“Por acaso foi Fidel quem colocou o mundo a beira do holocausto?”

Elier Ramírez Cañedo*

Fidel Castro e Jonh F. Kennedy.
Fidel Castro e Jonh F. Kennedy.

Ainda persiste em certa literatura interpretações da chamada Crise de Outubro, colocam Cuba como a máxima responsável de ter posto o mundo a beira do holocausto. Isso ocorre devido  à maneira equivocada com que se manejou a crise, especialmente pela direção soviética, sendo Cuba a mais desfavorecida tanto em sua imagem internacional como na solução alcançada por Kennedy e o premier soviético Nikita Kruschev.

A maneira como Kruschev atuou na crise quando, sem contar com a direção cubana, negociou com Kennedy a retirada dos foguetes nucleares da ilha, e, pior, de maneira sub reptícia negociou retirar com a condição dos EUA retirarem os mísseis nucleares das bases da Turquia e Itália, põem em dúvida as verdadeiras intenções de Kruschev quando propôs aos cubanos a instalação da base de mísseis.

O que as bases de mísseis na Turquia e Itália tinham a ver com a defesa de Cuba?

Navios de guerra estadounidenses estacionados na Baía de Guantánamo.
Navios de guerra estadounidenses estacionados na Baía de Guantánamo.

Por que não se exigiu a devolução do território usurpado da base naval de Guantánamo? Ou que se eliminasse o bloqueio econômico e outras questões de interesse de Cuba?

As concepções de defesa elaborada na época pela direção cubana não previam instalações de mísseis nucleares, no entendimento de que poderiam afetar o prestígio da Revolução.  Aceitaram a instalação em obediência ao princípio do apoio internacionalista ao campo socialista e à URSS que sempre estiveram dispostos a ajudar Cuba nos momentos de dificuldade. Cuba preteriu interesses nacionais em favor dos interesses do campo socialista como um todo e da defesa de Cuba.

Houve perda moral, política e diplomática quando os soviéticos decidiram instalar a base de mísseis secretamente e torná-la pública como fato consumado, achando que EUA se resignaria. Fidel Castro em todo momento defendeu que a operação deveria ser pública, apoiada pelo direito internacional, pois nada havia de ilegal nisso. Contudo manteve o critério de que os soviéticos eram os que deveriam tomar a decisão final considerando sua grande experiência internacional e militar (1).

"A crise dos mísseis de outubro de 1962 foi a mais perigosa da história das relações entre Estados Unidos e Cuba"
“A crise dos mísseis de outubro de 1962 foi a mais perigosa da história das relações entre Estados Unidos e Cuba”

A famosa e tantas vezes manipulada carta de Fidel a Kruschev, escrita entre a noite de 26 e a madrugada de 27 de outubro (traduzida e enviada pela embaixada soviética) foi um dos documentos mais utilizados para colocar o líder cubana como um “irresponsável” e até mesmo “um louco” que colocou em risca a existência humana na face da terra.

Há que deixar claro que se para EUA a crise tinha começado em outubro de 1962, Cuba vivia uma crise que ameaçava sua existência como nação independente e soberana desde janeiro de 1959, enfrentando todo tipo de agressão por parte do governo estadunidense, inclusive a invasão mercenária por Playa Girón em abril de 1961.  A “Operação Mangosta”, a mais ampla operação de guerra encoberta, elaborada e implementada por EUA,  aprovada pelo presidente Kennedy em novembro de 1961, deveria concluir com invasão direta das forças armadas estadunidenses precisamente em outubro de 1962.

A carta enviada por Fidel a Kruschev não propunha dar o primeiro golpe nuclear preventivo, mas sim no caso de que se produzisse a invasão a Cuba –a variante menos provável- a URSS não vacilaria em responder com armas nucleares, evitando cometer os mesmos erros da Segunda Guerra Mundial (2), pois a invasão significaria que EUA já se tinha decidido por iniciar a guerra termonuclear dando o primeiro golpe nuclear contra o país soviético. Há que destacar que se Fidel tivesse conhecimento da real correlação de forças nucleares, com esmagadora vantagem para o lado estadunidense, essa carta jamais teria sido escrita, pois incitava o líder soviético a suicidar seu povo.

