Desde o anúncio da sua eleição surpresa e antes mesmo que ele tivesse acesso à Casa Branca, a imensa maioria dos veículos de comunicação dos EUA e da Aliança Atlântica [OTAN] denunciavam o presidente Donald Trump como incapaz, ou mesmo mentalmente perturbado. Desencadeou-se assim uma batalha entre a classe midiática e o novo presidente, cada um deles acusando a outra parte de propagar falsas notícias, as fake news.

Por Thierry Meyssan, na Rede Voltaire

Os dirigentes políticos dos países da OTAN (Organização do Tratado Atlântico Norte) — e unicamente nestes países — denunciam as fake news. Com isso, dizem destacar a suposta influência da propaganda russa no seio das “democracias ocidentais”. O Estado mais atingido por esta campanha é a França, cujo presidente, Emmanuel Macron, anunciou a elaboração de uma lei específica para lutar contra este “ataque à democracia”… mas unicamente “em período eleitoral”.

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O fato de que a expressão inglesa “fake news” seja conservada como tal em todas as línguas dos países da OTAN, quando ela designa um fenômeno tão velho como o mundo, as falsas notícias, atesta a origem anglo-saxônica dessa problemática.

Na origem da campanha contra os “fake news”: a OTAN

Repórteres com vários veículos de Fake News - de 1894 | Ilustração de Frederick Burr Opper
Repórteres com vários veículos de Fake News – de 1894 | Ilustração de Frederick Burr Opper

Em 2009, o presidente Obama anunciou na cúpula da OTAN de Strasbourg-Kehl a sua intenção de criar um serviço de “Comunicação estratégica” da Aliança1. Foram necessários seis anos para o colocar em ação através da 77th Brigade (Brigada 77) do Exército de Terra britânico e da 361st Civil Affairs Brigade [“361ª Brigada de Assuntos Civis” – ndT] do exército de Terra estadunidense (com bases na Alemanha e na Itália).

A missão original era combater as declarações acusando o “Estado profundo” dos EUA de ter organizado os atentados do 11 de setembro de 2001, depois aqueles que acusavam os Anglo-Saxões de ter planejado as “Primaveras Árabes” e a guerra contra a Síria; ditos qualificados de “conspiracionistas”. No entanto, rapidamente as coisas evoluíram no sentido de convencer as populações dos países da Aliança de que a Rússia prossegue com a propaganda do tempo da União Soviética —e, portanto, que a OTAN ainda é necessária— .

Finalmente, em Abril de 2015, a União Europeia dotou-se de um “Força-Tarefa de Comunicações Estratégicas para o Leste” (East StratCom Task Force). Ele envia, todas as semanas, a milhares de jornalistas um resumo sobre a propaganda russa. Por exemplo, a sua última edição (datada de 11 de janeiro de 2018) acusa a agência Sputnik de ter difundido que o zoo de Copenhague alimenta os seus animais selvagens com animais de estimação abandonados — “Fogo”, as “democracias” estão ameaçadas! Como é evidente parece difícil para esses especialistas encontrar exemplos significativos de ingerência russa. Em Agosto do mesmo ano, a OTAN inaugurou o seu “Centro de Comunicação Estratégica” em Riga (Letônia). No ano seguinte, o Departamento de Estado dos EUA dotou-se, por seu lado, com um “Centro Global de Atuação” (Global Engagement Center), que persegue os mesmos objectivos.

Como o Facebook, o brinquedo favorito de Hillary Clinton, se voltou contra ela

Em 2009, a Secretária de Estado Hillary Clinton, sob influência de Jared Cohen (responsável do Gabinete de Planeamento Político), convenceu-se de que era possível derrubar a República Islâmica do Irã manipulando as redes sociais. Esta teoria não teve o efeito desejado. No entanto, dois anos mais tarde, em 2011, o mesmo Jared Cohen tornado chefe da Google Ideas conseguiu mobilizar a juventude cairota. Muito embora a “revolução” da Praça Tahrir não tenha influenciado a opinião do povo egípcio, o mito da extensão do estilo de vida estadunidense pelo Facebook tinha nascido. Na ressaca, o Departamento de Estado patrocinou uma quantidade de associações e de convenções para promover o Facebook.

