Um ataque terrorista fascista veio destacar a crescente ameaça da extrema direita em Itália no período que conduz às eleições de 4 de março.
Por Richard Brodie, em revista Jacobin

 

Um mês antes da Itália ir às urnas, explodiu o conflito sobre a imigração e o futuro das comunidades migrantes. A questão europeia desapareceu. Por momentos, as discussões em torno do rendimento básico incondicional e de outras formas de alívio da pobreza entraram em cena. Mas também estas desapareceram rapidamente na sequência do ataque na manhã do sábado, 3 de fevereiro, quando um fascista disparou contra oito pessoas da África Ocidental nas ruas em Macerata.

Deparados com a emigração em massa de jovens e uma estagnação econômica aparentemente sem saída, há anos que praticamente todos os partidos têm usado os imigrantes como bodes expiatórios. Os tempos de louvor aos resgates de migrantes no mar e à natureza acolhedora dos italianos comuns fazem parte do passado. Ao longo de dois anos, os partidos da oposição e o governo viraram à direita, o primeiro através do aumento da retórica racista e xenófoba e o último por via da criminalização da solidariedade e encerramento quase total da rota do Mediterrâneo, condenando efetivamente centenas de milhares de pessoas ao inferno líbio.

No ataque de Macerata, todo o racismo promovido pela mídia e pela classe política para criar uma distração ideológica dos problemas da classe trabalhadora transformou-se num ato horrível de violência fascista, acelerando a tendência à medida que as eleições se aproximam: um comboio a alcançar o final da linha.

Uma manhã de sábado em Marche

Na manhã de sábado, pelo menos oito jovens da África Ocidental foram baleados nas ruas de Macerata, perto da costa leste do centro de Itália. O que mais sofreu ferimentos foi Mahamadou Touré, um homem de 28 anos do Mali, que permanece nos cuidados intensivos com danos no fígado. Um segundo homem, Festus Omagbon, da Nigéria, estava a comprar bens alimentares da África Ocidental com um amigo do Gana, ambos residentes num albergue de requerentes de asilo na cidade. Foram baleados nas costelas e no braço, respetivamente. Um jovem gambiano, Omar Fadera, recebeu um tiro de raspão.

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Jennifer Otiotio, também da Nigéria, foi a única mulher alvejada. Há apenas sete meses em Itália, reside num bairro de requerentes de asilo, trabalhando ocasionalmente como cabeleireira. Tem a mão esquerda fraturada. Estava à espera do ônibus com o seu companheiro, que a afastou da mira da arma quando ouviu os disparos. “A verdadeira ferida não é aquela que se consegue ver, não é a que está no meu corpo”, disse aos jornalistas. “Estou muito pior dentro do que pareço por fora. Eu nunca fiz nada de mal a ninguém, estava sorrindo e conversando com outras três pessoas. Agora sinto que não posso andar em paz “.

Gideon, um outro jovem nigeriano, estava andando de bicicleta e foi baleado no quadril. “Eu gritei e gritei antes de ir para o ponto de ônibus, antes de me virem buscar e terem levado para o hospital”, disse num vídeo do YouTube. Tendo chegado a Itália, vindo da Nigéria, há quatro anos, encontra-se agora sem direito a permanecer no país. Saiu do hospital rapidamente, com medo, devido à sua situação legal. Na verdade, estas são apenas as seis pessoas que se sabem ter sido alvejadas naquele sábado de manhã; há pelo menos outras duas pessoas que não foram à polícia ou ao hospital.

As vítimas formam inadvertidamente uma imagem da nova geração de migrantes em Itália, aquela que se encontra agora na mira política: Gideon, quem está há mais tempo no país, encontra-se agora sem documentos e sem albergue. E dos seis, apenas uma era mulher, refletindo a predominância de homens na mais recente onda de migração em Itália. Além disso, duas pessoas foram alvejadas, mas não apresentaram queixa: e esse é talvez o fato mais significativo que o atacante fascista conseguiu trazer à luz; que, mesmo diante do perigo mais terrível, as pessoas continuam a manter-se invisíveis para proteger a sua possibilidade de permanecer na Europa, condição para a hiper exploração que, como veremos, marca todo o processo de divisão na classe trabalhadora em Itália.

