristeza…

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Marli Gonçalves* Sinceramente, sei que não é possível. Não é – não pode ser – possível que haja alguém que esteja feliz de verdade com tudo isso o que está acontecendo ao nosso redor. Todo dia, dia todo. Falo do planeta, do mundo, de todos os continentes, mas especialmente de nossa Nação, esse conceito que anda tropicando na corda bamba.…

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1964 + 50

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Fernanda Pompeu* Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que, a partir de 1964, viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira. Quando vi meu pai morto, faz um ano, pensei para me consolar: ele teve uma vida imensa. Conheceu o fracasso, mas também o sucesso. Tentou, errou, tentou…

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Corações partidos

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Marli Gonçalves* Sempre achei superbonito aqueles casais que, para consagrar seus amores, mostram-se amarrados, carregam coisas complementares em pedaços e que, quando juntas, retomam a unidade, completando-se de forma romântica. Feitas de material nobre, as peças podem ser moedas, anéis, chaves,/cadeado, e o coração, este cortado em duas partes com ziguezague que se encaixam perfeitamente. Infelizmente, nesse nosso amor por…

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Getúlio Vargas: Um tiro completa 60 anos

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Fernanda Pompeu* Meu saudoso pai comprava flores no mercado municipal de Taubaté – Vale do Paraíba -, quando a florista esbaforida soltou a bomba: Acabei de ouvir no rádio que o velho se matou! O velho era Getúlio Dornelles Vargas, presidente do Brasil. O rádio, em 1954, era o principal veículo pelo qual os brasileiros ouviam músicas, programas humorísticos e notícias. TV era…

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O professor

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Fernanda Pompeu*  Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Não havia nenhuma chance de um mal-entendido quanto ao local e horário. No 31 de outubro de 1975, toda São Paulo estava sabendo que na Catedral da Sé, o católico Dom Paulo Evaristo Arns, o…

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Duas filhas da ditadura

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Fernanda Pompeu*   Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira. Já se vão quase trinta anos que minha amiga, num gesto tresloucado e para sempre inexplicável, atirou contra a própria cabeça interrompendo uma mente brilhante. Pois, com 20 anos, ela era…

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Lembrança de Rubens Macuco Mosca

Helena Macuco Mosca Seu pai maestro, compositor, professor e jornalista Radamés Mosca. Sua mãe professora normalista, escritora, poetisa e jornalista Nathercia Macuco Mosca. Aprendeu as declinações latinas com seu irmão mais velho e começou a ler assistindo televisão (1950), por volta dos cinco anos, alfabetizado por sua mãe. Aprendeu os primeiros passos de como fazer um jornal com seu pai:…

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Contos da maladita

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Fernanda Pompeu* Em 1975, eu estudava no Colégio Equipe. Para quem não ouviu nada sobre ele, conto aqui. Era um colégio particular com inspiração coletiva e fama de permitir que os alunos se expressassem. Isso numa época na qual a livre expressão podia virar questão de segurança nacional. Nos dias atuais, há garotas e garotos – e velhinhos também -…

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Amantes de aço

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Fernanda Pompeu* Gabriel García Márquez (1927-2014), autor do romance mágico Cem Anos de Solidão e de outras iguarias jornalísticas e literárias, declarou certa vez que para escrever necessitava ter uma flor amarela sobre a mesa. Até parece que o talento de Gabo precisava ser visitado pela inspiração, puro fetiche. Escritores são particularmente tocados por manias. Uma amiga minha, colombiana como…

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Padre Antonio Vieira

“Aquele a quem convém mais do que é lícito, sempre quer mais do que convém.” Padre Antonio Vieira Conferindo o calendário de efemérides constatei ser hoje a data do nascimento do Padre Antonio Vieira, religioso, escritor e filósofo luso-brasileira, cujas obras li na juventude e que até hoje, vez em quando releio. Em especial, seus célebres Sermões, que espantosamente, qual…

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Qual a sua Geni?

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Fernanda Pompeu* Faz trinta e seis anos, Chico Buarque compôs uma canção cuja letra conta de uma mulher que já foi namorada “de tudo que é nego torto, do mangue e do cais do porto. A rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos velhinhos sem saúde, das viúvas sem porvir.” A cidade toda, ao vê-la, canta em coro um…

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Tiros: sobre uma biografia de Getúlio Vargas

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Fernanda Pompeu* Getúlio Vargas (1882-1954) gostava tanto do poder que ao saber de um golpe que o destituiria da presidência da República preferiu dar um tiro no peito. Deixou na sua carta-testamento a célebre frase: Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história. Foi o fim de um homem que passou,…

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