Desde fins do século passado, na América Latina, experimentamos um processo em que vários partidos ou lideranças de esquerda chegaram ao poder através de eleições. Isto abriu um panorama de originais oportunidades políticas e socioeconômicas de caráter democrático, apesar das restrições que os sistemas políticos e eleitorais vigentes em cada país têm estabelecidos para assegurar a manutenção do regime já instalado pela classe dominante.

Nils Castro*

Como era de se prever, a emersão desse processo despertou o fenômeno oposto: a contra ofensiva regional da direita nos planos político, mediático, sociocultural e econômico que tem explorado variadas modalidades. Mesmo tendo alguns desses governos sido desalojados ou sofrido reveses eleitorais, nada impede que os movimentos que os impulsaram se refaçam, nem que em outras nações latino-americanas aflorem opções de esquerda que também vençam eleições. Apesar dos afãs de alguns críticos que pretendem que tais revezes signifiquem já a aniquilação desse processo, este é um fenômeno ainda em desenvolvimento: suas causas não cessaram, nem tampouco as expectativas, nem o novos cenários que elas mobilizam.

Precisamente por isso, passados três lustros, o conjunto dessas experiências precisa ser avaliado. Não só por suas valiosas contribuições, mas porque contribuirá para superar a multiforme contra ofensiva das direitas que, apesar do que se advertiu em tempo, despojou desprevenidos a muitos líderes de esquerda. Por isso, essa avaliação demanda tanto honestas autocríticas como conclusões voltadas não só a reverter tal contra ofensiva, mas a elevar os objetivos do processo.

A demora em fazer favorece a proliferação irresponsável ou maliciosa de certo jornalismo sensacionalista que recicla ‘teorias’ como as do pêndulo e do ‘fim da história’. Com pertinácia busca nega legitimidade e até sobrevivência às esquerdas que militam nos respectivos países, paralelamente à contra ofensiva das direitas.

1 – O nome

Antes de abordar alguns aspectos do tema convém recordar alguns antecedentes do atual “progressismo” e os alcances que teve essa palavra. Discutir o nome ajuda a pactuar como vamos nos envolver com o fenômeno.

Parece-me inapropriado referir-se à diversidade de formas nacionais desse processo com o nome de “socialismo do século XXI”. Mais que propor um projeto articulado, essa noção expressa o anseio dado a uma gestão nacional, mas dificilmente pode caracterizar as levadas a cabo em outros países. Em estrito senso, o país onde hoje se constrói e se debate um projeto socialista para o século XXI é Cuba.

Para abarcar esse variado conjunto de experiências prefiro o veterano qualificativo de “progressista”, coringa linguístico de longa trajetória latinoamericana. Nos anos 1960-70 incluiu correntes, líderes e governos que vão desde Lázaro Cárdenas e Jacobo Árbenz até a revolução boliviana, Jango Goulart e Salvador Allende, sem omitir a Torres, Velasco e Torrijos, entre tantos outros. Isto é, serviu para designar movimentos patrióticos e populares com os quais a esquerda podia colaborar, que promoveram justiça social, impulsionaram a produção nacional, foram solidários e procuraram resgatar a soberania e autodeterminação maculadas pelo imperialismo.

Esse vocábulo não precisou de definição doutrinaria mas ofereceu um amplo espectro para juntar essa rica gama de correntes efetivas em nossas cidades e campos, para compartilhar demandas e metas sem desconhecer as diferenças que coloriam suas respectivas identidades.

Naqueles anos foram empregados outros termos afins, como os de movimentos ou governos de libertação nacional, nacional-populares, democrático-revolucionários, etc. Porém a noção de ‘progressista’ conserva a vantagem de ser mais indeterminada que outras com as quais se tenta substituí-la, mas que são menos flexíveis diante do heterogêneo panorama regional. Por exemplo, a de “pós neoliberais”, que sugere que o neoliberalismo sucumbiu, ou os governos progressistas puderam ignorar todas suas imposições. Como tampouco as de governos de “centro esquerda”, reformistas ou social democratas, maquilagem cujo sentido o oportunismo europeu esvaziou ao se entregar ao neoliberalismo, e que na América Latina omitem as controvérsias que cada dia animam a vida interna do progressismo.