Estes jovens da África Ocidental foram todos atingidos por Luca Traini, um skinhead com uma cópia do livro Mein Kampf no quarto e que foi candidato nas eleições locais do ano passado pelo partido de direita Liga do Norte (não recebeu votos). Depois dos disparos, parou junto do memorial fascista da guerra da cidade, colocou uma bandeira italiana à volta do pescoço, fez a saudação fascista e gritou “Viva l’Italia”.

Traini, desempregado e a viver com a avó, pareceu interessar-se por ideias fascistas há cerca de três anos, na altura em que comprou uma Glock 0.9 com uma licença de arma esportiva. O seu instrutor do colégio afirma que, nos últimos anos, ele esteve próximo não apenas da Liga do Norte, mas também de organizações explicitamente fascistas como a Forza Nuova e a Casa Pound. Foi expulso do ginásio em outubro, depois de fazer piadas racistas e saudações fascistas. Tem um símbolo fascista tatuado na cabeça.

Apesar de tudo isto, a maioria dos jornalistas e políticos italianos têm-se mostrado relutantes em chamá-lo de fascista, com a Repubblica, o Corriere della Sera e a RAI a optar, ao invés, por “racista”, “louco” e “lobo solitário”, seguindo os rituais estabelecidos através dos quais os Estados europeus e os EUA protegem as organizações de supremacia branca do escrutínio público. Ele explicou a sua motivação de “querer disparar nos negros que vendem drogas”.

Femicídio e a viragem racista

Antes de parar junto do memorial de guerra fascista, Traini dirigiu-se brevemente ao local onde dois sacos tinham sido encontrados três dias antes. No interior estavam os restos mortais de uma jovem italiana, Pamela Mastropietro. Foram os eventos relacionados com a sua morte que motivaram Traini a cometer as tentativas de assassinato.

Pamela, originalmente de Roma, mudou-se em outubro para Macerata, para um centro de reabilitação de toxicodependentes. Desapareceu do centro a 30 de janeiro. Conheceu um homem italiano que a buscou no centro de reabilitação e, aparentemente, lhe pagou-lhe 50€ em troca de sexo. Posteriormente, foi comprar uma seringa em uma farmácia e, então, aparentemente, foi ao apartamento de um homem nigeriano, Innyent Oseghale. Sabe-se agora que morreu de uma overdose. Seu corpo foi depois cortado e escondido. Oseghale permanece preso e é acusado de ocultação de provas e profanação de um cadáver humano, embora não de homicídio. Traini disse que inicialmente pensou em deslocar-se ao tribunal para atacar Oseghale.

Os pais de Pamela deixaram claro que não querem colaborar na instrumentalização da morte da sua filha feita pela direita:

“Só queremos justiça. Uma pena exemplar para o homem que assassinou e cortou o corpo da nossa filha. Mas condenamos fortemente o ataque. Não somos racistas e a Pamela, se estivesse viva, estaria horrorizada com este ato terrível… Somos boas pessoas. É possível acolher bem os migrantes e em 4 de março todos podem ir às urnas sabendo como votar.”

Essas talvez tenham sido as palavras mais progressivas a alcançar os media tradicionais nos últimos dias. De fato, o efeito do ataque não foi uma polarização de pontos de vista, mas uma viragem repentina à direita. Mesmo enquanto Touré e Otiotio continuam gravemente feridos no hospital, a Forza Nuova, uma frente eleitoral neofascista, expressou a sua solidariedade com o atirador. Esta foi uma manobra imprevisível e arriscada que desencadeou uma cadeia de reações políticas. No dia seguinte, todos os partidos centristas e de direita deram um passo à direita nas suas declarações.

Matteo Salvini, da Liga do Norte, de direita, cujo partido tem desempenhado um papel central no agravamento do racismo na Itália há quase duas décadas (passando do ódio aos italianos do sul para os muçulmanos e para os negros), teve uma posição privilegiada nos media, culpando pelos ataques “aqueles que estão enchendo o nosso país” e afirmando que “é claro que a imigração descontrolada, uma invasão organizada e financiada como a que vimos nos últimos anos, conduz a conflitos sociais”.

Mas desta vez não foi apenas a Liga do Norte que falou sobre deportações e segurança: Matteo Renzi, o líder do Partido Democrata, ostensivamente do centro-esquerda, e ex-primeiro-ministro, declarou que “a Itália e os italianos devem ser defendidos pela polícia, não por homens armados”, prometendo mais dez mil polícias nas ruas. Sugeriu que, de certa maneira, Luca Traini estava defendendo os italianos. O ministro do Interior, Marco Minniti, diz que seu plano para fechar a rota do Mediterrâneo foi feito para evitar este tipo de ataques. O ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi fez uma promessa de deportar 600 mil pessoas caso voltasse ao poder, descrevendo a migração como uma “bomba social”.

