Nos últimos dias, estive imersa numa realidade vivida no quarteirão do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. O debate em torno da arbitrariedade da decisão de Moro, sobre a seletividade da justiça e a necessidade de ampliar o ato em solidariedade a Lula eram temas comuns. Bons companheiros e companheiras se abraçavam a quase todo instante, palavras de ordem eram entoadas aos berros, almas eram lavadas a cada hora que passava”.

Por Juliane Cintra*

Estávamos lá para defender Lula, mas também para defender os direitos e a luta que resultou na conquista de cada um deles. Não podíamos mais tolerar aos ataques sofridos cotidianamente. Saímos dos mais diferentes cantos do país, motivados pelas mais distintas razões. Demos um breve tempo em nossos embates  pois sempre estivemos em resistência nas ruas  para nos unirmos em solidariedade a um dos maiores líderes políticos da nossa história recente.

Ao retornar para casa, no entanto, fui atravessada pelo silêncio brutal da normalidade. A mídia se esforçava para tornar tudo que vivi em artificialidade. Fora daquele quarteirão, éramos novamente vândalos; jornalistas exigiam o cumprimento da ordem  analistas jurídicos brotavam aos montes , era preciso assegurar a prisão nem que para isso precisassem usar a força”.

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“O foco estava voltado em gerar tensões em torno daquele que, há muito, tinha se tornado o grande criminoso: Afinal, Lula se entregaria? Já era um fugitivo? O que aconteceria?

Nada sobre os apoios das figuras públicas que via entre a gente comum nos corredores do sindicato. O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim fora chamado de “burro”, pois em uma de suas declarações falou em rendição, termo que para um “renomado jornalista” deveria ser apenas utilizado em situações de guerra, não em meio à prisão de um político corrupto.

Todos os que saíram de suas casas eram pessoas “desequilibradas”, meia dúzia de “seres intransigentes”, “financiados pelos sindicatos” para atacar profissionais da imprensa, fazer churrasco e acirrar os discursos.

E foi entre esses dois mundos que o real significado de desobediência civil, mais uma vez, despontou. Virar as costas para institucionalidade que nos oprime se faz necessário quando se quer alcançar a verdadeira transformação social e isso nada tem a ver com discurso de ódio, mas sim em tomar de assalto privilégios e torná-los direitos fundamentais.

Lula não deveria ter se entregado. Não importa mais o que vai dizer a imprensa, não importa mais a tentativa de construir o contraponto na arena pública e assegurar que a população tenha mais elementos para compreender a farsa em torno do combate à corrupção. Não importa porque isso pode nos custar a sua vida e trajetória e muito mais, o ideário de justiça social e superação das desigualdades defendidos por todos nós.

Esse pode ser mais um discurso emocionado, silenciado nessa névoa imposta pelos veículos de comunicação comerciais, racistas e elitistas. Mas que ao menos, o meu discurso registre na história uma das possibilidades, apenas uma, do caminho construído de apoio ao Lula. Esse foi o lado que resolvi ficar na história.    

(*) é jornalista, colaboradora da revista Diálogos do Sul