Segundo o dicionário Houaiss comunismo é “o sistema de vida em comum em que os bens são partilhados, estando disponíveis segundo as necessidades de cada um”; preconiza a “harmônica igualdade social e econômica para todos, sendo que os bens serão distribuídos segundo as necessidades de cada um.” E menciona ainda o ensinamento “de cada um segundo sua capacidade; a cada um, segundo suas necessidades”.

Anderson Loureiro*

Cp,munista graças a deusJá socialismo, pelo mesmo dicionário, é uma “doutrina de organização social que privilegia o coletivo em detrimento do indivíduo. Um conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visa reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco de suas desigualdades.”

Sabemos que a maior nação capitalista do mundo é comunistofóbica. Os estadunidenses têm pavor do comunismo porque naquela sociedade capitalista e selvagem, na pior acepção da palavra, não há lugar para condutas humanas, harmônicas ou com igualdade social e econômica para todos. Quem tem, tem e quem não tem, morra. Do mesmo modo o comportamento de fundo humanitário, que privilegia o coletivo e os direitos de todos é uma grave ameaça ao seu sistema e deve ser banido a todo custo.

Acho que foi por isso que eles se apressaram em dizimar os seus índios. Os índios nunca usaram o dinheiro e, talvez por isso mesmo, só sabem viver no pleno exercício da coletividade, da fraternidade e da igualdade. Os índios são comunistas. No documentário Os Filhos de João, que conta a trajetória do grupo Os Novos Baianos, vários depoimentos narram que todo o dinheiro ganho com os shows era colocado numa sacola de pano pendurada atrás da maçaneta da cozinha. Quem quisesse ia lá e pegava o que precisasse. Assim como os índios, os Novos Baianos são comunistas.

Em Florianópolis, uma casa toda enfeitada de verde e amarelo chamava atenção recentemente por sua enorme faixa pendurada na grade, onde se lia “Comunismo Não”. Em volta da faixa uma família, também trajando as mesmas cores, empunhava balões de gás, bandeiras e acenava eufórica para os carros que passavam.

É incrível como um inimigo imaginário pode ter tanto poder. É incrível como uma palavra pode passar um medo, do qual nem se sabe bem qual o fundamento, mas que é repetido de modo automático. Se a tevê disse que comunismo é ruim, pronto: é ruim. Se o candidato afirma que o opositor comunista, se eleito, vai tirar um dos quartos das casas das pessoas, ou um dos carros, todos acreditam e correm de medo.

Prudente e urgentemente, aviso que não faço a defesa apologética do comunismo ou do socialismo. Ao contrário, proponho uma reflexão sobre o quanto o comunismo está nas nossas ações, no nosso cotidiano, principalmente nas pessoas que prezam ainda algum convívio humano, por menor que seja.

Quando alguns países deixaram de adotar este regime por variadas razões, muito se falou no fim do comunismo e a notícia foi devidamente alardeada por toda a mídia como uma doutrina fracassada. A supremacia do capitalismo, por sua vez, é cada dia mais festejada e, inclusive, as populações vitimadas justamente por esta supremacia se apresentam alegremente anestesiadas, aceitando tudo como se devesse ser assim mesmo, sem alternativa. É o caso do Brasil.

No momento em que uma ação tem como fundamento a igualdade e o direito de todos, indiscriminadamente, isto é comunismo. Então, se queremos uma saúde de qualidade, e para todos, e não só para os que têm entrada franca nos famosos hospitais de São Paulo, isso é comunismo. Se queremos escolas da mesma forma, transportes idem, moradia e produção de bens com este viés, queremos o comunismo. É claro que os milionários, que não estão nem aí para a população, a gente até consegue entender o cérebro egoísta e egocêntrico que eles herdaram. Mas quem não é milionário neste país e ainda é contra o comunismo não tem a menor ideia do quanto vai se ferrar, ou vai ser ferrado, mais cedo ou mais tarde, pelo sistema que o escraviza. Ou seja, suas ideias jamais correspondem aos fatos e ele se torna uma sigla, um mero boboca leso.

Então, a definição dicionarizada de comunismo pode causar medo em alguém? Onde está o problema e qual a razão desse pavor todo do comunismo? Foi porque os Estados Unidos mandaram? Porque eles tinham medo da União Soviética? Só milionário pode achar o capitalismo o melhor dos mundos. Nós, os miseráveis brasileiros, não, de modo algum!

Quando rachamos a conta e deixamos de fora o amigo sem dinheiro; quando dividimos o lanche na copa com um colega; quando emprestamos uma camisa legal ou uma roupa de festa; quando damos carona; quando doamos agasalhos, enfim quando compartilhamos, dividimos, ou quando entendemos que o direito que o outro tem é o mesmo que a gente tem, desculpe avisar, mas isso também é comunismo. Ao menos doutrinariamente é. Alimentos, bens duráveis, o lazer, o esporte, a saúde e a educação ao alcance de todos, desde o mais pobre ao mais abastado, é uma ação que visa o bem da comunidade e por isso é uma ação de fundo comunista. Então, se está lá no dicionário “de fundo humanitário”, “diminuir as desigualdades”, fala sério, não é disso que a maioria da população brasileira precisa? O comunista é, antes de tudo, um humanista. Está muito claro.

Enquanto a África agoniza de fome todos os dias, a humanidade dá de ombros. Todas as violências e abusos lá cometidos com crianças, idosos e mulheres, galopam ao vento na incredulidade do mundo perfeito capitalista. É mais fácil crer na ameaça do comunismo do que na realidade incômoda que escraviza e mata toda uma população com o singelo patrocínio, justamente, das nações imperialistas capitalistas.

Historicamente, nosso país também é uma terra de miseráveis e famintos. Aqui reside monarquicamente a mais cruel e vergonhosa concentração de renda do planeta Terra. Nós, os 99% miseráveis, aceitamos as ordens deste 1% encastelado. E basta termos um pouco mais que o vizinho, para nos acharmos melhores que ele. A colorida classe média pisa na classe de baixo, e ambas são pisadas pelo baronato republicano. Dá até pra entender que esse 1%, dono de todo o capital, seja fóbico ao comunismo. Mas, e quanto a nós?

Chegará o dia em que vamos entender que o comunismo, como filosofia, como prática de organização social e comunitária, deve ser buscado definitivamente e com decisão. A evolução da nossa terra brasilis só virá quando formos capazes de diminuir as diferenças sociais e econômicas e garantir ao menos o mínimo de condições de vida a cada um dos brasileiros, indiscriminadamente. Para isso temos de ser homens bons.

Coletivamente bons. Temos de entender o que é dividir, partilhar, aceitar, tolerar e dar graças por isso. Porque quem tem medo do comunismo, desse comunismo que prega a igualdade, não passa de um egoísta. Um não-humano. Um espectro errante. Aquele que não se reconhece na fome do outro, que não sente a dor do outro, que não se vê inserido no plano comum da caminhada humana na Terra, não é outra coisa senão um mero egoísta. Um ser só. Um só ser. Um pobre egoísta.

*Colabora com Diálogos do Sul