Isso deve ser reiterado: estas são as reações a um ataque armado fascista contra pessoas negras. Em Roma, um grupo de ultras (hooligans de extrema-direita) exibiu uma faixa em solidariedade com o atirador fascista.

Os apelos por polícias nas ruas e migrantes postos em aviões para África (já uma ocorrência semanal) são apoiados através de uma instrumentalização conservadora de um feminismo fraco, tão misógino no seu cavalheirismo como violento no seu racismo. Apesar das muitas vítimas dos últimos dias, a figura a ser protegida após os acontecimentos da última semana continua a ser a da mulher branca, e não as pessoas negras, homens e mulheres. Os pedidos de “justiça para a Pamela” refletem-se no arrependimento que o próprio Traini expressou por ter atirado em Jennifer, a única mulher vítima da sua raiva racista.

No contexto da misoginia violenta de Itália, isso é mais que a reabilitação de uma velha bandeira racista e fascista; equivale a uma tentativa de neutralizar os movimentos progressistas e esquerdistas ao reivindicar uma política que possa enfrentar a crescente taxa de violência contra as mulheres. Tal como a rede feminista de esquerda NON UNA DI MENO afirmou numa declaração de solidariedade com as vítimas do ataque de sábado: “O feminicidio de Pamela M. vem juntar-se àqueles cometidos nas mãos de namorados, maridos e ex parceiros, a maioria dos quais ocorrem dentro de um círculo próximo de amigos e familiares. Esta é simplesmente a ponta do icebergue de um fenômeno geral: a violência masculina contra as mulheres”.

Uma maré fascista na costa oriental de Itália

Existem 400 requerentes de asilo nos albergues de Macerata. Este valor é quatro vezes superior ao número recomendado pela associação de autarcas italianos em relação à população da cidade de 40 mil pessoas. Este número aparentemente alto de requerentes de asilo, embora extremamente baixo em termos reais, provocou ainda assim reações da extrema direita na área nos últimos meses.

Sem dúvida que, para resolver esse desequilíbrio, a autarquia local deu permissão a uma cooperativa privada para abrir um albergue de emergência para requerentes de asilo na cidade vizinha de Spinetoli. No entanto, o autarca do Partido Democrata da cidade organizou uma manifestação contra a abertura do centro, criando uma aliança improvável e perturbadora com a Casa Pound, um grupo fascista extraparlamentar. Na véspera de Ano Novo, o prédio proposto para sediar os quarenta requerentes de asilo foi incendiado num ato criminoso.

As palavras dos conselheiros de direita do autarca de Macerata expressam a confusão, por vezes acidental, por vezes propositada, entre a mera existência de não nacionais em Itália e o sistema de recebimento financiado pelo Estado para requerentes de asilo recém-chegados: “Suspenda o sistema de recepção na cidade. Todos vemos que não está funcionando. Não sabemos quem temos aqui em Macerata, não sabemos quem está dormindo nas tendas e sob os arcos. . . . Chega disto tudo, tire os imigrantes irregulares da nossa cidade”.

Na realidade, menos de 5% da população migrante da Itália está no sistema de acolhimento. Mas isso não é o que está realmente em jogo: o debate sobre a migração é, na verdade, um debate sobre a cor da pele. Por enquanto, há poucas conversas sobre a grande onda de migração da Europa Oriental no início da década de 1990, na qual Macerata – que se encontra na costa leste da Itália – foi testemunha em primeira mão. Embora a violência contra os norte-africanos, que compõem as comunidades históricas não-europeias da Itália continue, estes já não representam o alvo exclusivo da vilificação praticada pela direita. Na verdade, o grande “outro” da Itália é agora o homem negro.

E, mais uma vez, é na região de Marche que isso é demonstrado. No verão de 2016, Emmanuel Chidi Nnamdi, um refugiado nigeriano, foi morto em Fermo, outra cidade costeira da região, a meio caminho entre Spinetoli e Macerata. Foi assassinado na rua por um ultra do futebol, Amadeo Mancini, depois deste último ter começado uma discussão ao chamá-lo de “macaco africano”. O assassino recebeu amplo apoio dos Fermo Ultras. Mais tarde, um juiz decidiu que Nnamdi havia infligido o primeiro golpe e Mancini foi solto em maio do ano passado.

