Evo Morales, toma posse em cerimônia indígena nas ruínas pré-colombianas de Tiahuanaco
O presidente reeleito da Bolívia, Evo Morales, participou no dia 21 de janeiro de uma “cerimônia ancestral” de posse preparada nas ruínas pré-colombianas de Tiahuanaco. A solenidade teve a presença de indígenas. Na véspera de iniciar oficialmente o terceiro mandato, Morales disse que é tempo de “pachakuti”, que significa retorno ao equilíbrio na língua indígena quéchua, de reafirmação da identidade e da revolução democrática e cultural. O local fica a 70 quilômetros de La Paz, e a 4 mil metros de altitude.

O primeiro ato ritual na posse de Evo Morales foi realizado em Tiwanaku e o segundo no Palácio Legislativo. Ambos os atos contaram com a presença de convidados e delegações estrangeiras, principalmente de representações das 300 nações e organizações indígenas da América Latina, assim como de povos originários dos Estados Unidos, Canadá e Europa.

Os atos cerimoniais iniciaram na manhã de 21 de janeiro, quando na presença de milhares de visitantes de todas as partes do mundo, principalmente indígena, 40 tambores e pututus iniciaram o ritual de posse do presidente em nas ruínas pré-colombianas de Tiahuanaco, localizadas a cerca de 70 kilometros de La Paz e a mais de 4000 metros de altitude.

O ritual ancestral  dividiu-se em duas partes: primeiro na pirâmide de pedra Akapana e o segundo no templo de Kalasasaya.

Morales foi investido como Apu Maliku do Estado Plurinacional no centro arqueológico de Tiwanaku. Os amautas fizeram uma cerimônia de purificação, colocaram uma túnica feita de lã de lhama, com as cores, branca, negro e diversos tons de cinza. Segundo o pesquisador Jorge Mirando “no mundo andino o branco significa o sacrifício e o negro é a representação da inteligência emocional, a geração de novos paradigmas e a intuição”.

Por cima, um peitoral de ouro que representa a união do mandatário com seus ancestrais e na cabeça, um chuku, ou gorro de quatro pontas, que representa a unidade de todas as regiões da Bolívia.

Suas sandálias são de couro de lhama que, segundo Miranda, “no mundo andino é o símbolo da comunicação.”

Previamente, com outros rituais, os amautas consagraram a pirâmide e o templo de Kalasasaya. Ao sair da tenda de campanha, os amautas e Morales pediram licença para passar à Aôapana e subiram as escadarias até a parte superior onde está esculpida uma chakana andina (cama).

No extremo que marca o oeste, realizou-se um primeiro ritual em que o presidente agradeceu por sua primeira gestão e sua vitória eleitoral. Posteriormente se dirigiu ao sul, onde com outra cerimônia pediu o fortalecimento da economia para que os bolivianos possam viver bem. No leste pediu pela unidade e integração do país, e no norte, pelo respeito à Mãe Terra.

Amplo apoio

Os presidentes Evo Morales e Dilma Roussef.
Os presidentes Evo Morales e Dilma Roussef.

Evo Morales assumiu seu terceiro mandato – que vai até 2020 – com amplo apoio popular e domínio sobre o Congresso o que lhe permitirá acelerar o processo de mudança. A nova gestão inicia porém, com o fantasma da crise econômica internacional que ameaça a região latino-americana.

“A Bolívia mudou com estabilidade econômica e política mas ainda falta consolidar essas mudanças e avançar mais… deixamos ser mendigos, agora temos um país digno e que a comunidade internacional respeita”, disse em sua mensagem à Assembleia Nacional e diante de cinco presidentes convidados, entre os quais, a Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff.

O presidente boliviano jurou com o punho esquerdo em alto “pelo povo boliviano e pela igualdade de todos os seres humanos” desempenhar o alto cargo para o qual foi reeleito em outubro passado com 62 por cento dos votos.

Evo Morales recebeu das mãos do presidente da Assembleia Legislativa, Álvaro García, que também é vice-presidente da Bolívia, os símbolos pátrios: um medalhão e a faixa presidencial, que leva  desde 2010, junto com o escudo nacional e uma bandeira “whipala”, que simboliza os povos indígenas.

