Daniel Viglietti. Foto: Andrés Figueroa Cornejo
Daniel Viglietti. Foto: Andrés Figueroa Cornejo

“Em memória de um Chueco infinito”.

Andrés Figueroa Cornejo*

Entrevista com Daniel Viglietti

Realizei essa entrevista com Daniel Viglietti no final de novembro de 2009 em Santiago do Chile.

É minha modesta homenagem a um gigante eterno da cultura dos povos.

A foto foi tirada entre Daniel e eu. Ele propôs colocar-se refletido no espelho e eu simplesmente disparei a câmera.

Deixo meu coração nesta memória.

“Quando o pobríssimo tome as cúpulas

e os famélicos tomem as Áfricas

e os indígenas terra amazônica

e os mecânicos tomem as fábricas

e os utópicos saiam do prólogo

e os daltônicos pintem o nítido

e os chuequísimos bailem de júbilo

já o terrícola será libérrimo

qual ritmo cíclico de um canto esdrúxulo.”

Daniel Viglietti

O criador de “A desalambrar”, “Soledad Barret”, “Daltónico” e um sensível cancioneiro que percorreu e percorre as lutas dos povos latino-americanos.
O criador de “A desalambrar”, “Soledad Barret”, “Daltónico” e um sensível cancioneiro que percorreu e percorre as lutas dos povos latino-americanos.

Na sexta-feira, 27 de novembro, às 20h30min, no Teatro Oriente de Santiago do Chile, o legendário artista popular Daniel Viglietti oferecerá um recital a um preço ridículo para esse espaço e para a estatura do cantador.

O criador de “A desalambrar”, “Soledad Barret”, “Daltónico” e um sensível cancioneiro que percorreu e percorre as lutas dos povos latino-americanos já se apresentou em universidades, fazendo vibrar como sempre, desta vez as novas gerações de chilenos que, apesar da má distribuição de sua obra, se maravilha e estremece.

Cálido, pleno de convicções, com projetos infinitos, memória intacta e essa voz profunda que enreda de ternura aos que estão por perto, Daniel Viglietti se senta em uma mesa simples cheia de discos, enquanto eu lhe conto que passei toda a minha vida cantando Chueco Maciel (do meu modo gritado e malogrado) e que, absurdamente, parece que o conheço desde sempre.

Como se forjou seu vínculo com o Chile?

Daniel Viglietti : Minha relação com o Chile é de um grande carinho e de um sentimento solidário de ida e volta. Quando conheci o Chile em 1965 fiquei sabendo que os filhos da formidável cantora Violeta Parra – que eu já conhecia pelo seu trabalho -, Isabel e Ángel, tinham apresentado “Canción para mi América” (“Dale tu mano al indio / dale que te hará bien”) em um programa televisivo e por causa disso tiveram algumas dificuldades. Então quando eu vim pela primeira vez ao país, à cidade de Valparaíso, integrando um coral, como suplente de um baixo, ao festival de corais de Viña del Mar, a primeira coisa que fiz, depois do evento, foi ir para Santiago, à calle Carmen 340, onde funcionava a Peña de Los Parra. Aí estava Violeta tomando uma sopa.

E foi assim que te “emparraste”?!

Daniel Viglietti: Assim começou a amizade com Isabel e Ángel. Nessa primeira viagem fiquei na casa do Patricio Manns (“Arriba en la Cordillera”, “El cautivo de Til”). Ele estava em uma turnê pelo norte do país, filmando e me deixou seu apartamento da calle Berlín. Sucessivamente derivei para a casa dos Parra, na calle Los Leones 1278.

Carmen 340 foi a “fábrica” da Nova Canção Chilena…

Daniel Viglietti: Nesta peña conheci Víctor Jara; fiquei amigo do Rolando Alarcón (“Los Pueblos Americanos”) que ainda estava vivo; do Payo Grondona, que acabou sendo um dos meus melhores amigos aqui. Também do “Gitano” Rodríguez (“Ha llegado aquel famoso tiempo de vivir”) que foi embora já faz algum tempo. Tudo isso criou uma relação entranhável com o Chile. Então cantei na feira de Los Cerrillos (Santiago), onde também cantou Violeta junto a essa tão prolífica família dos Parra. Em outra viagem me trouxe a teu país René Largo Farías (morto em estranhas circunstâncias há alguns anos), ao Festival Chile Ríe y Canta no Teatro Caupolicán. René era um homem tremendamente solidário que depois encontrei no exílio.

Tu és filho de músicos e parece ter estado desde sempre…

Daniel Viglietti: Canto há 51 anos, e assim é que nas minhas visitas ao Chile vi nascer grupos como o Inti-Illimani (“Samba Landó”, “Venceremos”) e o Quilapayún (“El Pueblo Unido”).

O Exílio

Tudo isso foi nos anos 60 e no início dos 70… depois foi o horror da ditadura…

Daniel Viglietti: Assim também me ata ao Chile tudo o que aconteceu durante a Unidade Popular, Salvador Allende, Miguel Enríquez. Nesse tempo, é claro que não saíram meus discos, o que perde toda a importância depois de tudo que passou.

Como ficaste sabendo do golpe?