De acordo com a ANPI e outras associações antifascistas, os grupos fascistas formais estão em ascensão em toda a Itália, especialmente nas regiões centro-norte. O quase massacre daquele sábado parece inserir-se neste padrão de eventos.

Racialização da luta de classes

No entanto, não é isto que representa a real ameaça para a sociedade italiana: o fascismo na Itália representa o epifenómeno do sentimento popular, o momento organizacional do que é realmente um movimento social. Pois a luta racial na Itália é, no fundo, uma situação particular de uma luta de classes mundial a ser jogada numa península europeia, nas ilhas mais próximas do Equador do que Tunis.

Os elementos centrais desta luta são o sistema de acolhimento e os campos de trabalho. O sistema de acolhimento italiano difere dos de muitos países, já que quase todo o apoio aos requerentes de asilo (e isso significa que 90% dos que chegam por mar) é canalizado através de centros público-privados. Estes variam de pequenos albergues onde habitam quinze ou vinte pessoas, a acampamentos e ex-quartéis do Exército que alojam vários milhares no meio do nada. A maioria são ex-hotéis e antigos lares de idosos nas zonas mais distantes de pequenas cidades e onde habitam entre cinquenta a cem pessoas.

Apesar dos esforços em contrário do governo, os conselhos municipais recusam-se a abrir albergues pequenos e mais integrados e, em vez disso, acabam por ter a autarquia (essencialmente a polícia municipal) a impor centros de maiores dimensões. O resultado é um aumento exponencial de um sistema de emergência que gera lucros às empresas privadas, mas que faz muito pouco para ajudar os requerentes de asilo a obter emprego ou até mesmo a aprender o italiano mais rudimentar. Mas também ajuda a reforçar a divisão racial na classe trabalhadora, mantendo uma forte separação entre negros e brancos, sendo que os primeiros ficam escondidos nos albergues (sem os quais não têm apoio estatal) e os últimos estão presos numa espiral de desemprego e de serviços estatais reduzidos.

O sistema italiano de acolhimento consegue assim repetir a formação da raça numa base diária e, de forma espetacular, na medida em que o desvio dos requerentes de asilo para albergues e acampamentos também fornece uma imagem de divisão racial que vai além dos próprios requerentes: os italianos vêem cada vez mais a imigração como sinônimo de homens negros em albergues de gestão estatal, e não como homens, mulheres e crianças que fazem viagens perigosas à procura de uma vida melhor.

De Veneza à Sicília, os protestos dos requerentes de asilo contra as condições e o isolamento dos albergues são eventos diários. A violência causada por, e usada para impor, estas divisões não é simplesmente metafórica: podemos apontar para a morte de Sandrine Bakayoko, uma jovem mulher da Costa do Marfim, que morreu no antigo e isolado quartel do Exército, em Conetta, enquanto aguardava uma ambulância no início do ano passado, ou Bobb Alagie, um jovem gambiano alvejado na boca pelo gerente de seu albergue perto de Nápoles, há alguns meses (sobreviveu, mas agora está literalmente sem voz).

Apesar da consistência dos protestos dos requerente de asilo, a esquerda italiana, na maior parte, não vem em sua defesa. Diante do crescente sentimento de direita que rejeita a ideia de apoio estatal a pessoas negras, a esquerda foi forçada a dar um passo atrás, tendo de defender a mera ideia de imigração. O espaço político para criticar o negócio corrupto da acomodação dos requerentes de asilo está a ser tomado pela direita — como se pode ver na reação a Macerata, com um jornal de direita publicando na capa “Mina de Ouro de Refugiados de Macerata”, criticando a cooperativa que administra o albergue onde o suposto homicida de Pamela esteve hospedado. Isto acontece apesar de muitos dos centros serem geridos com fins lucrativos não só pela máfia, mas também pelos próprios políticos de centro-direita.

Os campos de trabalho fornecem a mesma divisão, mas para os negros que estão fora do sistema de acolhimento. Se muitos setores da economia italiana dependem da mão de obra migrante (incluindo indústria, construção, serviços e logística), o setor agrário depende inteiramente destes. Os lucros derivam da hiper exploração no campo, em que os trabalhadores negros, árabes e asiáticos vivem em cidades de tendas que lembram as hoovervilles e bairros de barracas.

