O diário Expreso do Equador publicou, na terça-feira 13 de fevereiro, novamente uma reportagem “Sem”. Sem citar nomes, sem apresentar provas, sem entrevistar os supostos corruptos que integrariam um novo esquema de corrupção no governo da Revolução Cidadã. Tal qual a pantomímica novidade sobre a lista da Odebrecht, o ridículo de entrevistar o ex ministro foragido Carlos Pareja Yanuzzelli, que acusava o vice-presidente Jorge Glass sem apresentar uma só prova. Este tipo de atuação é uma atitude clássica resultante da utilização de empresas de comunicação como atores políticos.

Amauri Chamorro*

portadas1Na última semana do segundo turno eleitoral de 2014 no Brasil, Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) disputavam voto a voto a presidência da República. A mídia brasileira já tinha investido sua capacidade de observação na vigilância ao PT, a Dilma e Lula, para restar votos à ex presidenta, o que permitiria que Neves -sócio da Globo- pudesse devolver a sexta economia do planeta às velhas estruturas do poder.

Como último recurso eleitoral em favor de Aécio Neves, a revista Veja, do Grupo Abril, um dos maiores conglomerados mediáticos do planeta, decidiu adiantar sua tradicional publicação semanal que sai nos domingos, para a sexta-feira anterior às eleições. Sua capa dizia: “Eles sabiam de tudo”. A voto de Dilma e Lula utilizada para ilustrar a acusação era a antessala de uma falsa denúncia. Segundo Veja, o principal preso pela operação Lava Jato tinha denunciado que ambos sabiam da corrupção na Petrobras. O acusado nunca tinha falado sobre o tema, e até o dia de hoje não se apresentou prova alguma. O advogado do preso teve que sair publicamente a desmentir a capa da Veja.

Essa capa, apenas três dias antes da eleição, era a centésima contra o PT. Durante mais de 30 anos Veja dedicou uma grande quantidade de capas para atacar com mentiras e desinformação a ascensão daquele que chegou a ser o maior partido de esquerda do mundo ocidental. Nem pensar o que fizeram com Lula. O acosso mediático sem prova é tão grave no Brasil que Dona Marisa Letícia, esposa e companheira de lutas de Lula, faleceu de um aneurisma cerebral no último dia 3 de fevereiro, por não resistir os três anos consecutivos de acusações de corrupção, sem provas, contra ela e sua família.

Depois da publicação da capa de Veja, o PT entrou com um processo legal no Tribunal Superior Eleitoral e conseguiu direito de resposta, que seria aplicado uma semana depois da eleição. No dia seguinte da publicação circulou um áudio pelo Whatsapp, com o rumor de que o suposto denunciante teria sido envenenado por Dilma como vingança pela denúncia. A Polícia Federal e o Ministério Público saíram a público para desmentir a falsa morte. O dano, contudo, já estava feito.

Apesar de tudo, Dilma Rousseff ganhou as eleições. As mentiras das empresas de comunicação, somadas ao desastroso manejo comunicacional do governo federal e do PT, permitiram a consolidação de um ambiente político e social que aceitou todo tipo de atropelo ao Estado de Direito. Atropelos de um juiz que violou a Constituição, de uma Corte Suprema que não se importou com a inconstitucionalidade das medidas tomadas por esse mesmo juiz, de um tribunal que acusou com base em hipóteses, e de juízes que prevaricaram sem ser incomodados. Tudo orientado a destruir a esquerda como opção política, inviabilizar a candidatura de Lula e proteger o corrupto Michel Temer e seu bando de criminosos que atuam no Congresso.

A conduta das empresas de comunicação brasileiras, tal como ocorre no Equador com Expreso, Teleamazonas, El Comercio, Ecuavisa e El Universo, permitiu criar um ambiente de secessão em que qualquer tipo de agressão física contra o progressismo seja visto como “justificado”. Bandos antipetistas assassinaram a golpes a jovens que nem sequer eram do PT simplesmente por utilizar camisetas vermelhas, a cor desse partido. Observemos as marchas dos “camisas negras” de Andrés Páez e encontraremos a gênese do mesmo comportamento.

O ambiente criado por falsas denúncias, que nem sequer são investigadas pelas autoridades –posto que carecem de provas materiais- da à população uma sensação de impunidade generalizada. Essa frustração leva as pessoas a alimentar um ódio que se expressa nas urnas e nas ruas.

Publicar especulações é uma forma de violência massiva. O governo e a justiça do Equador devem reagir imediatamente contra essa falsa liberdade de expressão que provoca a ira das pessoas que acabam se convertendo em “camisas negras”. Porque a história se repete: as mentiras dos meios de comunicação, alimentando a  ignorância da turba e trabalhando junto com os traidores, arrastaram e queimaram o maior de todos os equatorianos, Eloy Alfaro. Basta conversar com os chefes das redações e os líderes anti correístas, para comprovar que sua semântica cheia de ódio e a falta que argumentos que a sustentem, reduzem sua existência como sujeitos históricos à simples tentativa de fazer desaparecer o oponente. Afinal, quem define a história são os vencedores e nesta última década tem sido o povo equatoriano.

  • Colaborador de Diálogos do Sul, de Quito, Equador.