Fidel Castro é recebido por Nikita Kruschev
Fidel Castro é recebido por Nikita Kruschev

Fragmentos das cartas intercambiadas por ambos os líderes nestes dias de tensão, muitas vezes citadas fora de contexto, ilustram bem a verdade histórica.

Mensagem de Fidel a Kruschev, 26 de outubro

Há duas variantes possíveis: a primeira e mais provável é o ataque aéreo contra determinados objetivos com o fim limitado de destruí-los: a segunda, menos provável, ainda que possível, é a invasão. Entendo que a realização destas variantes exigiria grande quantidade de forças e é ademais a forma mais repulsiva de agressão, o que pode inibi-los.

(…) Se ocorrer a segunda variante e os imperialistas invadirem Cuba com o fim de ocupá-la, o perigo que tal política agressiva carrega para a humanidade é tão grande que depois desse fato a União Soviética não deve permitir jamais as circunstâncias nas quais os imperialistas pudessem lançar contra ela o primeiro golpe nuclear.

Digo isso porque creio que a agressividade dos imperialistas se torna sumamente perigosa se eles chegarem a realizar um fato tão brutal e violador da Lei e da moral universal, como invadir a Cuba, esse seria o momento de eliminar para sempre tal perigo, com ato da mais legítima defesa, por dura e terrível que fosse a solução, porque não haveria outra (3).

Kruschev a Fidel, 30 de outubro

Em sua carta de 27 de outubro, você nos propôs que fôssemos os primeiros em dar o golpe nuclear contra o território inimigo. Você, claro, compreende a que isso levaria. Isto não seria um simples golpe, mas o início da guerra termonuclear.

Querido companheiro Fidel Castro, considera essa sua proposição como incorreta, ainda que compreenda seu motivo (4).

Fidel a Kruschev, 31 de outubro

Não ignorava quando escrevi que as palavras contidas em minha carta poderiam ser mal interpretadas por você e assim ocorreu, talvez porque não a tenha lido detidamente, talvez pela tradução, talvez porque eu quis dizer muito em poucas linhas. Não obstante, não vacilei em fazê-lo. Você acredita, companheiro Kruschev, que pensávamos egoisticamente em nós, em nosso povo generoso disposto a se imolar e não por certo de modo inconsciente, mas plenamente seguro do risco que corria?

(..)

Nós sabíamos, não presuma que ignorávamos, que seríamos exterminados, como insinua em sua carta, caso de iniciar a guerra termonuclear. Não obstante, não por isso, pedimos que cedesse. Crê, por acaso, que desejávamos essa guerra? Porém, como evitá-la se chega a ocorrer a invasão? Se tratava precisamente de que este fato era possível, de que o imperialismo bloqueava qualquer solução e suas exigências eram, de nosso ponto de vista, impossível de ser aceita pela URSS e por Cuba.

(,,,)

Entendo que, uma vez desencadeada a agressão, não se deve conceder aos agressores o privilégio de decidir, também quando se usará a arma nuclear.  O poder destrutivo dessa arma é tão grande e tal a velocidade dos meios de transporte que o agressor pode contar a seu favor com um vantagem inicial considerável.

Eu não sugeri, companheiro Kruschev, que a URSS fosse agressora, porque isso seria algo mais que incorreto, seria imoral e indigno de minha parte; mas que, a partir do instante em que o imperialismo atacasse Cuba e em Cuba a força armada da URSS destinada a ajudar em nossa defesa no caso de ataque exterior, e os imperialistas se convertessem por esse fato em agressoras contra Cuba e contra a URSS, se respondesse com um golpe aniquilador.

(…)

Não lhe sugeri, companheiro Kruschev, que em meio à crise a URSS atacasse, que isso parece desprender-se do que me diz em sua carta, mas que depois do ataque imperialista, a URSS atuasse sem vacilações e não cometesse jamais o erro de permitir circunstâncias em que os inimigos desfechem sobre ela o primeiro golpe nuclear. Nesse sentido, companheiro Kruschev, mantenho meu ponto de vista porque entendo que era uma apreciação real e justa de uma determinada situação. Você pode me convencer de que estou equivocado, mas não pode me dizer que estou equivocado sem me convencer (5).

