Fernanda Pompeu

Tempos Brutos

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Desde garotinho preferiu o não ao sim, a tentativa à certeza. Esse temperamento não correspondia às fantasias dos pais e professores. Fernanda Pompeu* Ele era uma ave rara no meio de um rebanho rotineiro. De avós a netos, todos haviam encarado a vida como uma biblioteca de tramas já escritas. Na qual bastava estender a mão, colher um volume e…

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Diversidade: Meu nome é existir

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Então chega a segunda-feira. No cafezinho, a colega conta que a viagem com o noivo foi 10, ruim mesmo só a fila no aeroporto. O chefe diz que passou o domingão no sofá, ele e a mulher botaram em dia a pipoca e os capítulos atrasados do Homeland. O estagiário, deixando a timidez de lado, confidencia que conheceu uma garota…

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Lucinha e As caras da violência

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Maria Lúcia da Silva, a Lucinha, não transita pelos movimentos feminista e negro em brancas nuvens. Muito ao contrário. Ela é o tipo de pessoa que faz e reflete. Reflete e faz. Psicoterapeuta, especialista em mediação e trabalhos em grupos, com recortes de raça e gênero. É uma das fundadoras do Instituto AMMA – Psique e Negritude, ONG que trabalha…

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O príncipe menstruado

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Três meninas. Denise, Fátima e eu. A tarde era de um domingo medíocre e acalorado. A brincadeira, proposta por Fátima, consistia em representar uma cena teatral: o momento em que o príncipe encantado beijava a bela adormecida, acordando-a de um sono enfeitiçado para uma vida fausta em promessas principescas de amor, filhos e paz. Fernanda Pompeu* A falta de cenário…

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“Esqueço não”, Janaína de Almeida Teles

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Janaína de Almeida Teles, nascida em 1967, tem pedigree político. É filha de Amelinha e César Teles – dois ativistas pelos direitos humanos de longa viagem. Sobrinha da Criméia de Almeida, sobrevivente da Guerrilha do Araguaia. Irmã de Edson Teles, estudioso do período militar. Prima de João Carlos Grabois, o Joca, nascido na prisão. Historiadora e pesquisadora com livros publicados,…

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Desafinando o coro dos contentes

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A frase do título é verso de Torquato Neto (1944-1972). Poeta que em sua brevíssima vida desafinou as mesmices do redigir. O cara experimentou para valer e pôs a alma para fora. Salve, menino Torquato! O craque da máquina de escrever. Fernanda Pompeu* Foi pensando no poeta e letrista piauense que me recordei do carioca Carlos Lamarca (1937-1971). Não que…

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Kafka: A barata faz 100 anos

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Fernanda Pompeu* Uma das venturas – não são muitas – de envelhecer é a capacidade de reconhecer e agradecer o que muitas pessoas fizeram por nós. Júlio, meu avô postiço, judeu fugido da barbárie nazista, deu com o destino no Rio de Janeiro. Sua vida se tornou um esforço de adaptação à língua, à cultura, ao calor diabólico. Ao constatar…

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Sua excelência, o rádio

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Fernanda Pompeu* Muito antes dos iPods e similares colados nos ouvidinhos, houve os rádios de tomada e depois de pilha. Pelo Brasil profundo eles ainda resistem, apesar do assombroso avanço dos smartphones. Mas bem mais interessante do que o aparelho em si, é viajar para atrás no relógio e encontrar a importância do rádio antes que a televisão roubasse as…

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Rindo do quê?

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Fernanda Pompeu* A morte se anuncia quando paramos de rir. Meu pai foi um sujeito de várias risadas. Ele tinha o humor da provocação. Quando tudo soava calmo ou careta demais, ele soltava uma frase ou fazia um gesto para bagunçar o coreto. Mesmo sem ter lido o poeta Torquato Neto (1944 -1972), papai fazia acontecer os versos: Vai bicho…

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Prêmio Rose Marie Muraro

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Fernanda Pompeu* Clara Charf, Herilda Balduino de Sousa, Lenira Maria de Carvalho, Mireya Suárez, Moema Viezzer e Neuma Aguiar foram agraciadas com o Prêmio Rose Marie Muraro: Mulheres Feministas Históricas, destinado para ativistas com mais de 75 anos. A iniciativa vem da parceria entre a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e…

