pablopiacentini0603Em homenagem ao jornalista Pablo Piacentini, que morreu em Roma em 1o de março, publicamos trechos de algumas das inúmeras mensagens que nos chegaram e que comprovam a importância de sua trajetória profissional que deixa um legado de profundo significado histórico e moral para os profissionais da comunicação e do jornalismo. Para Diálogos do Sul isso tem um significado especial posto que somos herdeiros diretos de Cadernos do Terceiro Mundo, seguindo as mesmas trilhas, os mesmos princípios, a mesma ética (Paulo Cannabrava).

Fala Beatriz Bissio

(Em resposta a Roberto Savio) Chorei muito com a morte de Pablo… amigo fraterno, companheiro de lutas e de ideais, de sonhos, tristezas e alegrias.

Constatei que sou a única “sobrevivente” do pequenino grupo de sonhadores que fundou Cadernos do Terceiro Mundo, em 1974, em Buenos Aires… Já antes tinham partido Julia (Chiquita) Constenla e Neiva Moreira. Agora o Pablo!

Obrigada por teu belo texto, Roberto Savio. Nos brinda preciosos detalhes, que eu desconhecia, da fundação da IPS… (leio o texto logo abaixo)

Exatamente esse Pablo que descreves é o que se juntou ao sonho de Neiva de lançar uma revista que dera voz aos que soem não tê-la, aos povos que lutam, às minorias… Juntos transformaram o sonho em realidade, com amigos e colaboradores que foram se aglutinando desde tantas diferentes latitudes.

Não deu tempo para eu contar ao Pablo que estamos iniciando –com colegas e amigos de três universidades públicas do Rio de Janeiro e muito esforço- a digitalização de Cadernos do Terceiro Mundo, um projeto pelo qual venho lutando desde que tivemos que fechar a editora, em 2005. Quando conseguirmos lançar o portal web em que planejamos dispor todo o material, sem dúvida prestarmos uma homenagem a Pablo, bem como a Julia e a Neiva.

Essa pequena vitória, a digitalização da revista para colocar todo esse acervo online, me motivou (como também o fizeram meus alunos), a escrever uma reflexão sobre a experiência de Cadernos do Terceiro Mundo. Desejo fazê-lo colocando essa experiência no contexto da luta mais ampla, por uma comunicação comprometida com as grandes causas, recuperando as propostas da Comissão MacBride e os debates pioneiros no Movimento de Países Não Alinhados, quando surge a bandeira pela Nova Ordem Informativa Internacional.

Espero começar logo esse projeto. Se efetivamente consigo desenvolvê-lo, gostaria de ter a oportunidade de ter a oportunidade de ver o aprofundamento de tuas reflexões sobre as origens e atuação da IPS.

Fala Roberto Savio

Com a discrição e a tranquilidade que o acompanharam toda a vida, Pablo nos deixou em seu sonhos. Os efeitos colaterais dos tratamentos contra um tumor tinham reduzido bastante suas capacidades. Foi sumamente triste para sua família e seus amigos ver um intelectual pleno de curiosidades e de iniciativa ir se retirando progressivamente de si mesmo.

Deve-se a Pablo, em boa medida, a criação da Roman Press Service, em 1961, da qual nasce Inter Press Service –IPS- em 1964. Nessa época eu colaborava com “Il Popolo””, de certa forma o jornal do governo da Itália. Tinha acompanhado em 1960 o Congresso do Partido Comunista da República Democrática Alemã, no qual os participantes vaiaram o delegado chinês, abrindo assim, publicamente, o confronto entre Moscou e Beijing. Nikita Kruschev não aceitou conceder-me uma entrevista sobre o futuro desse confronto. Convenci a Il Popolo a me comprar uma série de artigos sobre os mais importantes partidos comunistas da África, Ásia e América Latina, para ver para onde ia a Internacional comunista.