2 – Os antecedentes

Apesar da repressão macarthista ao movimento democrático do pós guerra, durante os anos 1960, em significativos setores populares e médios tomou corpo uma cultura política conforme com as aspirações emancipadoras, latino-americanistas e reformadoras. Além de suas próprias reivindicações, essa cultura assimilou repercussões da quebra do Estalinismo, as realizações da Revolução cubana, as revoluções de 1968, os movimentos anticolonialistas afro-asiáticos e a luta do povo estadunidense pelos direitos civis e contra a guerra no Vietnã. O progressos que amadureceu naqueles anos teve a virtude de compaginar toda essa gama de experiências.

Em menos de 30 anos, na América Latina essa cultura política alcançou um auge significativo, sobretudo nos setores urbanos populares e médios. O caráter que o acontecer sociopolítico regional imprimiu a ela foi dado por uma aceleração significativa refletida em dois marcos: entre o momento em que Fidel Castro enunciou o Programa do Moncada(1) e aquele quando proclamou a II Declaração de La Habana, mediaram apenas dez anos(2).

Não obstante, no fragor dos anos seguintes, mais de uma vez o vanguardismo idealista de alguns líderes excedeu os limites desses marcos, ao postular como ponto de partida o segundo –a revolução socialista continental- em povos que ainda não tinham chegada a reclamar aspirações como as colocadas na História me Absolverá. O fervor revolucionário ultrapassou os alcances temporais que grande parte da coluna de milhares de potenciais rebeldes latino-americanos já estavam prontos para assumir.

Depois, passado seu tempo, aquele robusto fenômeno padeceu o desgaste da demora do êxito dos projetos revolucionários em andamento, da frustração das esperanças inicialmente fundadas na renovação do “socialismo real’ –e seu posterior desaparecimento-, assim como a “abertura” da China e a mudança de sua política internacional. Agrega-se os efeitos do “período especial” cubano, que fez retrair temporariamente as esperanças latino-americanas na possibilidade de repelir o imperialismo e de chegar ao socialismo, e que motivou dúvidas e controvérsias sobre a natureza e as possibilidades do próprio socialismo.

3 – Expansão e crise

Essa cultura política latino-americana teve um recuo. Assim, quando em tempos da senhora Tatcher e do presidente Reagan o imperialismo desatou a contra ofensiva neoliberal, no campo revolucionário as forças ideológicas que necessárias para enfrenta-la não estavam em seu melhor momento. Isso facilitou à direita imperial e seus cúmplices locais não só a conseguir uma rápida implantação de seus ‘reajustes estruturais’ nos âmbitos institucionais e econômicos, como também no campo ideológico, moral e cultural.

O ímpeto contrarrevolucionário da ofensiva neoliberal reformulou as normas e instituições econômicas internacionais em benefício da grande burguesia financeira e a privatização desnacionalizados dos recursos e empresas públicas. Em termos gerais, apesar de o pesadelo das ditaduras militares ter ficado para trás, reorganizou-se o exercício da política e as práticas eleitorais em favor dos líderes dispostos a justificar e implementar os correspondentes ‘reajustes’  institucionais e normativos. Ainda que se mencione com menor intensidade, essa ofensiva igualmente invadiu o campo ético, cultural e educacional. Alinhou os grandes meios jornalísticos, restringi as universidades públicas e multiplicou as privadas, eliminou os subsídios a inúmeros centros de pesquisa, cooptou intelectuais e formadores de opinião, etc.

Aquela ofensiva levava para onde sabemos: diminuir o Estado e suas atribuições, desproteger as empresas e a produção nacionais, precarizar o trabalho e o salário, marginalizar as organizações laborais e sociais, falta de solidariedade, consumismo, etc. Contudo, isso provocou irritações sociais que culminaram em insurreições urbanas e perda de governabilidade. Por fim, a política e os processos eleitorais reordenados pelas agências neoliberais perderam legitimidade e eficácia, e a sobrevivência do sistema demandou refazer-se.