Daniel Viglietti: Eu estava em Paris, escutando um concerto do Carlos Puebla (“Hasta Siempre, Comandante”), e quando começávamos a abrir umas garrafas de rum, chegou um deles com o rosto transtornado, dizendo “golpe no Chile”. Imediatamente deixamos as garrafas de lado e fomos cada um para nossas casas. Então começou outra vida para mim. Porque, apesar de ser uruguaio, me transformei imediatamente em chileno, e mais adiante, com o golpe de Estado do Videla, me transformaria em argentino.

Tu também foste exilado...

Daniel Viglietti: No exílio me encontrei com Joan Jara (viúva de Víctor Jara), em Berlim, na então RDA, onde ela me contou tudo sobre a morte do Víctor. Eu sempre trabalhei em rádio e televisão, e por isso tenho uma grande quantidade de entrevistas em meus arquivos de vários desses encontros.

Quando viajastes a Chile outra vez?

Daniel Viglietti: Tive a oportunidade de entrar no Chile durante a ditadura de Pinochet, no final dos anos 80, em uma grande iniciativa que se chamou Chile Crea.  Alí reencontrei Isabel Parra, Payo, e abracei a extraordinária folclorista, Margot Loyola.

Em 1990 terminou o regime militar…

Daniel Viglietti: No período depois da ditadura vim muitas vezes. E assim vou descobrindo gente nova do Chile que canta, como Pancho Villa (“Yo soy de una generación”), e ontem, em um recital fui acompanhado pelo grupo musical Manka Saya e Vanessa Luna. De maneira que continua fluindo essa memorável relação com o Chile.

Muitas de suas canções são eminentemente libertárias. Há alguns artistas que já desalojaram de seu repertório suas “ardentes” obras de juventude…

Daniel Viglietti: Eu não me arrependo de nenhuma canção; eu as contextualizo em suas etapas e as continuo cantando. Meus dois últimos discos são “Devenir” e “Trabajo de Hormiga”, e já estou preparando um disco novo.

Lúdico, o Cuequísimo

Tu brincas muito com as palavras acentuadas na antepenúltima sílaba; as famosíssimas esdrúxulas, como fez Violeta na “Mazúrquica Modérnica”…

Daniel Viglietti: O esdruxulismo é um gênero que vai além de Violeta e de muitos, e que vem de muito longe. O próprio Chico Buarque o emprega em “Construção”. Violeta Parra apocopou os esdrúxulos, tornando-os diferentes, criou neologismos. Eu só agreguei uma pérola ao colar com a canção “Esdrújulo”. Ao usar esse tipo de palavras fui obrigado a pensar muito. Às vezes uma situação limite obriga a realizar importantes esforços de imaginação. E isso não quer dizer que as censuras sejam benéficas, mas as censuras que ocorreram aqui e lá, quando todos tiveram que dar um jeito de disparar metáforas e escapar dos cercos, produziram bons exercícios.

E de onde saiu “Esdrújulo”?

Daniel Viglietti: Essa surgiu em um passeio pelo campo, brincando com os guris (meninos) de amigos com palavras esdrúxulas. Ali começou o trabalho de engenharia.

Eu já te disse que meu cavalo de batalha na universidade foi teu “Chueco Maciel”. Qual é a sua história?

Daniel Viglietti: El Chueco Maciel nasceu nos “cantegriles”  de Montevidéu em 1970. Cantegril era uma zona de muito luxo em Punta del Este, então o povo com esse humor crítico que caracteriza os nossos, aplicou aos lugares mais pobres o termo cantegril. E ali cresceu um rapaz que vinha do interior do Uruguai, no processo de migração campo-cidade, que se chamava Nelson Maciel e o chamavam de “chueco”, porque lá chamam assim aqueles que andam com os pés um pouco para dentro. Então esse rapaz começou a praticar alguns assaltos para conseguir comida para os membros do cantegril. Assaltou caminhões de comestíveis e bancos para conseguir dinheiro para ajudar aos moradores do cantegril. Desse modo, se converteu em um símbolo crescente. Foi muito defendido no cantegril, até que um dia foi capturado e assassinado dentro de uma caminhonete. Isso despertou uma enorme quantidade de sentimentos. Assim, eu fiz a canção. Tive a oportunidade de cantá-la inclusive na frente da mãe do próprio Chueco Maciel.

Na década dos 80, secretamente e em fitas mal copiadas, os jovens que éramos contra a ditadura, ouvíamos tua canção “Por todo Chile” que sempre pensamos que era um tema dedicado à Frente Patriótica Manuel Rodríguez…

Daniel Viglietti: Nasceu em janeiro 1973 (vários meses antes do golpe militar), e eu a escrevi tal qual é. Depois foi gravada pelos irmãos Parra. Tomo Manuel Rodríguez como símbolo. Era um momento muito particular no Chile, havia a greve dos caminhoneiros contra o governo de Allende, se gestava um avanço da direita, e minha canção coloca a decisão de muitos setores de preparar-se para a luta. E sigo cantando essa canção, respeitando a sua origem.

Tu também empregas quase como um paradigma a palavra “chueco”…

Daniel Viglietti: Dilato a palavra “chueco”, como algo imperfeito, frágil, humano, pero que não nos exime de seguir lutando, sempre criando, sempre liberando.

*Original de Resumen Latinoamericano

Escutar “El Chueco Maciel”