Aos reacionários de hoje e de sempre

Escrevo essas notas com indignação. Reflexo ainda dos acontecimentos que cercaram a morte da Sra. Marisa Letícia Lula da Silva, poucos dias atrás. Não pretendo acirrar mais os ânimos, nem tampouco acusar ninguém. Muito menos desenvolver teses sobre o caráter da elite brasileira ou o conservadorismo atávico de nossa sociedade. Embora úteis, aqui esses raciocínios soariam arrogantes e, talvez, levianos.

Ricardo Carlos Gaspar*

justiça cegaFicarei num plano mais imediato, mas, a meu ver, com profundas implicações no que fazer da nossa convivência societária e do futuro da nação. Pois o fenômeno da contestação social, comportamento que quero destacar, apontando sua relevância e necessidade histórica, tem sido uma constante no Brasil e no mundo, tornando-se mais intenso com o desenvolvimento da modernidade industrial, a partir das últimas décadas do século XIX.  

Em cada época e lugar, reproduzem-se as parcelas de descontentes, rebeldes, excluídos, discriminados. E isso atravessa todos os campos da nossa existência, do político ao cultural, do econômico ao comportamental. Sua causa está principalmente ligada a desigualdade crescente de oportunidades e de renda que a industrialização capitalista trouxe consigo. Porém, não se limita a isso, já que o aprofundamento das mudanças nas condições de vida em todo o planeta provoca consequências e reações as mais diversas, ligadas aos efeitos muitas vezes dramáticos no plano ambiental e comunitário.

Muito bem, mas vale perguntar o que tal constatação tem a ver com a situação presente no Brasil. Tudo a ver, pois a onda conservadora e moralista em nosso país tenciona suprimir precisamente esse comportamento rebelde e salutar de qualquer sociedade. Há de se objetar que essa rebeldia pode sair dos trilhos e desembocar num estado de anomia social. Pode, mas está longe de ocorrer no Brasil, a não ser que incluamos aqui o fenômeno da crescente criminalidade. Ai sim, mas as raízes da criminalidade estão precisamente entre os motivos da insatisfação que motivou e inflama os movimentos, partidos e comportamentos, de uma forma ou de outra, anti-sistêmicos.

A ofensiva contra o PT e apenas a superfície de um movimento que se reproduz em nossa sociedade, acirrado em momentos de crise ou ameaça aos padrões estabelecidos. Por mais justificados que sejam os motivos de crítica a atuação de um partido e sua cúpula dirigente, no Brasil de hoje o ódio de uma parte da população contra outra vai muito além e desvela a rejeição à diferença, ao outro que não lhe é igual e desafia sua suposta superioridade. E que questiona, de forma bastante salutar, os fundamentos sobre os quais têm sido erguida nossa convivência.

Lamentavelmente não existem forças, no espectro político-partidário ou empresarial de centro-direita, que tenham a lucidez suficiente para liderar um processo de mudanças, dentro do status quo, capaz de incorporar parte das demandas históricas por justiça social em nosso país. Se na esquerda tampouco se visualizam condições que projetem a construção de uma estratégia política nacional capaz de integrar parcelas das atuais classes dirigentes e dos estratos médios da população (*), a conclusão a que chegamos não pode ser otimista sobre nosso futuro imediato. A esperança e que o dinamismo das mudanças contemporâneas no mundo produzam contrafações internas capazes de desenhar novos rumos, até aqui insuspeitados, para a nacionalidade. Enquanto isso nos viramos, e protestamos…

Em suma, o que desejo apontar aqui é que a contestação social, por mais repressão que se lhe imponha, não pode ser suprimida por completo. Nunca. Em nenhuma parte e nenhum lugar. Essa voz jamais vai se calar. Foi esse comportamento, mutatis mutandis, que gerou avanços históricos no mundo, regulou jornadas de trabalho, atenuou distorções gritantes de mercado, provocou radicais mudanças comportamentais, combateu discriminações odiosas de sexo e de raça. Suas armas têm sido o voto, as manifestações, as guitarras elétricas e às vezes a luta armada. Muitos erros foram cometidos. Mas essa rebeldia constitui sempre, em suma, um contrapeso indispensável às forças destrutivas do interesse financeiro e da tirania política e social. Nesse sentido elas vão estar sempre presentes, sempre e onde houver motivos que as justifiquem, e esses não faltam.

É a vida, enfim, mui respeitáveis senhoras e senhores.

 

Professor do Departamento de Economia da PUC-SP e colaborador de Diálogos do Sul

(*) Consultar o artigo “Sem programa nem estratégia: o pecado capital do PT”, em Diálogos do Sul, 24.05.2016. http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/sem-programa-nem-estrategia-o-pecado-capital-do-pt/24052016/