Foto: Lawrence Jackson/ Casa Branca
Foto: Lawrence Jackson/ Casa Branca

No entanto, as eleições presidenciais dos EUA de 2016 foram uma surpresa. Um estranho, o promotor imobiliário Donald Trump, eliminou todos os seus rivais, um por um, incluindo Hillary Clinton, e foi eleito para a Casa Branca enquanto utilizava os resultados do Facebook. Pela primeira vez, o sonho da profetisa dos políticos profissionais tornou-se realidade, mas contra ela. Do dia para a noite, o Facebook passou a ser demonizado pela imprensa dominante.

Se revelou então que é possível criar movimentos de massas artificialmente com as redes sociais, mediante manipulação, mas que após alguns dias os usuários reencontram o bom senso. Esta é a constante de todos os sistemas de manipulação de informação: seus efeitos são efémeros. A única forma de mentira que permite criar comportamentos de longo prazo é a que implica ter levado os cidadãos a um compromisso menor, ou seja, fazer proselitismo2.

Aliás, o Facebook entendeu isso perfeitamente bem porque criou o seu próprio “Gabinete da Política Mundial e da Sensibilização de Governos” e o confiou a Katie Harbath. Facebook pretende criar campanhas de emoções coletivas em favor de tal e tal cliente, mas não busca montar campanhas duradouras3.

É também por isso que o presidente francês Macron quer impor leis sobre as redes sociais unicamente para os períodos eleitorais. Ele próprio foi eleito graças ao breve escândalo criado, conjuntamente, por um semanário e pelo Facebook contra o seu rival François Fillon; operação orquestrada por Jean-Pierre Jouyet4. Além disso, o receio de Emmanuel Macron que da próxima vez as redes sociais sejam utilizadas contra ele coincide com a vontade da OTAN em mostrar a continuidade da URSS-Rússia em matéria de propaganda. Assim, ele cita como exemplo de manipulação uma entrevista da Sputnik sobre a sua vida privada e o fato de esse veículo ter difundido uma alegação sobre uma conta bancária dele no estrangeiro.

O relatório de Christopher Steele

Durante a pré-campanha presidencial dos EUA, a equipe de Hillary Clinton encomendou ao antigo agente dos serviços secretos britânicos Christopher Steele uma investigação sobre o candidato Donald Trump. Antigo chefe do “Departamento Rússia” do MI6, ele é conhecido por suas alegações escandalosas e sempre inverificáveis. Após ter acusado, sem prova, Vladimir Putin de ter comanditado o envenenamento de Alexander Litvinenko com polónio 210, ele acusou-o de ter feito Donald Trump cair numa armadilha sexual afim de o chantagear. O Dossiê Steele foi entregue discretamente a certos jornalistas, políticos e espiões antes de ser publicado5.

Daí a hipótese segundo a qual, buscando com que seu títere ganhasse as eleições e impedisse a eleição de Hillary Clinton, o mestre do Kremlin teria ordenado aos “seus” meios de comunicação a compra de espaço de publicidade no Facebook para espalhar calúnias contra a antiga Secretária de Estado, hipótese que seria, no momento, corroborada por uma conversa do embaixador australiano em Londres com um Conselheiro Donald Trump6. Pouco importa que a Russia Today e a Sputnik não tenham despendido, no total, mais que alguns poucos milhares de dólares em publicidade, que pouco tinha a ver com H.Clinton, a classe dirigente dos EUA está convencida de que isso bastou para inverter o entusiasmo favorável à candidata Democrata e à sua campanha de 1,2 bilhões de dólares. Em Washington, persiste-se na crença de que as invenções tecnológicas permitem tal nível de manipulação dos seres humanos.

Já não se trata mais de observar que se Donald Trump e os seus apoiadores fizeram campanha no Facebook foi porque toda a imprensa escrita e audiovisual era hostil a ele, mas, alegar que o Facebook foi manipulado pela Rússia para evitar a eleição da favorita de Washington.