Mesmo assim, inclusive no bojo da crise que aflorou em 2008, é excessivo pretender que o neoliberalismo colapsou. Ainda que teoricamente desacreditado, continua associado ao grande capital e continuam vigentes suas regras, que regulam o comercio e as finanças internacionais, e grande parte do funcionamento institucional da maioria dos organismos internacionais e países, assim como as formas de pensar de milhares de funcionários públicos e privados. A isto contribui o fato de que o neoliberalismo é o alvo de múltiplas críticas, mas ainda não teve que se enfrentar com uma contraproposta ideológica sistematizada.

4 – No governo, mas não no poder

Percebe-se que, nesse cenário de rechaço social às políticas neoliberais, várias candidaturas provenientes da esquerda tiveram melhoras em suas possibilidades eleitorais com o crescimento do voto de castigo contra os responsáveis pelas políticas. Com diferenças, de acordo com as particularidades de cada país, algumas esquerdas melhoraram sua representação municipal e/ou parlamentar, ou diretamente ganharam eleições presidenciais mesmo sem ter conseguido significativas vitórias locais e legislativas(3).

A análise e comparação de processos nacionais deverá ser parte da avaliação pendente de ser feita e compartilhada. Não obstante, sabemos que tais vitórias foram viáveis graças a combinação de umas promessas de campanha deliberadamente pouco radicais, com o voto de repúdio às políticas e governos precedentes. Em outras palavras, grande parte destes votos não refletiu uma identificação ideológica da maioria da cidadania com um projeto orientado a empreender a revolução, nem com a suposição de que seus candidatos realizaram um governo mais revolucionário que o prometido na campanha eleitoral.

Portanto, mutatis mutandis, tais esquerdas tiveram uma oportunidade de governar associada a uma maioria eleitoral que reclamava melhora em suas condições de vida, mas que nem por isso estava disposta a assumir – pelo menos por enquanto- as tensões e os riscos de empreender um salto revolucionário. Em outras palavras, governar para cumprir com determinadas promessas eleitorais, não para ultrapassá-las. Além disso, realizar respeitando a institucionalidade estabelecida, sem modifica-la por meios diversos dos que ela mesmo estabelecera ou concordara. Isto é, para chegar ao governo, mas não ao poder.

Só onde grandes insurreições urbanos tinham aberto a possibilidade de maiores mudanças, alguns desses governos puderam realizar reformas constitucionais que ampliaram seu campo de ação ainda que, mesmo assim, essas reformas mais tarde resultariam insuficientes(4).

5 – Quanto foi possível

A devastação do Estado pelo tsunami neoliberal e suas dolorosas consequências em cada povo e soberania nacionais, tornou indispensável empreender retificações sob o risco de levar países e economias ao caos. O surgimento de governos progressistas se insere nesse contexto, quando urgiam políticas corretivas pós neoliberais, sem que fosse viável, ainda, propor alternativas pós capitalistas. Porém, isso permitiu reconstruir um sistema socioeconômico com que reparar muitos dos danos sociais infligidos pelos ‘ajustes’ neoliberais, e restabelecer as funções sociais do Estado, o que também implicou avançar na construção de uma comunidade latino-americana de nações.

A pesar da diversidade do processos políticos que os caracterizam, tais governos coincidem em várias características que deram origem a importantes resultados regionais: restabeleceram a responsabilidade do Estado pela economia, o mercado e a redistribuição da renda; reorganizaram serviços públicos para atender as funções sociais do Estado, principalmente as acesso à saúde e à educação; criaram programas de luta contra a pobreza e a fome, e pela alfabetização e cidadanização; e, também, ampliaram os investimentos em infraestrutura para o desenvolvimento e para solução de problemas sociais.

Paralelamente, desenvolveram importantes projetos de solidariedade e integração latino-americana e caribenha, que redesenharam e fortaleceram ou criaram organismos como o MERCOSUL, a Unasul, a Alba e finalmente a Celac. Isso incrementou notavelmente o peso político e diplomático da América Latina ante o mundo, e sua capacidade de negociação. Nem sequer os críticos mais mordazes desse progressismo desconhecem tais avanços na integração regional.