O sistema, mais uma vez, conduz e é imposto pela violência: há apenas três semanas, Becky Moses, um jovem nigeriano requerente de asilo, foi morto durante o incêndio que varreu o acampamento em Rosarno, onde mais de mil pessoas perderam suas casas temporárias e todos os seus pertences. Estas são as pessoas invisíveis que, apesar de serem alvejadas naquele sábado, nunca foram à polícia. Os hiper-explorados.

A situação de muitas mulheres negras em Itália é ainda mais marcada pela violência e pela exploração. A indústria do sexo no país tem ainda menos proteção sindical ou direitos laborais do que o setor agrícola; embora nem sempre seja o caso, é extremamente frequente que as mulheres negras estejam presas no setor através de uma espiral de dívidas combinada com redes internacionais de violência masculina.

O proletariado negro de Itália é explorado em todos os setores, desde o negócio do “humanitarismo” e das colheitas de azeitona, ao comércio sexual e aos cartéis de droga. Na própria província de Marchese, o cada vez maior comércio de heroína que vem do Paquistão através dos Balcãs, que  reivindicou finalmente a vida de Pamela Mastropietro (e tem reivindicado muitas outras nos últimos anos), depende do trabalho violento de jovens nigerianos como Innocent Oseghale – mas para o lucro de chefes da máfia como Andrea Reccia, que foi candidato no partido de Berlusconi.

“A verdadeira ferida não é aquela que se consegue ver”

A violência a que os migrantes são agora sujeitos em Itália estende-se das cidades ao campo, de homens a mulheres, asiáticos e africanos. Não se limita aos atos de fascistas tatuados que atacam nas ruas, mas faz parte de um amplo sistema de exploração e racialização que se desenrola diariamente em todo o país. E, para reiterar, esta não é uma violência metafórica: é organizada e armada, e é protegida diretamente pelas instituições, como é o caso dos assassinos que andam à solta, ou indiretamente por negligência deliberada, como é o caso dos campos de trabalho e dos albergues.

Nos primeiros anos após a queda de Muammar Gaddafi e a reabertura da rota da Líbia, a esquerda conseguiu criar uma narrativa de Itália como país-herói marítimo que, num ato de solidariedade internacional e cristã, resgata os migrantes no mar. Em 2013, a missão Mare Nostrum foi a gloriosa versão estatal dos heróicos pescadores de Lampedusa. Mas a crise da fronteira europeia de 2015 e o subsequente sistema Hotspot (aplicando o acordo de Dublin) eliminaram a pressão dos migrantes recém-chegados que podiam reivindicar asilo noutros países. E deixou claro que a tolerância de Itália foi construída sobre bases frágeis.

O único político da oposição que visitou os feridos no hospital foi o secretário geral do Partido da Refundação Comunista, candidato na lista de esquerda Potere al Popolo. Mas, nesta fase, a esquerda tem quase tão pouca voz como Bobb Alagie: alvejado na boca pela máfia, pelo fascismo e os anos de retórica racista e políticas estatais às quais mal se conseguiu opor, muito menos evitar.

Assim, o que o tiroteio de Macerata mostrou não é apenas que o fascismo organizado e armado ainda é possível em Itália. Esta é uma verdade perturbadora, mas talvez não chocante. Muitos afirmam que o fascismo nunca morreu na Itália e a história violenta dos movimentos armados no final da década de 1970 e no início dos anos 1980 mostrou um fio preto, a par com um vermelho. Muito mais do que isso, é a reação ao tiroteio — de políticos, meios de comunicação social e público italiano — que revelou algo muito pior: a xenofobia italiana atingiu tanta intensidade nos últimos anos que as ações de um fascista, num país que tem a proibição do fascismo inscrita na Constituição, podem ser desculpadas, desde que os alvos sejam negros.

Quem vencer as eleições em 4 de março terá de combater ou seguir a onda da nova tempestade racista em Itália. Se quisermos vencer as forças do racismo e do fascismo, os progressistas europeus devem mostrar solidariedade com a classe trabalhadora internacional na sua batalha diária nos campos de trabalho e albergues italianos, pela liberdade de movimento e por um futuro livre de exploração.

Tradução: Érica Almeida Postiço