“O plano prevê a criação de um Sistema Financeiro Internacional fora da órbita do King Dólar e na nova ordem mundial que terá início em janeiro de 2018.”

Dagoberto Aranha Pacheco*

dagoberto-aranha-pacheco-1Hoje acordei bem cedo, o sol ia alto e quente e eu estava cheio de vontade de escrever e partilhar minhas avaliações com os poucos, mas felizmente diferenciados e fiéis leitoras e leitores.

Enquanto Trump se distrai em tuitar suas ameaças ao jovem Líder Atômico e buscar, sem sucesso, o apoio da China para conter o avanço do programa nuclear na Coreia do Norte, a China está ativamente estruturando e finalizando o secreto Plano Estratégico que publiquei, em três capítulos, em 23 de setembro de 2015.

O plano prevê a criação de um Sistema Financeiro Internacional fora da órbita do King Dólar
O plano prevê a criação de um Sistema Financeiro Internacional fora da órbita do King Dólar

Confesso que o li, novamente, e fiquei surpreso ao constatar como o desenvolvimento das etapas do projeto foram rigorosamente cumpridas, como então as descrevi.

O plano prevê a criação de um Sistema Financeiro Internacional fora da órbita do King Dólar e numa nova ordem mundial que terá início em janeiro de 2018.

O objetivo deste artigo é mostrar os verdadeiros propósitos da China e de seus aliados no projeto e suas consequências para o mundo das finanças. Torcendo para que meus leitores ao tomar conhecimento do que está na iminência de ocorrer, não fique esperando para ver se é verdade, de fato, mas tome providências efetivas para proteger seu patrimônio e a segurança de sua família.

Estes são os preparativos que já foram desenvolvidos e implantados na surdina:

1 – Acúmulo de ouro em grandes proporções, não apenas produzidos na própria China, que é a maior produtora mundial do metal, mas importados de vários países, segundo os procedimentos que descrevi em vários ensaios com o objetivo de evitar o aumento dos preços. Esse procedimento foi desenvolvido ao longo da última década, embora não haja registro de exportação pela China de nenhuma grama de ouro, sequer.

2 – Transmitir confiança no Yuan, a moeda chinesa, vinculando-a ao lastro em ouro; para isso foi criado no Shanghai Gold Exchange o mercado futuro do Yuan denominado em ouro. Isso significa que qualquer país que venda produtos para a China, que pelas novas regras receberá o pagamento em reservas constituídas em Yuan, tenha a tranquilidade de transformar sua reserva em ouro no mercado de Shanghai e transformá-lo, posteriormente, em qualquer outra moeda integrante da SDR, a cesta de moedas reservas do FMI. Ademais, a vinculação do Yuan ao ouro trará confiança e estabilidade para a moeda chinesa. A confiança na moeda é essencial para o sucesso do projeto e como a China já é a primeira em comércio internacional e superará os EUA como a maior economia mundial até 2020, não tenho dúvidas de que terá um retumbante sucesso no seu projeto de tornar o Yuan a moeda reserva por excelência no decorrer dos próximos anos.

3 – A China lançou em setembro o contrato futuro para o crude oil, precificado em Yuan conversível em ouro.

Estas iniciativas você, minha cara leitora e fiel leitor, não tomou conhecimento pela mídia e se ouviu falar alguma coisa do aqui relatado foi fora de contexto, em mensagens de 30 segundos misturadas com as notícias preferidas de corrupção e bandidagem. Para se informar de quais acontecimentos realmente importantes e relevantes estão ocorrendo no mundo e que poderão implicar diretamente em nossas vidas é necessário tempo e disposição para pesquisar, coletar informações e estabelecer relações entre elas, ou seja, um trabalho de inteligência que venho há anos partilhando com o público em geral, através das redes sociais, sem nenhum interesse pecuniário ou de qualquer vantagem. A situação de desemprego do povo brasileiro pagando pelos desmandos do governo passado e presente foram previstas durante a época em que eu procurava saber em qual país o Ministro Mantega vivia, para que eu pudesse me mudar para lá! Os que se prepararam se deram bem e puderam até ganhar muito.

Estas alterações implementadas pela China terão o poder, mais do que possam imaginar, de alterar profundamente a atual ordem mundial estabelecida para o comércio e as finanças, que até agora gravitaram em torno do King Dollar. Esta particular situação conferiu aos EUA a cômoda situação de ser um país diferente de todos os demais, pois é o único país que toma recursos de outros e importa produtos sempre pagando em sua própria moeda, sem se preocupar com o câmbio. E se o orçamento está estourado, com déficits crescentes, sem problema, basta encomendar notas novas na impressora do Tesouro e pagar suas dívidas com dinheiro de vento. É assim que funciona, mas essa situação está com os dias contados e como consequência a vida dos norte-americanos vai mudar radicalmente. Por essa razão, fez sentido na campanha presidencial o mote: “The American First” e, afinado com o sentimento do povo americano previ, contra todas as estatísticas, a vitória de Donald Trump.

A China está resgatando os tempos anteriores ao governo Nixon, quando o dólar era bancado por ouro estocado no Fort Knox. Isso significava que qualquer pessoa, fosse cidadão nacional ou estrangeiro poderia ir ao mercado de câmbio e trocar os seus dólares por ouro a uma taxa determinada de conversão. Por isso, o dólar era uma moeda confiável e estável por estar vinculada ao ouro, um ativo que tem valor intrínseco.

Outro objetivo que a China e os demais países asiáticos pretendem atingir é a redução do poder dos EUA de impor sanções comerciais e financeiras aos países que deixam de cumprir as regras por eles estabelecidas junto aos órgãos internacionais.