“Sim, juro”, expressou o mandatário de 56 anos, de raízes indígenas, diante de 36 senadores e 130 deputados dos nove departamentos da Bolívia.

No velho edifício do Congresso participaram da posse os presidentes Nicolás Maduro, de Venezuela; Dilma Rousseff, do Brasil; Horacio Cartes, do Paraguai; Luis Guillermo Solís, de Costa Rica; Rafael Correa, do Equador; Anthony Carmona, de Trinidad Tobago, e o primeiro ministro da Namíbia, Hage Geingob.

Também estavam presentes os vice-presidentes da Argentina, Peru e Cuba, e dezenas de enviados especiais e convidados.

A crise do petróleo

Evo Morales no Terrazo
Evo Morales no Terrazo

Em seus primeiros nove anos de governo, Morales nacionalizou as riquezas naturais, entre elas os hidrocarbonetos, e deu ao Estado o controle das principais empresas de caráter estratégico como as de telecomunicações e de eletricidade.

Favorecido pelo preço do gás – que exporta para o Brasil e Argentina, o Estado boliviano recebeu vultosos recursos que permitiram melhorar a distribuição da renda em benefício dos setores populares.

Não obstante, “agora terá que governar no marco da queda do preço do petróleo e por isso da baixa do preço do gás, ou seja, terá que fazer já não em condições de boom econômico dos nove anos anteriores”, disse o analista independente Carlos Toranzo.

Foi o próprio Morales quem chamou a sua equipe de governo a demonstrar sua capacidade de preparar-se para a crise a que seu ministro de Economia, Luis Arce, respondeu: “Vamos continuar crescendo, porque os preços internacionais ajudam, mas não são uma condição suficiente nem necessária”.

Bolívia prevê para este ano um ritmo de crescimento econômico de 5,9 por cento, muito parecido ao de 2014, quando seu PIB alcançou os 30 bilhões de dólares.

A tentação de um quarto mandato

Com o domínio absoluto do Congresso, o governante terá autonomia para, por exemplo, reformar a desvalorizada justiça boliviana ou, eventualmente, modificar a Constituição e abrir a possibilidade de um quarto mandato.

A confirmação dos temores da debilitada oposição pareceu dar coragem ao vice-ministro de Descolonização, Félix Cárdenas, ao afirmar que o rito de quarta-feira em Tiwanaku tinha “o objetivo de mostrar uma liderança continental e antecipar uma liderança planetária com vistas a 2015″.

Não obstante, o mandatário de 55 anos, em coletiva à imprensa na segunda-feira, garantiu que “nunca tinha pensado sobre esse tema” de modificar a Constituição para uma possível reeleição.

O terceiro mandato de Morales poderia ter notórias variantes com relação aos anteriores, marcados por uma posição fortemente alinhada com o denominado socialismo do século XXI, encarnado pela Venezuela do extinto Hugo Chávez.

Morales deu pautas de um novo conceito em seu discurso de posse indígena da quarta-feira. “Daqui nos projetamos ao século XXI como uma das nações descolonizadas do mundo onde o bem viver seja nossa filosofia. O liberalismo e o socialismo europeu não nos servem para este objetivo. Eles passaram à história junto com a república liberal e colonizada de Bolívia”, expressou.

Agenda Patriótica 2025

Morales pediu ao gabinete de ministros aplicar as propostas da Agenda Patriótica, a primeira planificação nacional de longo prazo que deverá coroar em 2015 e também instrumentalizar os postulados do programa eleitoral do governo anunciado antes de 12 de outubro último.

“Temos a obrigação de avançar nesta gestão com a Agenda Patriótica 2025, asseverou antes de empossar os novos colaboradores. Antes seu chanceler David Choquehuanca, pediu para ajustar os modelos de vida e comportamento ao novo tempo, o Pachacuti.

Linha matriz de sua política de Estado, a Agenda Patriótica , elaborada por todas as instituições do estado, teve também o consenso das organizações sociais, camponesas e sindicatos entre 2013 e 2014.