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Brasil 40 graus

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Fernanda Pompeu* O livro 1964 na visão do ministro do Trabalho de João Goulart, escrito por Almino Affonso, se parece com o filme Titanic. Todos que foram ao cinema sabiam do naufrágio final. Assim como os leitores do livro sabem que o golpe de 1964 afundou, por mais de duas décadas, a democracia brasileira. Então qual a graça em ver…

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1964 + 50

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Fernanda Pompeu* Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que, a partir de 1964, viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira. Quando vi meu pai morto, faz um ano, pensei para me consolar: ele teve uma vida imensa. Conheceu o fracasso, mas também o sucesso. Tentou, errou, tentou…

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Getúlio Vargas: Um tiro completa 60 anos

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Fernanda Pompeu* Meu saudoso pai comprava flores no mercado municipal de Taubaté – Vale do Paraíba -, quando a florista esbaforida soltou a bomba: Acabei de ouvir no rádio que o velho se matou! O velho era Getúlio Dornelles Vargas, presidente do Brasil. O rádio, em 1954, era o principal veículo pelo qual os brasileiros ouviam músicas, programas humorísticos e notícias. TV era…

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O professor

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Fernanda Pompeu*  Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Não havia nenhuma chance de um mal-entendido quanto ao local e horário. No 31 de outubro de 1975, toda São Paulo estava sabendo que na Catedral da Sé, o católico Dom Paulo Evaristo Arns, o…

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Duas filhas da ditadura

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Fernanda Pompeu*   Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira. Já se vão quase trinta anos que minha amiga, num gesto tresloucado e para sempre inexplicável, atirou contra a própria cabeça interrompendo uma mente brilhante. Pois, com 20 anos, ela era…

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Caiam os reis!

Fernanda Pompeu* Leio que o rei da Espanha Juan Carlos abdicou do trono em favor do filho Felipe. Parece que o papa Bento XVI anda fazendo escola. O que é uma ideia otimista. Há momentos e circunstâncias em que o mais honesto a fazer é ir-se. Deixar carta, e-mail, vídeo, áudio com um libertador: Fui! Verdade também que Bento e…

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Contos da maladita

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Fernanda Pompeu* Em 1975, eu estudava no Colégio Equipe. Para quem não ouviu nada sobre ele, conto aqui. Era um colégio particular com inspiração coletiva e fama de permitir que os alunos se expressassem. Isso numa época na qual a livre expressão podia virar questão de segurança nacional. Nos dias atuais, há garotas e garotos – e velhinhos também -…

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Amantes de aço

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Fernanda Pompeu* Gabriel García Márquez (1927-2014), autor do romance mágico Cem Anos de Solidão e de outras iguarias jornalísticas e literárias, declarou certa vez que para escrever necessitava ter uma flor amarela sobre a mesa. Até parece que o talento de Gabo precisava ser visitado pela inspiração, puro fetiche. Escritores são particularmente tocados por manias. Uma amiga minha, colombiana como…

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Qual a sua Geni?

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Fernanda Pompeu* Faz trinta e seis anos, Chico Buarque compôs uma canção cuja letra conta de uma mulher que já foi namorada “de tudo que é nego torto, do mangue e do cais do porto. A rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos velhinhos sem saúde, das viúvas sem porvir.” A cidade toda, ao vê-la, canta em coro um…

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Tiros: sobre uma biografia de Getúlio Vargas

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Fernanda Pompeu* Getúlio Vargas (1882-1954) gostava tanto do poder que ao saber de um golpe que o destituiria da presidência da República preferiu dar um tiro no peito. Deixou na sua carta-testamento a célebre frase: Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história. Foi o fim de um homem que passou,…

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Fácil publicar, difícil ser lido

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Fernanda Pompeu*  Um dos maravilhosos milagres da Nossa Senhora da Internet é possibilitar a expressão de uma multidão de escribas. Está fácil publicar e quase todo mundo está bordando palavras no Facebook, Twitter, blogs e congêneres.  A enorme vantagem de uma multidão de escribas é navegarmos na infinita leitura de pontos de vista, abordagens, narrativas. Veganos e carnívoros, devassos e…

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