O sistema já está funcionando

Rússia e Irã já vêm operando suas exportações de óleo para a China, produzindo reservas em Yuan como forma de contornar as sanções impostas ao comércio em dólar.
Rússia e Irã já vêm operando suas exportações de óleo para a China, produzindo reservas em Yuan como forma de contornar as sanções impostas ao comércio em dólar.

Rússia, Irã, Venezuela, vários países integrantes da OPEP e do BRICS, com a exceção, por enquanto, da Arábia Saudita, já aderiram ao novo sistema chinês. Rússia e Irã já vêm operando suas exportações de óleo para a China, produzindo reservas em Yuan como forma de contornar as sanções impostas ao comércio em dólar. A maioria das importações de crude pela China já estão sendo contratadas em Yuan-Ouro em contratos de longo prazo. O volume médio das importações em 2016 foi de 7,6 milhões de barris-dia. No primeiro semestre de 2017 a China importou 212,4 milhões de toneladas de crude, segundo a Wood Mackenzie, sendo os maiores exportadores Rússia, Angola, Saudita Arábia, Iraque, Oman, Irã, Brasil, Venezuela, Kuwait e U. Emirados, nesta ordem.

A China está trabalhando para reduzir o domínio do US dólar no mercado de commodities. A nossa Vale já aderiu ao programa e está exportando minério de ferro em Yuan-ouro.

As operações Yuan-ouro negociadas no mercado futuro do Shanghai Gold Exchange, já foi lançado em Hong Kong, em julho, e será estendida para Budapeste, capital e importante centro financeiro da Hungria, ainda no decorrer deste ano.

Essa ideia de oferecer ouro como meio de pagamento não é uma novidade, já foi experimentada no passado com sucesso. No momento atual ganha significado por oferecer ao produtor de petróleo e outras commodities, que prefere negociar seu produto em dólares onde já possui reserva, de conservar esse procedimento negociando ouro por dólares.

As operações Yuan-ouro negociadas no mercado futuro do Shanghai Gold Exchange, já foi lançado em Hong Kong, em julho, e será estendida para Budapeste,
As operações Yuan-ouro negociadas no mercado futuro do Shanghai Gold Exchange, já foi lançado em Hong Kong, em julho, e será estendida para Budapeste,

É bom que se diga que em todo o processo de mudança há uma resistência natural, mas neste caso há custos elevados. O produtor terá uma natural resistência em aceitar o Yuan porque essa moeda ainda não tem a liquidez do dólar nas operações de comércio exterior. Além disso, a China é um país comunista e há uma tendência natural em preferir a negociação com uma país capitalista e democrático.

Essa questão pode ser posta pela análise de um caso prático que estudei profundamente e o apresentei em outros ensaios denominados ‘A Guerra do Petróleo’. O processo de substituição do ouro, que bancava o dólar, pelo petróleo, que deu origem ao petrodólar, foi uma negociação entre EUA e Arábia Saudita pelo governo Richard Nixon. Os sauditas possuem um mar de petróleo e estavam, como estão ainda, cercados de inimigos. A proposta de Nixon foi de que a Arábia Saudita exportasse todo o seu petróleo aos EUA na moeda dólar e, em contrapartida, os americanos forneceriam armamentos e proteção bélica ao exportador que seriam também pagos em dólares. Algo bem parecido com o que está propondo a China, não lhe parece?

A situação, agora, é completamente diferente. Os EUA através da tecnologia “ fracking” desenvolvida nos últimos cinco anos e que lhes permitiram extrair petróleo a custo mais barato das rochas de xisto, se transformaram, no conjunto, de maior importador em maior concorrente da Arábia Saudita no mercado de petróleo. Essa foi a razão pela qual o barril de petróleo caiu de $120 para $40 e permanece baixo oscilando entre $50 e $55. Em consequência, as exportações dos sauditas caíram enormemente, mas ainda assim e em razão da insegurança geopolítica, estão resistindo em abandonar o dólar pelo Yuan. Os chineses continuam importando petróleo saudita e o pagam em dólares, como forma de ir diminuindo suas reservas nessa moeda, que imagino que a consideram arriscada.

Mesmo assim, a Arábia vem perdendo “Market Share” em suas exportações para a China, cuja participação caiu de 25% para 16%, atualmente, enquanto a Rússia aumentou 11%, Angola 22% e outros países da OPEP, em conjunto, 42%.

Com essa perda de mercado, tanto para os EUA como para a China, é uma questão de tempo para a Arábia Saudita aderir ao novo sistema da China onde poderá intercambiar suas reservas em Yuan por ouro. Ou será que vai preferir os Treasuries que podem ser impressos sem critério e bancados pelo vento, ou talvez tufões? Vou esperar para ver.

Finalmente, para encerrar, li que a Saudi Aramco, a companhia nacional de petróleo da Arábia Saudita, está preparando um lançamento de ações, o IPO na sigla em inglês, que se espera seja a maior da história. Como a China está desesperada para baixar suas reservas nos EUA, acredito que não perderá a oportunidade de entrar na disputa associada com Rússia, Irã e outros países asiáticos e dessa forma, adquirindo expressiva participação na produção de petróleo consiga o seu intento de deslocar o dólar pelo Yuan nas transações dos sauditas.

Agora você está mais informado que a maioria das pessoas e poderá intuir que o dólar continuará caindo, pela sua perda de importância e o ouro, consequentemente irá subindo assim como as ações de algumas mineradoras mais bem estruturadas e com reservas dimensionadas. Por outro lado, o mercado de ações americano deverá sofrer uma queda razoável ou entrar num prolongado período de baixa (bear market).

Quem viver, verá e que continue de olhos abertos.

*Engenheiro e professor, colabora com Diálogos do Sul