Um bom aproveitamento do período de bons preços das matérias primas no mercado internacional facilitou financiar os programas de assistência social sem castigar impositivamente à classe endinheirada. Não obstante, essa opção apaziguadora não foi aproveitada para ampliar e diversificar a capacidade produtiva desses países, e a fortalecer suas reservas financeiras, para quando das vacas magras, como ocorre depois da crise mundial iniciada em 2008. Ademais, dado o caráter corretivo e assistencialista, mas não revolucionário – pós neoliberal mas não pós capitalista- desses governos, algumas ações necessárias, como reformas agrárias e tributárias muito mais necessárias, deixaram de ser realizadas.

Na maior parte dos casos tampouco se realizou a indispensável reforma política nem a devida reforma no campo das comunicações sociais. Tais inconsequências, que cabe computar como falta de coragem política e de confiança no potencial das organizações populares, registra-se agora como vitorias dos grandes meios de comunicação que implementam a contraofensiva da direita.

Contudo, nestes quinze anos os governos progressistas ampliaram extraordinariamente o campo da cidadania e a participação popular no debate dos assuntos de interesse público, além de melhorar a condição de vida e garantir direitos civis de dezenas de milhares de cidadãos. Por muitas reconquistas que agora a direita pode alcançar, esse patrimônio cívico dificilmente será arrebatado dos setores populares. Daqui pra frente, há uma massa crítica mais robusta com que discutir e mobilizar melhores projetos de futuro, opção que as organizações de esquerda tem que saber ganhar às direitas.

Ocorre que, depois do surgimento dos governos progressistas as realidades e expectativas latino-americanos já não são as mesmas. Não é de se supor que toda essa experiência tenha sido um fiasco, nem deixou de legar relevantes consequências. Qualquer proposta latino-americana para um melhor futuro sustentável deverá partir desses resultados, porque o ponto a que chegamos não é o de esgotamento mas sim de avaliação e relançamento.

6 – A próxima disjuntiva

Depois dos projetos revolucionários dos anos 1960-70 do século XX –seja projetos guerrilheiros, de nacionalismo militar ou socialismo allendista- não alcançaram os objetivos previstos ou terminaram em reformas negociadas com o governo existente, e de que América Latina tinha sido alvo da ofensiva neoliberal, não se teve outro auge ideológico. O movimento político e ideológico que possibilitou as vitórias eleitorais progressistas no alvorecer do século XXI foi expressão de maiorias sociais mais contrariadas, que desejavam reverter o tsunami neoliberal mas temiam recair em lutas civis ou ditaduras militares ou sofrer novas percalços econômicos.

Nenhum dos líderes de esquerda que ascendeu ao governo foi produto de uma revolução e, em consequência, assumiram governos previamente estruturados e regulados pela classe dominante, nas formas dispostas pelo sistema político preestabelecido. Com isso os progressistas passaram a ser parte do grupo governante, mas sem afastar a classe dominante.

Em teoria, para superar essa situação há dois caminhos: um consciente de que em tais condições só se pode ir além se o processo for capaz de formar bases políticas que o exijam, que ajudem a implementá-lo e que defendam as iniciativas governamentais que ultrapassem as restrições iniciais. Impulsionar o processo exige formar novos destacamentos de quadros e mobilizar organizações populares –transformar indignações sociais em movimentos políticos –tarefas que pelo seu caráter correspondem principalmente aos partidos e organizações de esquerda, mas que ao aparato governamental, que constitucionalmente deve servir a toda a sociedade.

E um segundo caminho, pelo qual para ir mais além será necessário conseguir sucessivas reeleições do governo progressista, a cada uma das quais realizar um programa mais avançado, com base na simpatia e confiança políticas idealmente conquistadas através de uma boa gestão governamental e a satisfação de importantes demandas e necessidades sociais. Esse pressuposto engana mais do que parece pois geralmente esses governos não competem pela reeleição com propostas de desenvolvimentos mais radicais mas sim com opções de recuo na defensiva.