Durante minha viagem para escrever-lhes, me dei conta de que a divisão entre a URSS e a República da China era parte de algo mais estrutural: a divisão entre países industrializados e os que estavam ainda em numa fase agrícola. Ou seja, a divisão Norte-Sul

Esses temas eram completamente desconhecidos no debate político e com contados especialistas que escreviam ensaios para si mesmos. Conclui meu trabalho com um chamado para que se criasse uma agência de notícia, que reduzisse a brecha Norte-Sul e formasse consciência de que o mundo estava mudando. Eu tinha um apartamento de solteiro no centro da velha Roma, porque meus artigos, numa família de músicos, eram considerados exotéricos e utilizados como papel. Neste apartamento, um dia soou a campainha e entrou um jovem argentino, magro e bem posto, que estava estudando um mestrado de ciência política na Itália, Pablo Piacentini. Me disse que tinha lido meu chamado para fazer uma agência informativa dedicada a reduzir a brecha informativa, que tinha vindo para começar o trabalho. Percorreu a casa, descobriu que tinha dois quartos de hóspedes, e me diz que um era mais que suficiente e que esvaziasse o outro que iria ser a sede da nova agência. Todas minhas observações sobre que não era possível criar uma agência sem capitais foram consideradas um reflexo burocrático. “Vamos criar a  agência, quando tivermos papel timbrado vai ser muito mais fácil conseguir dinheiro…”. Este desafio me acompanhou as quatro décadas em que fui diretor geral de IPS…

Pablo integrava uma associação de estudantes latino-americanos. Ele designou os correspondentes em cada país da América Latina. Passava seus dias editando o material que chegava, com grande dificuldade. A agência deveria ter um jornalista italiano colegiado como diretor, assim, encontrei-me cavalgando um tigre, do qual já não podia desmontar. Quando em fevereiro de 1964 transformamos esta pequena empresa numa cooperativa internacional de jornalistas, Pablo assumiu o posto de diretor para América Latina e me deixou cavalgando o tigre…

Com a mudança da central regional para Santiago do Chile, Pablo desempenhou um papel importante na América Latina. Criou entre outras iniciativas, os Cadernos do Terceiro Mundo, que foi uma referência sem rivais no debate sobre as relações internacionais. Foi com os Cadernos que se formou uma geração de jovens profissionais e intelectuais nos anos 1970. E Pablo se transformou num ponto de referência para duas gerações.

O segredo do êxito de Pablo não era só seu trabalho intelectual. Era seu caráter e sua personalidade, que conquistavam a todos, a tal ponto que não lembro de um só inimigo de Pablo. Sempre foi um homem de extraordinária lealdade, às vezes explorada e sem resistência dele. Quando eu saí de IPS, sua figura e sua história eram elementos que davam uma extraordinária legitimidade, e ele se considerava a serviço da instituição. Nunca reclamou por cargos e sempre aceitou desempenhar um papel humilde e de modesto nível econômico.

Pablo foi um cavalheiro de outra época, sempre generoso e à disposição dos demais, com sua sutil ironia, seu humor positivo, com uma grande capacidade de trabalho. Com eles para mim desaparece não só um dos mais antigos amigos, mas muito mais: uma capacidade de ideal e de compromisso, hoje em via de extinção. Uma voz da “inteligência” latino-americana, respeitada por todos. De alguma maneira me alegro que tenha ido antes de que o fenômeno Trump e seus aliados sigam destruindo os ideais de cooperação internacional, de respeito ao homem, e de ver a paz e o direito internacional como as bases das relações internacionais. Pablo lutou toda sua vida por um mundo melhor fundado nesses valores. O vejo ir como um fidalgo montado num cavalo branco, e que guarda intacto seu otimismo, sua generosidade, sua fé no ser humano, enquanto sombras e personagens inaceitáveis, para os valores de Pablo, estão conquistando cada vez mais poder. Descansa Pablo, porque o mundo que nos deixou têm ainda teus valores… e teus amigos continuaremos tua luta.

