Primárias no Chile: a direita feliz, o centro ausente, a esquerda expectante.

Pedro Santander*

acabam-primário-eleitoral-in-chile-start-contar-de-votosSem mistérios em torno nas primeiras Primárias legais na história política do Chile, realizada no primeiro domingo de julho (4/7/17). Eram muitas as interrogantes que circulavam antes dessa eleição, em que disputaram três candidatos da direita (Sebastián Piñera, Felipe Kast e Juan Osandón) y dois da Frente Ampla de esquerda (Alberto Mayol e Beatriz Sánchez)

O  que mais chama atenção neste cenário é que a situação, agrupada na Nueva Mayoría (NM), não participou, pois seus candidatos presidenciais –o independente Alejandro Guillier e a democrata-cristã Carolina Goic- não chegaram a um acordo e prometem ir às eleições presidenciais de novembro. Ou seja, os partidos do governo vão separados; enquanto a direita e a esquerda conseguiram unidade em torno a um só candidato próprio.

Pela direita, Sebastián Piñera se impôs com folga alcançando 56% dos votos e na Frente Ampla (FA), ganhou Beatriz Sánchez, a candidata mais moderada, com 68% dos votos.

Até aí, nada de novo. A grande surpresa foi o elevado comparecimento de eleitores, sobretudo de direita. Apesar de essas primárias transcorrerem no mesmo dia em que o Chile disputou o final da Copa de Confederações contra a Alemanha, cerca de um milhão 700 mil chilenos foram às urnas, ou seja, 12% do eleitorado total. Entre eles, 1,3 milhões votaram pelos candidatos da direita e 327 mil pelos da FA..

Num país como o Chile, em que a abstenção eleitoral soe ser de 60%, ninguém –menos o governo e a NM- esperava um comparecimento tão alto; e tampouco que os eleitores da direita quadruplicassem os da esquerda em participação.

Depois de uma campanha difícil e tensa em que se teve que dar muitas explicações relacionadas com o papel do dinheiro na política chilena, Sebastián Piñera –um dos homens mais ricos da América Latina- apareceu hoje com um sorriso de orelha e orelha. O setor mobilizou sua gentes, seu triunfo foi contundente e a temida esquerda não conseguiu 500 mil votos que tinha projetado. Além disso, a NM, devido à diferenças internas, cometeu o erro de não participar deste pleito eleitoral, perdendo visibilidade e protagonismo num evento político crucial. Apesar de ser governo, a NM se converteu num ente fantasmagórico. Os debates públicos (em rádio e TV), o antagonismo político assim como a agenda midiática girou em torno da direita e do FA, pouco deles se falou nas últimas semanas.

A FA tinha elevadas expectativas e alcançou relativamente. Esperava 500 mil eleitores apareceram pouco menos de 300 mil. Se considerarmos que nas últimas eleições municipais (outubro de 2016) o FA teve 270 mil votos, podemos dizer que toda sua militância compareceu para votar, em 100% (o que é importante e positivo), porém o crescimento de outros setores independentes foi escasso. É uma boa chamada de atenção para uma coligação que conseguiu romper o duopólio político dos partidos neoliberais, agrupados na direita e na NM, mas ainda há que considerar o eleitor que está fora da militância tradicional e especialmente, buscar o eleitor que tradicionalmente está se abstendo nas décadas anteriores.

De toda maneira, há que recordar que há três meses o FA no existia e seu nascimento responde e é a culminação de um longo processo da esquerda chilena, derrotada em 1973, de voltar a se unir em torno de posições de questionamento do capitalismo. O FA não teve talvez toda a força que esperava, mas em três meses fez muito. E se situou como uma força importante na contenda eleitoral de cada às eleições gerais.

Fica a dúvida se nos cinco meses que faltam para as eleições presidenciais poderá demonstrar que pode ser uma opção de governo com Beatriz Sánchez. É indiscutível que estamos diante de uma nova cartografia política no Chile. Às eleições de novembro deste ano concorrerão três agrupações e não duas como tem ocorrido desde que em 1990 recuperamos a democracia. A esquerda irrompeu no cenário eleitoral num contexto de enfraquecimento do centro político e de aquartelamento  da direita em seu próprio território.

Faltam cinco meses de campanha e muita coisa pode ainda acontecer. Piñera tem sérias dificuldades para crescer pelo centro, a NM vai dividida. Se a esquerda aprende do passado, se fortalece e faz uma boa campanha, pode ainda sonhar com passar para o segundo turno. A chave está em mirar para fora do seu eleitorado fiel, conseguir que as pessoas que não votam se inclinem por eles.

Pelo menos em seu discurso de vitória, Beatriz Sánchez anunciou que lutará para que isso ocorra. Disse “Isto está apenas começando, se acabou o tempo, estamos prontos na Frente Ampla para conquistar o poder e reparti-lo. Começamos a disputar o poder, terminou a política de dois blocos.”.

* Pesquisador da Celag. em Original http://www.celag.org/primarias-en-chile-la-derecha-feliz-el-centro-ausente-la-izquierda-expectante/