Por que não se exigiu a devolução do território usurpado da base naval de Guantánamo?
Por que não se exigiu a devolução do território usurpado da base naval de Guantánamo?

Esta carta também foi utilizada para sustentar a versão de que os soviéticos, diante das “propostas irracionais” do líder cubano, não teve outra alternativa que negociar com Estados Unidos, de costas para a direção cubana. Essa assertiva não tem fundamento, porquanto a decisão soviética de fazer propostas aos estadunidenses sem levar em conta as opiniões de Cuba, tinham sido tomadas em Moscou desde o dia 25 de outubro, quando a carta de Fidel não tinha ainda sido escrita.

Uma testemunha de extraordinária validade para demonstrar a falsidade dos critérios que apontam que Fidel incitou Kruschev a dar o primeiro golpe nuclear preventivo contra o território estadunidense é Alexander I Alexeiev, que em outubro de 1962 era embaixador de Moscou em La Habana e a quem Fidel Castro ditou a controvertida mensagem:

“Na noite de 26 para 27 de outubro, Fidel Castro visitou nossa embaixada e ditou o texto de uma carta para ser enviada a N.S. Kruschev. Na mesma se abordava o quão tensa tinha se tornado a situação e a possibilidade de um ataque estadunidense (invasão ou bombardeios) a Cuba nas próximas 24-72 horas. Fidel alertava a Kruschev sobre a perversidade dos americanos e o convocava a tomar todas as contra medidas imprescindíveis, embora em honra à verdade, sem chegar a concretizá-las. Estando Fidel ainda na embaixada, enviei uma breve cifrada em que informava sobre a possibilidade do ataque a Cuba. Umas horas antes nossos militares tinham enviado telegrama a Moscou nos mesmos termos preocupantes. A carta de Fidel saiu para Moscou mais tarde, posto que se traduziu para o russo, e não foi antes da manhã de 28 que chegou às mãos da direção soviética, quando já tinha sido adotada a decisão sobre a retirada dos mísseis. Se sabe também que o que chegou por via telefônica do Ministério de Assuntos Exteriores da URSS à secretaria de Kruschev não foi o texto íntegro da mensagem mas um resumo, motivo pelo qual se produziram imprecisões”.

Che Guevara em sua célebre carta de despedida, ao referir-se ao papel do comandante Fidel Castro durante a crise: “Poucas vezes brilhou mais alto um estadista do que nesses dias”
Che Guevara em sua célebre carta de despedida, ao referir-se ao papel do comandante Fidel Castro durante a crise: “Poucas vezes brilhou mais alto um estadista do que nesses dias”

Essa mensagem gerou sérias incompreensões, uma vez que N.S. Kruschev em uma de suas cartas admoestou a Fidel por ter supostamente sugerido que desse um golpe nuclear preventivo contra o inimigo. A carta de Fidel foi divulgada pela imprensa cubana e dela não se infere tal conclusão.

Fidel admite que o mal entendido se deve a inexatidão da tradução ou a que eu não o tenha interpretado corretamente. Quero deixar constância com absoluta responsabilidade que a culpa não é nossa. A tradução da carta que ditou foi feita por outros funcionários da embaixada que conheciam bem o espanhol e o texto publicado pelo Granma é idêntico ao de nossa tradução. Por isso se pode concluir que as críticas de Kruschev carecem de fundamento. Na mensagem não se faz essas afirmações. Tudo pode ter sido devido ao extraordinário estresse a que estava submetida a direção soviética e ao involuntário deseja de justificar a dificílima decisão de retirar os mísseis em o consentimento da direção cubana.

Reitero que Fidel, então, não instou a que déssemos um golpe nuclear preventivo, mas se limitou a alertar que os estadunidenses, conhecedores de nosso apego ao princípio de não ser os primeiros a usar as armas nucleares, podiam empreender qualquer aventura, inclusive um ataque nuclear. Pelo visto, o bombardeio dos objetivos nucleares soviéticos já teria sido o equivalente a um ataque nuclear. Segundo julgo, Fidel não estava pensando em um golpe nuclear preventivo, mas na necessidade de advertir os americanos que nosso respeito ao princípio de não ser os primeiros a utilizar as armas nucleares não devia ser tomado como uma garantia que os preservaria da represália. A crítica de Kruschev a Fidel, é também improcedente, porque a operação que realizado ao instalar os mísseis em Cuba perseguia o objetivo de intimidar os americanos, dissuadi-los de empreender ações militares, não de utilizar os mísseis (6).