7 – Do revés à contra ofensiva

Esse pressuposto tem levado a repetidos auto enganos por subestimar as reações que a direita após sua derrota eleitoral possa desencadear. Mesmo quando perdem uma ou mais eleições, ela conserva seu poder econômico, sua rede de articulações e patrocínios internacionais, o controle de seus grandes meios de comunicação e sua influencia cultural. A perplexidade inicial por sua primeira derrota pode desconcertar a direita temporariamente, mas antes de começar a seguinte campanha, ela reavaliará seus recursos e meios e investirá em renovar sua imagem e eficácia.

Desde há muitos anos, várias fundações e universidades privadas estadunidenses passaram a oferecer cursos de organização, pesquisa de opinião, publicidade e marketing político para capacitar jovens quadros da direita. Algumas fundações espanholas, por sua vez, se dedicam a promover viagens e palestras de veteranos dirigentes da reação latino-americana.

Com esses apoios e outros mais inconfessáveis, as direitas reforçaram sua capacidade de modificar estilos, linguagens e lideranças visíveis. Como também a de se apropriar de alguns dos temas preferidos da esquerda, e de culpar o governo progressista dos problemas sensíveis deixados pelos seus antecessores e que as esquerdas demoraram em resolver. Sobre tudo isso já escrevi e cansaria repetir aqui(5).

8 – As alienações do eleitoralismo 1

Quando um governo progressista decide por reeleição, por muitos que tenham sido seus méritos, isso ocorrerá em um campo sistematicamente assolado pela oposição econômica e dos meios de comunicação de maior audiência. Quer dizer, as conquistas do progressismo serão omitidas ou desmerecidas, suas deficiências serão superdimensionadas e muitos de seus eleitores estarão desorientados.

Nesse contexto, em cada período eleitoral o progressismo volta a encarar uma das aberrações próprias  da democracia capitalista: cada campanha será cada vez mais publicitária e cara e os modos de sufragá-las serão mais difíceis. Se, como é provável, o sistema eleitoral não pode ser reformado pelo processo progressista, a campanha estará cada dia mais sujeita ao marketing e mais permeada pela cultura e as práticas do consumismo e do mercado.

Diante de cada desafio eleitoral, o primeiro será que os recursos não são suficientes. Os candidatos e dirigentes saem a buscar doações –leiloar-se no mercado, diria Brecht- e não falta que incorra em desvio de fundos públicos, o que, além das implicações legais, também pode triturar a moral de algum dos envolvidos. Por mais boa fé que haja, inevitavelmente o dinheiro dos doadores implica reciprocidades que alienam dirigentes, candidatos e partidos, mesmo que justifique um “realismo”, depois não terá escapatória.

Também se soe admitir o pressuposto de que ser de esquerda é um inconveniente eleitoral; aceita-se o prejuízo de que vale “correr pelo centro” para suavizar a imagem, tranquilizar os doadores e procurar uma incerta reserva de votos moderados. Abandonadas as posições que antes permitiam fosse reconhecido e ser eleito como realmente é, mas aos olhos dos que antes acreditavam em você deixará de ser. No final, os votos que talvez consiga poderá nem de longe compensar o que perde no campo da credibilidade que lhe restava.

9 – A esquerda e moral

Quando esses vaivéns são aceitos num agrupamento comprometido com transformar o país, o que começa como uma falta ética circunstancial se converte num dano maior: a confiança perdida se torna cepticismo e a credibilidade se esfuma e a preocupação popular conclui que ‘estes também são iguais aos outros”, palavras que os meios “objetivos” tratam de avivar.

Este fenômeno é assimétrico. Se em um partido conservador cometem maracutaias, para o publico é “natural’, considerando que sua moralidade é funcional ao capitalismo selvagem. Porém se isso ocorre num partido que promete outro horizonte ético, assumir comportamentos do repertório moral capitalista é uma aberração.