Morales pediu urgência aos 21 ministros, 13 novos e 8 ratificados, “repassar todos os compromissos eleitorais de outubro”, quando ganhou com folga.

Abundância para Bolívia

A Illa del Ekeko, cuja peque estátua, de 15 centímetro, abriu no sábado, pela primeira vez em 157 anos, a tradicional festividade da Alasita em La Paz
A Illa del Ekeko, cuja peque estátua, de 15 centímetro, abriu no sábado, pela primeira vez em 157 anos, a tradicional festividade da Alasita em La Paz

O vice-presidente Álvaro García Linera pediu prosperidade para Bolívia ao deus da abundância e fecundidade da cosmovisão bandida, a Illa del Ekeko, cuja peque estátua, de 15 centímetro, abriu no sábado, pela primeira vez em 157 anos, a tradicional festividade da Alasita em La Paz. A estátua foi repatriada há poucos meses da Suíça.

“Sob a sombra da Illa del Ekeko, inauguramos estas Alasitas pedindo, em primeiro lugar, em nome do presidente Evo (Morales), em nome de (sua esposa) Claudia (Fernández) e em meu nome, para nossos irmão bolivianos, bem-estar, que haja saúde, que haja trabalho, que haja dinheiro, que haja estabilidade, que haja tranquilidade na família”, disse Linera.

Ao inaugurar a festividade da Alasita (compra-me, em aymara), tradicional o mesmo em varias cidades do mundo andino, tais como Quito, no Equador, e Cusco, no Peru, como em várias partes da Bolívia, nas terras baixas, andina e subordina, García Linera disse, diante de uma multidão que acorreu ao ato, que a Illa del Ekeko representava um novo tempo para o país.

“O regresso do Ekeko é um símbolo, é um símbolo do retorno à unidade, do retorno a fraternidade, do retorno ao desenvolvimento, do retorno ao bem-estar”.

Em 1858, o diplomata e botânico suíço, Jacob Von Tschudi, ludibriou os guardiões da Illa em Tiawanaku e a levou indevidamente para seu país, onde permaneceu por mais de século e meio, primeiro em sua casa e depois em um museu, para onde foi vendida como uma simples peça de pedra.
Uma gestão da administração Morales com as autoridades suíças permitiu o retorno a La Paz, o habitat da Illa em novembro último.

Convencidos de que a crença secular se fará realidade, milhares de bolivianos andinos ou não, percorreram neste sábado em indescritíveis profissão de fé, paróquias católicas de La Paz, onde em incrível sincretismo, levavam para benzer objetos, utensílios carros, caminhões  miniaturas de casas, dólares, euros, emitidos pelo “banco da abundância”, que compravam nas ruas.

“Pedir que essas riquezas cheguem à família, chegue ao departamento, chegue a Bolívia. Hoje é uma Alasitas diferente das que tem ocorrido nos últimos cem anos, Hoje estamos protegidos, todos os bolivianos, por uma Illa, a Illa que representa o Ekeko, um Ekeko construído há centenas de anos que esteve mais de 150 anos fora de Bolívia, e esses 150 anos foram, não há dúvida, de tristeza e de abandono”, vaticinou o vice-presente.

Recuperar patrimônio arqueológico

O presidente Morales anunciou que iniciará uma campanha internacional para recuperar o patrimônio histórico de Bolívia levado por estrangeiros.
“Devemos juntos, com nossos movimentos sociais, nossas autoridades, começar essa campanha internacional para que os bens do povo boliviano, do Estado Plurinacional voltem a Bolívia”, disse Morales em La Paz, quando os xamãs  andinos se acercaram com a Illa do Ekeko, o deus andino da abundância, devolvido em novembro depois de mais de 100 anos na Suíça.

O chefe de Estado pediu a devolução dos bens e disse que assumiu a tarefa de repatriar e recuperar o patrimônio que está fora do país “Milhares e milhares de nossos bens e de nossos patrimônios foram levados de Bolívia. Começamos a fazer com que voltem, pedimos aos governos às instituições”, concluiu.

Fontes: ABI, La Jornada e Somos Sur