O privilégio jurídico do Google, Facebook e Twitter

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Antigo colaborador de Condoleezza Rice, depois de Hillary Clinton e agora de Eric Schmidt, Jared Cohen partilha a filosofia científica dos dirigentes do Google (o transumanismo). Segundo ele, é possível derrubar governos usando, para isso, os bons algoritmos nas redes sociais

Buscando provar a ingerência de Moscou, a imprensa dos EUA sublinhou o privilégio exorbitante de que dispõem o Google, o Facebook e o Twitter: estas três companhias não são consideradas responsáveis pelos conteúdos que difundem. Do ponto de vista do Direito estadunidense, elas são unicamente “transportadoras” de informação (common carrier).

As experiências realizadas pelo Facebook demonstraram, por uma lado, que é possível criar emoções coletivas. Mas essa empresa não é considerada juridicamente responsável pelo conteúdo que veicula, contradição que coloca em evidência anomalia do sistema.

Especialmente porque os privilégios do Google, Facebook e Twitter são, obviamente, indevidos. Com efeito, estas três empresas atuam pelo menos de duas maneiras para modificar os conteúdos que “transportam”. Primeiro, elas censuram unilateralmente certas mensagens, seja por intervenção direta do seu pessoal, seja mecanicamente pelo uso dissimulado de algoritmos. Mas, além disso, elas promovem sua própria visão da verdade em detrimento dos demais outros pontos de vista (fact-checking).

Por exemplo, em 2012, o Catar encomendou à Google Ideas, já dirigida por Jared Cohen, a criação de um programa de informática capaz de acompanhar as deserções no Exército Árabe Sírio. O objetivo? Mostrar que a Síria era uma ditadura e que o povo havia iniciado uma revolução. Mas rapidamente demonstrou-se que esta visão das coisas era falsa. O número de soldados que desertaram jamais passou dos 25 mil em um exército de 450 mil homens. Foi por isso que, depois de ter feito a promoção deste “software”, o Google o retirou de cena discretamente.

Por outro lado, o Google vem promovendo, há sete anos, os artigos dos comunicados do “Observatório Sírio dos Direitos Humanos” (OSDH). Eles dão, dia após dia, a contagem exata do número de vítimas dos dois campos. Acontece que estes números são imaginários porque é impossível materialmente determinar essa cifra. Nunca se viu, em tempo de guerra, um Estado capaz de determinar cotidianamente o número de soldados mortos em combate e de vítimas civis. Mas o OSDH sabe, estando no Reino Unido, algo que ninguém é capaz de determinar com precisão na própria Síria.

Longe de serem apenas “transportadores” de informação, Google, Facebook e Twitter são fabricantes das mesmas e, portanto, deveriam ser responsáveis juridicamente por seus conteúdos.

1A campanha da Otan contra a liberdade de expressão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Dezembro de 2016.

2Sobre os métodos de propaganda, ler “As Técnicas da moderna propaganda militar”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Maio de 2016.

3« Comment une cellule secrète de Facebook manipule les opinions publiques » («Como uma célula secreta do Facebook manipula as opiniões públicas»-ndT), par Shelley Kasli, Traduction Jean-Marc Chicot, Great Game India (Inde) , Réseau Voltaire, 28 décembre 2017

4Personalidade central do corpo de Inspectores de Finanças, Jean-Pierre Jouyet foi advogado no muito “mitterrandiano” escritório Jeantet, Director-adjunto do gabinete de Lionel Jospin, Secretário de Estado dos Assunto Europeus sob Nicolas Sarkozy, Secretário-Geral do Eliseu sob François Hollande e mentor de Emmanuel Macron, que o nomeou de imediato embaixador da França em Londres

6How the Russia Inquiry Began: A Campaign Aide, Drinks and Talk of Political Dirt” («Como o Inquérito à Rússia Começou : Um Assistente de Campanha, Copos e Conversa sobre Porcaria Política»- ndT), Sharon LaFranière, Mark Mazzetti et Matt Apuzzo, New York Times, December 30, 2017.

(*) Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

(**) Tradução: Alva