“Precisamos ter de novo uma pauta positiva, objetivos pelos quais o povo sinta-se impelido a lutar diz com acerto Celso Lungaretti ao constatar que o fora este! Fora aquele! Já cansou. É hora de virar o disco, afirma”.

A esquerda precisa corporificar o novo, a utopia, a concretização dos anseios milenares da humanidade; conquistar corações e mentes, rompendo a barreira do ceticismo e transmitindo esperança aos eternamente explorados, humilhados e ofendidos.

Celso Lungaretti*

Celso LungarettiEste trecho do editorial de hoje (5ª feira, 26) da Folha de S. Paulo colocou o dedo na ferida:

“…o fato é que as principais forças políticas, para nada dizer da própria sociedade, retraíram-se. Os votos da oposição, embalados em discursos candentes, assim como os entreveros exaltados que pontuaram a sessão da Câmara, não chegaram a dissipar a impressão de que, em última análise, todos consideram a presença de Temer no Palácio do Planalto um fato consumado. Amplamente majoritária a rejeição popular ao mandatário, esta não foi, contudo, acompanhada de nenhuma mobilização popular minimamente expressiva em favor do encaminhamento da denúncia“.

cedemImpõe-se a conclusão de que as bandeiras eminentemente negativas, às quais o PT agarrou-se como uma espécie de tábua de salvação a partir do segundo semestre de 2014, já não estão empolgando contingentes mais amplos da população e nem mesmo a classe média se dispõe a sair às ruas para expressar seu descontentamento.

Votou-se em Dilma para afastar o perigo das reformas satânicas que os bancos estariam tramando na calada da noite com Marina Silva (e depois Aécio Neves), mas quem acabou assumindo a tarefa de impingir tais reformas aos brasileiros acabou sendo a própria Dilma.

Afastou-se Dilma na suposição de que bastasse tirar o PT do Palácio do Planalto para os problemas do país se resolverem num passe de mágica, mas ficou tudo como dantes no quartel de Abrantes, com melhoras e pioras localizadas que não alteraram substancialmente o cômputo geral aos olhos das grandes massas (quem mais se indigna com a guinada à direita são os bem pensantes, hoje não tão influentes como formadores de opinião quanto o eram no século passado).

Torceu-se pela Lava Jato acreditando que dedetizaria os universos viciosos da política e dos grandes negócios (e respectivos entrelaçamentos), mas a operação perdeu o foco e viu sua credibilidade arranhada à medida que alguns de seus expoentes passaram a utilizá-la para fins políticos.

Ademais, o distinto público reaprendeu a velha lição de que cortar cabeças de nada adianta (sai um corrupto, entra outro) quando a corrupção é inerente ao sistema político – até porque este foi satelizado e hoje não passa do biombo que o poder econômico utiliza para esconder que é ele quem realmente toma as decisões importantes sob o capitalismo, sem ter sido eleito por ninguém e sem ter de preocupar-se com reeleição, pois são apenas os seus serviçais que estão sujeitos à alternância.

O patrão é sempre o mesmo e os serviçais cada vez mais se evidenciam como farinha do mesmo saco, nem todos por crapulosidade intrínseca, mas também porque se trata de um sistema fechado, que facilmente isola e manieta os poucos abnegados dispostos a honrarem seus mandatos.

17861724_1688913274736666_6929983976855886941_nEm 2014, quando os responsáveis pela campanha presidencial do PT se apavoraram com o rápido crescimento da candidatura de Marina Silva e resolveram combatê-la com uma repulsiva desqualificação à base de mentiras cabeludas e demagogia rasteira, bem que alertei: o resultado de uma guerra de tortas de lama é fazer com que o cidadão comum tenha a sensação de que a política é toda um mar de lama.

Isto só interessa à direita, que quer apenas manter as coisas como estão. A esquerda precisa corporificar o novo, a utopia, a concretização dos anseios milenares da humanidade; conquistar corações e mentes, rompendo a barreira do ceticismo e transmitindo esperança aos eternamente explorados, humilhados e ofendidos.

Tem de fazê-los acreditarem na possibilidade de uma grande mudança para melhor, primeiro passo para engajarem-se nas lutas por esta mudança.

Apesar de as bandeiras eminentemente negativas possibilitarem êxitos momentâneos, em médio e longo prazo são desastrosas para a esquerda, pois desmobilizam, semeando o desencanto e a apatia. É exatamente o que se vê agora, quando ninguém gosta do Temer e quase ninguém move uma palha para tirá-lo de lá.

Na reavaliação de estratégia e táticas que a esquerda majoritária deveria estar fazendo desde maio de 2016, um ponto importante é voltar a ter uma pauta positiva, objetivos pelos quais o povo sinta-se impelido a lutar.

O fora este!, fora aquele! não só nos empurra cada vez mais para baixo, como, inclusive, já cansou.

O amargor já cansou. O rancor já cansou. E, consequência última do clima infernal engendrado por tanta negatividade, a impotência e a abulia já cansaram. É hora de virarmos o disco.

*Colaborador de Diálogos do Sul