Diálogos do Sul traz os principais tópicos da tensão crescente entre os países que têm potencial de levar o mundo a um embate com armas extremamente letais.

Por Guilherme Perez e Luiz Otávio Freire (*), para o Diálogos do Sul

“A visão principal nos Estados Unidos é de que o próprio país e o resto do mundo não conseguirão fazer com que a Coreia do Norte desista de suas armas nucleares sem ir à guerra”. É o que diz Thomas Berger, especialista de política externa do Leste Asiático pela Universidade de Boston.

O professor, ao ser questionado se a postura dos presidentes pode causar uma guerra, diz que “os Estados Unidos e a Coreia do Norte estão envolvidos em uma situação perigosa”. Isso porque após chegada de Trump à presidência dos Estados Unidos, o conflito com a Coreia do Norte tem se tornado cada vez mais delicado.

Desde então, o presidente norte-coreano, Kim Jong-un, passou a intensificar sua demonstração de poder com testes bélicos, incluindo desenvolvimento de bombas atômicas e de Hidrogênio. Como resposta, o mandatário estadunidense deu um ultimato para que o líder norte-coreano encerre as atividades militares. O que parece estar longe de acontecer.

Mesmo diante deste cenário, o escritor estadunidense especialista em Coreia do Norte Bradley K. Martin entende que o presidente norte-coreano não irá atacar os Estados Unidos no momento. “Eu não penso que Kim imagina que está pronto para atacar os Estados Unidos. Isso só aconteceria se ele estivesse desesperado, prestes a ver seu regime acabar”, diz o autor.

A questão norte-coreana

Embora a tensão entre EUA e Coreia do Norte tenha se intensificado em 2017, as tentativas de ingerência do governo estadunidense sobre o Estado asiático ocorrem há bastante tempo.

Parada Militar em Pyongyang em 2015 | Foto: Wikicommons
Parada Militar em Pyongyang em 2015 | Foto: Wikicommons

Durante a Guerra Fria (1947–1991), a nação comunista da família Kim, no poder desde 1948, recebia grande aporte financeiro da União Soviética. Entretanto, com o fim da antiga potência socialista (1991), a Coreia do Norte passou a enfrentar grande crise econômica e teve de depender de seus rivais.

Em decorrência disso, os governantes do regime passaram a investir fortemente em poderio militar. Em 2006, foi realizado o primeiro teste nuclear bem-sucedido em território norte-coreano. A partir daí, o mundo ocidental tem observado com apreensão todas as ações realizadas na península coreana.

Estimativa do alcance máximo de ,mísseis norte-coreanos
Estimativa do alcance máximo de ,mísseis norte-coreanos

O Instituto Coreano de Análise de Defesa (KIDA) diz que entre 25% a 35% dos US$ 12 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) da Coreia do Norte foram na área militar. Não há dados oficiais sobre o tema. Por outro lado, dados de 2012 das Nações Unidas dão conta de que 30% das crianças norte-coreanas possuem desnutrição crônica, o que atrapalha o crescimento físico e intelectual. Além disso, 4% dessas crianças têm desnutrição aguda, casos em que o crescimento já é afetado e não há reversão.

O investimento militar é a resposta do regime às fortes sanções econômicas impostas ao país. Analistas internacionais, como Immanuel Wallerstein consideram que mais do que sustentar uma guerra nuclear com os Estados Unidos, o desejo de Kim é de que a potência econômico-militar se abstenha de intervir na política interna da Coreia do Norte, fazendo uma delimitação geopolítica da influência estadunidense.

Do lado “ocidental” do conflito, encontra-se o país que mais gasta com Exército no mundo, os Estados Unidos, com investimentos que ultrapassam US$ 610 bilhões, segundo dados do Instituto Internacional de pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI). O valor equivale a 3,5% do PIB estadunidense e a quase 40% de todo investimento militar mundial.

Envolvimento das potências mundiais:

China

Diante da delicada situação envolvendo a política interna da nação oriental, a China, o maior parceiro comercial da Coreia do Norte, não repreende as condutas tomadas por Kim, mesmo diante da pressão internacional.

Tal posicionamento, encontra respaldo em parte de sua população. “Eu acho que meu país deveria ajudar a Coreia do Norte, mesmo que piore sua relação com os EUA. Se houver uma guerra, penso que nosso Exército tem de ajudar nossos parceiros econômicos”, ressalta a estudante Megan Wei, de 18 anos.

Japão

Já o Japão, 9º lugar no ranking da SIPRI, gasta US$ 46 bilhões em investimento militar, valor dez vezes menor do que o dos Estados Unidos.

O país do sol nascente é aliado dos EUA no conflito, pois ambos têm uma forte parceria em comércio exterior e na própria questão militar. Os Estados Unidos possuem bases militares no Japão e mais de 50 mil soldados espalhados no país asiático.

“As coisas vão mudar lentamente no Japão. É mais interessante se preparar e melhorar sua defesa, mas não espero uma mudança drástica num futuro tão próximo”, diz Martin em relação a uma eventual mudança de política militar.

No último mês, a Coreia lançou dois mísseis de testes, em agosto deste ano, que sobrevoaram a cidade japonesa Sapporo, localizada da ilha de Hokkaido, a fim de testar a diplomacia do país.

A arquiteta japonesa Miyuki Takahashi, de 27 anos, vive na região ameaçada pelo míssil de Kim Jong-un e descreveu os momentos vivenciados durante o episódio: “Eu estava dormindo em casa quando recebi um alerta no celular dizendo para eu me esconder em algum lugar resistente a explosões. Eu estava muito assustava, foi a primeira vez que passei por este tipo de situação. Não sabia o que estava acontecendo exatamente.”

Por conta do grande susto enfrentado em sua cidade, Takahashi questiona a possibilidade de o Japão entrar militarmente neste conflito. “Eu não concordo com a participação do meu país em uma eventual guerra. Não dá para saber o que Kim Jong-un está planejando.”

EUA

Enquanto isso, os estadunidenses se preparam para a guerra. Billy O’Connor, estadunidense de 22 anos, que trabalha em uma fábrica da Cadillac em Schenectady, conta que “os Estados Unidos estão preparados para qualquer tipo de conflito. O presidente Trump tomou medidas que permitem que o país possa criar novas e melhores bombas, para caso exista um conflito físico”, ressalta.

Boing B-29, dos EUA, ataca alvo norte-coreano durante guerra coreana, em 1959
Boing B-29, dos EUA, ataca alvo norte-coreano durante guerra coreana, em 1959

Em relação à Coreia, Billy explica que o país “sempre foi um mistério, não só na questão militar, mas da vida comum no dia a dia também”. “É muito assustador para nós que moramos aqui, mas eu coloco fé no nosso Exército e espero que não tenha um conflito físico”, completou.

Já Berger pondera ser preciso “fortalecer nossa postura dissuasiva no Leste Asiático para que Kim não use seu poder militar contra nossos aliados [Japão e Coreia do Sul]. Criticar a Coreia do Norte, sancioná-la e dizer que nunca aceitaremos as armas nucleares é totalmente sensato nesse cenário, mas o presidente está indo longe demais. Por insultar publicamente Kim Jong-un, ele [Trump] cria pressão para que o país norte-coreano responda, pois o jovem líder parece muito sensível à questão, e isso está aumentando desnecessariamente o risco de conflito real”, conclui o professor.

 

(*) Produzido para o Diálogos do Sul, em parceria por alunos da U. P. Mackenzie.