As constantes crises que atualmente ocorrem na Guatemala trazem reminiscências de passadas ditaduras.

Carolina Vásquez Araya*

Guatemala1É muito lindo viver em democracia. Ter a suficiente liberdade de pensamento para opinar abertamente sobre qualquer coisa, desde uma banal piada até os temas profundos da sociedade; caminhar pelas ruas sem medo de sofrer uma morte não programada na agenda do dia e sobretudo aceitar com absoluta certeza a pertinência das leis que regem a comunidades, com a convicção de que foram ditadas por representantes íntegros. Algo assim seria o ideal democrático presente no imaginário coletivo desde aquele dia em que se liquidou com a última ditadura e se remeteu aos quartéis o último governante militar.

A realidade tem sido muito diferente. Romperam-se as correntes, mas sobretudo das gavetas por onde fluía a riqueza nacional e ficaram intactos os fios das estruturas de poder –invisível para a cidadania- cujos representantes continuam como se nada tivesse acontecido, dando as ordens correspondentes e recebendo os correspondentes privilégios. Enquanto isso, continuam sendo realizadas eleições e representando a farsa da democracia em cenários cada vez mais carcomidos e debilitados.

Como consequências de tais debilidades, ingredientes do sistema imposto pela maior potência mundial, foram grassando a corrupção, a miséria e a violência. As brechas burocráticas por onde escapam os valores institucionais próprios de uma democracia ativa e funcional, são enormes e tendem a alargar-se a cada quatro anos. Hoje os grandes pilares sobre os quais se sustenta todo o processo vacilam  em meio de uma absoluta ausência de autoridade. Dessa perspectiva e juntando decisões erráticas, ausência de políticas públicas, perseguição e eliminação de líderes comunitários, marginalização dos povos originários, abandono da infância e violações constantes das normas jurídicas sobre as quais se deve exercer o poder, a nação parece ter perdido o rumo e encontrar-se em franco retrocesso. Não obstante, em meio a essa perda de rumo também se produziu grandes avanços e é preciso reconhecê-los e aplaudi-los.

Na atualidade, por fim se menciona e se combate a violência contra as mulheres, tema oculto durante toda a história anterior do país. Se persegue a corrupção e as estruturas criminosas enquistadas no Estado estão encurraladas diante da ação da justiça. A cidadania começou a tomar consciência e gradualmente exerce seu poder cidadão, adormecido durante décadas por medo ou indiferença. Mas esse despertar não basta para mudar a polaridade das forças opostas à vida em democracia, porque mesmo quando em teoria se goza de liberdades civis, o grosso da população vive uma prisão real atrás de toda espécie de sistemas de proteção para não ser vítima da delinquência. A vida transcorre atrás das grades numa bolha a ponto de arrebentar, frágil como uma bolha de sabão e tão inútil como.

Uma análise do custo real da violência e da corrupção –sua promotora e cúmplice- chegaria a cifras grosseiras de prejuízos econômico e desprezo das oportunidades de desenvolvimento para o país. Só o contar o número de meninas, meninos e adolescentes privados de educação, alimentação e saúde, traduz uma desoladora perspectiva de perda da capacidade produtiva como consequência da desnutrição crônica e da marginalidade social, todo um panorama devastador para o futuro. Não sobra outra opção que a de sair da bolha para enfrentar a dura realidade.

O exercício do poder cidadão é um enorme desafio para uma sociedade acossada pela violência.

*Colaboradora de Diálogos do Sul, da Cidade da Guatemala