Apesar de transcorridos 55 anos daqueles acontecimentos, ainda se tenta tergiversar a história. O certo é que, como disse Ernesto Che Guevara em sua célebre carta de despedida, ao referir-se ao papel do comandante Fidel Castro durante a crise: “Poucas vezes brilhou mais alto um estadista do que nesses dias”. Só a posição firma da direção cubana, ao negar-se a qualquer tipo de inspeção a seu território, ao determinar os Cinco Pontos (7) e impedir que se lhe pressionasse, foi o que salvou o prestígio moral e político da revolução naquela conjuntura, e evitou que Cuba fosse vista como um simples peão dos soviéticos. Isto foi assim, apesar de a URSS tem tomado decisões sem consultar os cubanos que tiveram como consequência que Cuba fosse a menos beneficiada dos resultados da crise.

Além da ilegal base naval estadunidense em Guantánamo, continuaram os planos de sabotagem e de assassinatos dos principais líderes da revolução, o bloqueio econômico, a subversão, os ataques piratas, o apoio a bandidos e o resto do que compõem a política agressiva de Estados Unidos contra Cuba. Ou seja, Estados Unidos continuou a invadir Cuba, em menor escala, praticamente dia a dia, e isto se deve a que os problemas de fundo provocados pela crise não foram resolvidos. Embora a crise de outubro de 1962 tenha sido a de maior perigo na história das relações entre Estados Unidos e Cuba, muitas outras crises ocorreram entre ambos os países no transcorrer do tempo.

A versão original deste texto foi publicada na Revista Contexto Latino-americano, Vol 2 Ano 1, segunda temporada, jul-dez 2017, Ocean Sur.

Notas:

  1. Tomás Diez Acosta, outubro de 1962: A um passo do Holocausto, Editora Politica, La Habana (segunda edição, p 100.
  2. Em 22 de junho de 1941 ocorreu o ataque de surpresa nazifascista à URSS. O governo soviético possuía informações de inteligência de que tal ataque ocorreria e as considerou de caráter provocativo. Devido a isso, não tomou todas as medidas recomendadas para tal caso, o que permitiu que o inimigo desferisse um potente golpe e mantivesse a iniciativa estratégica durante os primeiros meses do confronto bélico. Informação de Tomás Diez Acosta, outubro de 1962: A um passo do Holocausto, Editora Politica, La Habana, 2008, p. 179
  3. Ignácio Ramonet, Cien Horas con Fidel. Conversações com Ignácio Ramonet (terceira edição), Oficina de Publicaciones del Consejo de Estado, La Habana, 2006 pp 315-316
  4. Ibidem, p. 319
  5. Ibidem, p 319
  6. Citado por Antolín Barcena Luis, O intercâmbio de mensagens entre Fidel Castro e Kruschev durante a Crise de Outubro. Notas de um tradutor a 50 anos dos fatos. Pp 7-8
  7. Os Cinco Pontos exigidos foram: 1 – Fim do bloqueio econômico e de todas as medidas de pressões comerciais e econômicas exercidas pelos Estados Unidos em todas as partes do mundo contra Cuba. 2 – Fim de todas as atividades subversivas, lançamentos e desembarques de armas e explosivos pelo ar e pelo mar, organização de invasões mercenárias, infiltração de espiões e sabotagens, ações que executam a partir de território de Estados Unidos e de alguns países cúmplices. 3 – Fim dos ataques piratas que levam a cabo de bases existentes nos Estados Unidos e em Porto Rico. 4 – Fim de todas as violações do espaço aéreo e naval por aviões e navios de guerra estadunidenses. 5 – retirada da base naval de Guantánamo e devolução o do território cubano ocupado por Estados Unidos.

*Original de La Jiribilla, revista de cultura cubana, direitos reservados.