Para a militância revolucionária a qualidade de certa ética, por cujos princípios se está disposto a perder a liberdade e até a dar a própria vida, é definitiva. Porque em última instância se entra na disputa política por uma de duas razões: porque o sistema é miserável e há razões de sobra para lutar para transformá-lo; ou porque procura desfrutar das benesses desse sistema miserável ainda que seja às expensas dos demais.

10 – As alienações do eleitoralismo 2

Quando a obsessão eleitoral domina a vida partidária, os demais suportes ressentem: por exemplo, se o partido desleixa a formação de líderes comunitários, perde dinâmica de inserção e lideranças locais, perde a liderança política que se constrói na luta pelas reivindicações diárias da cidadania, que não são parte do cenário eleitoral. Quer dizer, ao se converter prioritariamente em grandes máquinas eleitorais, partidos de reconhecidos méritos podem perder influencia sociocultural porque as energias investidas em campanhas diminuem as necessárias para as demais atividades de construção de contra hegemonia.

Portanto, vale perguntar: se nas campanhas eleitorais é inevitável competir sem os recursos financeiros necessários, só podemos participar em desvantagem? Se nos deixamos seduzir pelas campanhas à estadunidense, embriagadas pela estética do consumismo, sempre estaremos em desvantagem, ainda que tenhamos os recursos. Porém, assim como na guerra revolucionário só o exército da classe dominante pode ter o armamento mais caro, enquanto as forças populares devem apelar para a criatividade guerrilheira, nas disputas eleitorais a esquerda deve criar suas próprias alternativas, desenvolvendo as capacidades comunicativas da criatividade popular e juvenil, consoante com a condição social e moral que garante sua credibilidade. Em ambos os casos a capacidade de surpreender com iniciativas inesperadas será decisiva.

11- Partido permanente vs partido conjuntural

Isso exige de novo perguntar: quais são as tarefas essenciais de um partido de esquerda? Dissemos que impulsionar os setores populares a se organizarem e formar quadros políticos, assumir um programa de transformação social, mobilizar às organizações e massas sociais para enfrentar os desafios políticos para superar, para criar contra hegemonia popular e converter massas em força política. Nesse contexto, a participação em campanhas eleitorais para dar a elas melhor conteúdo é uma parte das tarefas, mas ainda quando isso possa incluir até a possibilidade de chegar ao governo.

Não obstante, devemos distinguir entre o partido permanente e o conjuntural. Quando a possibilidade de ganhar eleições se torna efetiva, essa parte das tarefas pode se tornar na maioria das previsões, energias e recursos da vida partidária, inclusive em detrimento das demais atividades. Porém, só ganha maior força e poder para vencer os demais desafios quando se cumpre as tarefas permanentes do partido. Em especial, as de enraizamento comunitário, organização participativa e formação ideológica vinculada à vida e memória nacionais, para resgatar a milhares de compatriotas que o reinado neoliberal mergulhou no consumismo e na banalidade cultural.

Para oferecer melhor futuro cabe construir outro apogeu da proposta ideológica e cultura política comparáveis ao que alcançou nos anos 1970.

12 – Objetivos e meios não eleitorais

Para a oligarquia, o objetivo é recuperar o governo como instrumento de poder, as eleições são um meio para esse fim e se por esse meio não conseguem há outros por que apelar. Em cada campanha, mais que ganhar a eleição seguinte, para a direita a prioridade é desacreditar e deslegitimar a gestão de qualquer esquerda no governo, para dar sustentação social ao propósito de substituí-la o mais rápido possível.

Conquanto consiga debilitar seus principais adversários progressistas, a classe dominante quer ganhar eleições, mas com a condição de que isso não limite o poder que ele requer para obter seus fins. O objetivo principal da direita não é voltar ao Palácio, mas encaminhar um processo contrarrevolucionário de grande alcance. Seu propósito é reverter as conquistas populares acumuladas durante as últimas décadas e acrescentar outras tantas. Se isso pode ser assegurado pelos meios eleitorais como os chamados “golpes suaves’, a questão medular é a das formas de deslegitimar o governo progressista e legitimar o substituto. Já seja isto agraves de eleições autênticas, espúrias ou batalhadas, ou de uma operação extra eleitoral.