Fala Esteban Valenti

Compartilhei com Pablo Piacentini quase seis anos de minha vida e não só na atividade jornalística (1978 1984). Era uma época em que para alguns, a informação e a libertação eram parentes muito próximos. A grande contribuição de Pablo para muitos dos que chegávamos ao jornalismo profissional, foi a qualidade, o rigor sem perder o entusiasmo e os princípios.

Pablo foi um combatente diário, permanente, insistente e com uma permanente atualização da qualidade da redação, do uso do idioma e da referência às fontes de maneira precisa. Foi assim como chefe de redação, que era quando o conheci e depois nas diferentes funções na agência, mas que com sua atitude contribuiu não só para com a IPS mas também com a batalha conceitual, porém fundamentalmente prática e concreta, para uma informação comprometida, com valores e ideias que se diferenciam por sua qualidade, por seu profissionalismo.

Junto com o outro Pablo, o Giussani e Roberto Savio, foram os profissionais com os que mais aprendi em minha vida de jornalista e nunca poderei agradecer essa contribuição, não a minha profissão preferida que continuo exercendo, mas a minha vida. Não foi só uma lição sobre a profissão, foi muito mais, foi uma batalha pela qualidade, pela precisão; pelo rigor tínhamos que ser os melhores, os mais esforçados porque nos propúnhamos a mudar o mundo.

Sinto muito sua morte porque se soma a de tantos outros companheiros que foram parte de nossa melhor história, como jornalistas lutadores, mas sobretudo como seres humanos, neste mundo cada dia menos humano.

Fazia tempo que eu não falava com ele, mas estou convencido de que se tivéssemos nos encontrado numa esquina de Roma ou de América Latina, teríamos nos abraçado como sempre, com esses abraços que resumem muitas coisas compartilhadas.

Gostaria que fosse certa a frase Kapuscinski “As pessoas más não podem ser boas jornalistas”. Pablo a merece porque foi um grande jornalista e uma boa pessoa.

Fala Camilla Fedeli

Para Pablo, uma homenagem da geração seguinte…

Conheci Pablo em 1986 em Roma, quando para muitos já a parte aguda da luta política das décadas anteriores estava chegando ao fim, ou pelo menos, a salvo.

Apesar dos elevados custos pessoais e coletivos, brotavam as esperanças, se trabalhava com o entusiasmo dos sobreviventes.

Com 21 anos, romana e com um diploma de tradutora, cheguei a IPS para viver tudo isso, e sobretudo num ambiente de grande confiança nas possibilidades da comunicação como instrumento de democracia, de respeito, de construção, de integração, de crescimento.  Dois anos de minha vida na Colômbia, em minha adolescência, foram no mínimo substrato fértil para entender a abraçar o mundo em que eu estava me metendo. E esse cavaleiro andante, sempre amável e delicado, mas com uma dimensão intelectual e moral que nada tardei em compreender, me mostrou o que é a luta com as armas da palavra.

Muitos dos que trabalhamos na IPS com o exemplo de Pablo, de Savio e de muitos outros, aprendemos a acreditar que se pode contribuir para com a sociedade, inclusive com os meios mais limitados, valorizando o empoderamento, o esforço sem exibicionismo e sem desmerecer o esforço do outro. Embora hoje alguns de nós estamos dedicados a outras coisas, isso se converteu numa maneira de enfrentar a vida, a sociedade, o outro. Inclusive a nossos filhos tem isso em seu DNA: os 50 anos de IPS e de Pablo nela, “jornalistas que deram volta ao mundo” não passaram em vão por nossas famílias e nossas gerações.

