Conversa entre Lula e Correa aborda as dificuldades históricas e políticas que afetaram a América Latina — especialmente em sua relação com os Estados Unidos — e sua necessidade de seguir lutando para manter a dignidade social diante de qualquer tentativa de submissão.

Por Victor Farinelli, na Carta Maior

Foto: Heinrich Aikawa/ Instituto Lula

Na nova edição do programa de entrevista “Conversando com Correa”, no canal RT en Español, o ex-presidente do Equador dialoga com Lula da Silva, o ex-presidente progressista do Brasil e principal líder do Partido dos Trabalhadores. A conversa entre ambos aborda as dificuldades históricas e políticas que afetaram a América Latina — especialmente em sua relação com os Estados Unidos — e sua necessidade de seguir lutando para manter a dignidade social diante de qualquer tentativa de submissão.

Este encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Rafael Correa é também o encontro entre dois ex-presidentes latino-americanos progressistas, o que propicia, certamente, uma leitura compartilhada do presente político baseada na experiência direta dos problemas políticos da região.

Correa recebeu Lula com uma pergunta introdutória tão ampla quanto indispensável. Depois do impressionante progresso do Brasil durante os governos progressistas do PT (Partido dos Trabalhadores), do seu sucesso indiscutível na redução dos níveis da fome e da pobreza, e da considerável estabilidade democrática alcançada nesse período, se inicia o injusto processo de “defenestração” sofrido pelos dirigentes do PT: a perseguição política a Lula, e anteriormente o “impeachment’ de Dilma Rousseff, “baseado em calúnias”, como diz o próprio Correa. Em paralelo a isso, os atuais governantes do Brasil aparecem envolvidos em casos de corrupção do mais alto nível sem que isso seja capaz de afetá-los. “O que acontece com o nosso querido Brasil?”, pergunta Correa.

“O Brasil tinha tudo para estar consolidando sua democracia — explica Lula —, tudo começou muito bem, até que vieram as manifestações de junho de 2013”. Na opinião do ex-presidente brasileiro, seu país “estava numa posição privilegiada, formava parte dos BRICS (bloco de países que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), se transformou num protagonista internacional, e creio que os estadunidenses não estavam acostumados a ver certa independência por parte dos países da América Latina”.

“Em todo caso, os avanços conseguidos foram extraordinários”, aponta Rafael Correa, que considera “desconcertante” o rumo posterior dos acontecimentos, e lamenta que “o resto da América Latina e o resto do mundo vire o rosto para não ver essas injustiças”, em referências às arbitrariedades cometidas contra o PT e os ex-presidentes.

 

Os interesses das elites, dentro e fora do Brasil

 

Por sua parte, Lula ofereceu uma versão simples e clara dos fatos: “a elite brasileira nunca aceitou o fato de que eu tenha optado a favor da América do Sul”. O líder do PT assume que “o Brasil era um país que estava de costas para a América do Sul, não olhava para a África, só olhava diretamente para os Estados Unidos e a União Europeia. Eu decidi mudar isso”, afirmou.

“Eu estou convencido — continuou Lula — de que há um vínculo entre os interesses da elite brasileira e os das elites estrangeira, sobretudo a dos Estados Unidos”. O ex-presidente brasileiro assegura que “muitas vezes não conseguimos comprovar coisas no mesmo período em que elas ocorrem, mas hoje nós já temos provas de que o Ministério Público do Brasil está recebendo instruções do Ministério Público norte-americano”. “Há uma combinação de interesses da elite de países como os Estados Unidos e os da elite brasileira”, acrescenta Lula.

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Em qualquer caso, o político brasileiro se mostra convencido de que “os Estados Unidos não estão interessados numa América Latina independente, não interessa para eles uma América Latina com soberania, e interessa muito menos ver um país com o tamanho do Brasil tendo influência nas decisões sobre a América Latina”.

Estas reflexões são congruentes com a visão geopolítica de Lula, que num momento da entrevista chega a afirmar que “a elite brasileira não está acostumada à democracia, e mais que isso, creio que as elites da América Latina não querem democracia”.

 

Autocrítica e vontade de lutar

 

Lula admite que “nós também cometemos erros, que nos deixamos levar pela euforia, pelas coisas que fomos capazes de fazer, e por isso não se tivemos tanto cuidado na organização do país”. Nesse sentido, ele lamenta ter perdido a oportunidade de “consolidar o bloco do Sul”, e reconhece diretamente que faltou maior ímpeto para alcançar esse objetivo.

Correa, por sua parte, chamou a atenção sobre a existência de um “script” de ação política que “se aplica em várias partes da América Latina”, e que “leva à perseguição dos políticos progressistas” e também ao seu “linchamento midiático”, enquanto os políticos conservadores parecem contar com a impunidade.

Contudo, Lula também afirmou que não está disposto a se render: “eles achavam que eu iria desistir ou que iria fugir do país, mas não, eu ficarei aqui e lutarei. Lutarei porque conto com o apoio de uma parte da sociedade organizada, e que é muito forte” assegura, e agrega que quer transformar o Brasil num país que trabalha para o crescimento conjunto das nações, um país que anda de cabeça erguida, defendendo os povos oprimidos do mundo”.

Também joga a seu favor a boa disposição que demonstra: “aos meus 73 anos, tenho a energia de uma pessoa de 30, e a vontade de lutar de um garoto de 20”, afirma Lula.

 

Íntegra da entrevista

 

Durante este encontro entre Rafael Correa e Lula da Silva, eles conversaram sobre muitos temas, questões da atualidade e assuntos de grande interesse no cenário latino-americano. Confira o vídeo completo do programa:

* Com informações do Programa de entrevistas no canal RT en Español