Nestes anos a contra ofensiva das direitas introduziu formas novas de selecionar e apresentar candidatos, discursos e promessas programáticas, para dar maior charme mediante o marketing e as técnicas de pesquisa e manejo da opinião pública e das chamadas campanhas sujas. Porém, o essencial não sãos os estilos rutilantes, mas sua capacidade –princialmente midiática- para degradar a imagem moral e política das opções progressistas, não apenas para justificar sua derrocada mas para criar uma suposta urgência de substituição e fomentar uma demanda de mudanças que faça sentido.

Na prática, os meios substituem os partidos uma vez que as direitas, através deles, pautam a agenda para um governo contrarrevolucionário. Este se empenhará tanto em reverter as conquistas sociais conseguidas durante mais de um século como a reinstalar as políticas neoliberais de privatizar recursos nacionais, incrementar capacidade de financiamento e endividamento externos , reduzir os avanços em matéria de integração a meros acordos de liberalização comercial, eliminar capacidade de negociação às organizações laborais e comunitárias, judicialização das controvérsias com os dirigentes progressistas e tirá-los do cenário político orquestrando processos legais.

Para as direitas, utilizar o sistema eleitoral pra recuperar o governo como instrumento essas políticas tem sentido se domina os instrumentos para executá-los. Dar certa imagem de legitimidade para justificar o atropelo às normas da institucionalidade democrática enquanto sirva ao objetivo final.

13 – Aprofundar o processo democrático

Assim estão as coisas, diante da presente contra ofensiva reacionária, os que hoje defendem realmente as instituições democráticas e do processo democratizante é a esquerda e os setores progressistas. Porém esta condição não deve nos distrair de três coisas:

A primeira, que a institucionalidade que defendemos é aquela mesmo que antes foi estruturada pelos governos da direita tradicional para restringir o jogo democrático, mediante uma coexistência política normatizada para manter as coisas como estão, não para muda-las. Portanto, a questão é salvaguardar uma institucionalidade e ao mesmo tempo é imperativo democratizar erradicando os arcaísmos que beneficiam os partidos e candidatos da oligarquia e que encarecem o jogo político a favor dos grandes financiadores de campanhas. Ao mesmo tempo, alargar o campo da participação popular. Defender a institucionalidade não faz sentido se não se impulsiona um novo processo democratizador.

A segunda, que é necessário ter presente em nossa vida política quotidiana, na analise do acontecer diário e na produção teórica, que é um imperativo da missão das esquerdas e dos setores progressistas, desenvolver capacidade de converter a inconformidade e indignação sociais em consciência e militância organizada para derrotar a contrarrevolução para transformar o país.

E a terceiro, que para materializar essa missão é indispensável uma permanente formação e acumulação de forças nos âmbitos do trabalho material, da vida comunitária e das diversas expressões da convivência humana. Que é indispensável compartilhar ideias, projetos e expectativas que os diferentes setores progressistas podem ter como seus, posto que só com base nas massas organizadas as ideias se convertem em força material.

Não obstante, o mais importante é que essas três coisas não são só exigências para as organizações que lutam na oposição, mas sobretudo para as forças progressistas que chegam ao governo. Porque não se trata só de gerar maiores forças para desmascarar e derrotar a contra ofensiva reacionárias, mas também para sacar da inércia os quadros e funcionários dentro dos governos progressistas. Os partidos e movimentos progressistas que cheguem ao governo não devem fazer para servir como seus justificadores, mas para exigir a seus integrantes que cumpram com seus deveres políticos e morais.

Ter melhores governos progressistas não é o fim desta história, mas uma oportunidade de completar condições que falta para empreender a próxima. Entre elas, rejuvenescer e fortalecer nossas capacidades para derrotar a contra ofensiva no campo da cultura política, o confronto ideológico e a comunicação persuasiva porque, como assinalou Martí: “é de pensamento a guerra maior que travamos, vamos ganha-la no pensamento”.

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Panamá, abril de 2016