Vejam o válido que é isto ainda hoje

http://www.ipsnoticias.net/2014/09/ips-y-su-medio-siglo-de-lucha-contra-el-subdesarrollo/

Fala Ricardo Grassi

Pablo, Pablito, PP, o Duque. Para mim era também um bispo jesuíta, na sua escrivaninha antiga, iluminando o que lia com uma única lâmpada no fundo da enorme sala da escura redação da IPS, na mítica sede da Via Panisperna. Meu mestre, amigo e companheiro. Olho e revejo a foto que nos mandou Sara, sua companheira de tantos anos, em que Pablo é muito o Pablo dos últimos anos: a ternura e delicadeza com que o tempo e Sara foram moldando sua expressão em outros tempos incisiva, um traço de ironia, e a serena solidez que soube fazer crescer nele e nos demais. Nos conhecemos em Santiago do Chile em setembro de 1973, quando pudemos entrar para cobrir aquela trágica enormidade. Ele já era uma estrela do jornalismo argentino, junto a outros como Luís Guagnini, José María Pasquini, Juan Gelman, el Perro Verbitsky, Pablo Giussani. Todos eles com diferentes origens mas nenhum gorila, era a geração dos maiores. Eu, um ainda demasiado jovem diretor do semanário El Descamisado, que tinha ingressado no Chile disfarçado de correspondente do jornal conservador La Capital, de Rosario. Além de realizar seu trabalho em silêncio nesses dias Pablo ajudava a companheiros chilenos que precisavam de refúgio a enganar os soldados que guarneciam a entrada das embaixadas.

Creio que nos voltamos a ver em Roma, em meados de 1977, ambos na mesma circunstância de exilados. Esta vez seu gesto solidário consistiu em dar-me uma oportunidade em IPS, encarregando-me, em novembro desse ano, de cobrir em Madrid a primeira reunião da Internacional Socialista a realizar-se na Espanha. Franco tinha morrido.

Continuou sendo meu chefe até que foi nomeado chefe de Redação em seu lugar, ele passou a ser diretor editorial, e como tal, continuou sendo a referência principal, tendo sempre que necessário a última palavra. Coincidíamos em que o jornalismo chamado de esquerda devia abandonar a retórica, adjetivos e editoriais para oferecer um serviço útil, que para ser útil precisava ser rico em informação e análises fundada em dados cuidadosamente apurados. Para conquistar credibilidade e autoridade deveríamos ser ourives.

Suas novas funções o liberou da carga cotidiana e suas correrias, dando-lhe tempo necessário para olhar e construir pra frente. Creio que Pablo foi magistral em construir uma rigorosa disciplina que permitiu reger seu tempo. O resultado foi um conhecimento assombroso que emergia numa voz firme contra bobagens e superficialidades. Ao mesmo tempo reagia com gosto quando lhe interrompiam e logo continuava apurando textos sem pressa. Tudo isso chegou a seu apogeu na última de suas criações importantes: o Serviço de Colunistas da IPS. Além de ter organizado e apelado a soluções brilhantes para conseguir, Pablo editava-cinzelava pessoalmente cada uma das colunas, que resultavam impecáveis. Uma paciência indomável com que destacava a relevância essencial do rigor.

Fala Fernando Reyes Matta

Querido Roberto (Savio), querida Beatriz (Bissio), queridos todos.

Ocorre quando se vai  um grande amigo guardado no coração e fica a lembrança de muitos encontros e abraços. E aqui estamos, vendo que os anos mais que nada significam sonhos. Pelo contrário, aí vamos com eles porque cada tanto da vida que passamos juntos, nos levou a essa dança que alguns chamam utopias e nós chamamos verdadeira maneira de viver. Tudo isto hoje devemos a Pablo. Então lembro dele em Santiago, lembro dele lá em Roma onde aprendi a saber como é possível alguém falar horas e horas sobre nossa história latino-americana, noite adentro. Fulcro nos textos e na edição, que não é pouco, exigente nos enfoques temáticos para mostrar o outro.

E se vejo a ele, também assomam, querida Beatriz, as lembranças de México e também do Rio de Janeiro, em que você e Neiva não soltava as rédeas dessas páginas que agora anuncia que serão resgatadas no portal digital. Oxalá seja assim porque elas falam de uma época magnífica, em que talvez caminhamos fora da realidade, mas nunca fora da honestidade para com os valores assumidos. Um abraço grande a todos em homenagem a Pablo, uma lembrança com muita emoção.