Há dez anos observávamos que “enquanto as universidades inventavam robôs que se parecem cada vez mais aos seres humanos, não só pela inteligência comprovada, mas também por suas habilidades de se expressar e perceber emoções, os hábitos consumistas nos estão transformando cada vez mais similares aos robôs”

Jorge Majfud*

Na semana passada, publicamos umas breves reflexões sobre “A grande crise do século 21”. Um problema menor é que nos acusem de dramáticos, grandiloquentes ou apocalípticos. Tudo isso é irrelevante, esquecível.

Sob o risco de equivocarmo-nos, como todos, como em tudo, nossa obrigação é a de contribuir com alguns enfoques sobre os problemas mais importantes que podem afetar à humanidade no tempo presente e nos tempos futuros, mesmo que já não estejamos caminhando sobre esse belo planeta, nem desfrutando do maravilhoso milagre de estar vivo.

As inteligências artificiais não são como os robôs, meros braços que se movem. Elas são cérebros implacáveis que já estão sendo utilizados em grandes empresas e corporações globais.

Quanto a mim, já não tenho dúvidas. A grande crise planetária que a humanidade e o restante das espécies terão de enfrentar neste planeta continua sendo o problema sócio-ecológico. As duas bombas de tempo que mencionamos no artigo anterior (a perigosíssima e insustentável concentração de riqueza, mero sequestro do progresso humano por parte de uma elite financeira, e a iminente aceleração das mudanças climáticas), ambas unidas por um sistema social e econômico baseado no consumo e no desperdício, serão enfrentados através da próxima grande revolução tecnológica, sem dúvida com um maior impacto que a produzida pela internet.

Refiro-me à Inteligência Artificial.

Há dez anos observávamos que “enquanto as universidades inventavam robôs que se parecem cada vez mais aos seres humanos, não só pela inteligência comprovada, mas também por suas habilidades de se expressar e perceber emoções, os hábitos consumistas nos estão transformando cada vez mais similares aos robôs”. A mesma ideia está no livro Cyborgs (Jorge Majfud, 2012, ed. Izana – sem edição no Brasil), mas procede de meu segundo livro “Crítica de la pasión pura (1998, ed. Baile del Sol – sem edição no Brasil).

Obviamente, por “robôs” entendo como um conceito que, até então, não estava desenvolvido como agora: a inteligência artificial. O tempo confirmou meu pessimismo e corrigiu alguns de meus otimismos, na mesma época, sobre a Democracia Direta derivada das Comunidades conectadas (quem sabe, se ainda será possível?).

Hoje, os robôs estão comendo milhões de postos de trabalho e apesar de tudo isso parecer insignificante em comparação com a Inteligência Artificial. Os robôs são perigosos para os trabalhadores só se os benefícios de sua eficiência continuarem concentrados nos “donos dos meios de produção” (perdão pela terminologia marxista) e não chegarem aos trabalhadores que foram os que, com seu trabalho e seus impostos, para desenvolver todo esse conhecimento nas universidades.

Hoje, os robôs estão comendo milhões de postos de trabalho e apesar de tudo isso parecer insignificante em comparação com a Inteligência Artificial.

Os professores não só recebemos nosso salário das matrículas e dos impostos (no caso das universidades públicas), como também nos dedicamos à pesquisa e à especulação, a invenções que deixarão a nossos contribuintes sem trabalho, os quais se estão desdobrando sob o sol nos campos, cultivando e colhendo os alimentos ou levantando e descarregando caixas de frutas que, em seguida, compramos quase que sem esforço nos supermercados climatizados. Contudo, nem os inventores nem os professores que participaram no processo se beneficiaram nem se beneficiarão economicamente dessas proezas de alta tecnologia, como tem sido e continuará sendo feito pelos sequestradores, os “gênios dos negócios”. Estes que não produzem nada e simplesmente embolsam os lucros. Como sempre, serão os donos do dinheiro que farão mais dinheiro e serão venerados pelos avanços da sociedade. Enfim, essas bobagens que graças ao bondoso Bill Gates ou de outro multimilionário, temos internet e computadores, etc.

Retomemos o ponto central. As inteligências artificiais não são como os robôs, meros braços que se movem. Elas são cérebros implacáveis que já estão sendo utilizados em grandes empresas e corporações globais. Quase nunca estão nos robôs, como Terminator, estão em espaços virtuais, o que as tornam ainda mais temerárias.

Logo poderão entender os seres humanos melhor que qualquer psicanalista e, obviamente, não serão necessários 20 anos de terapia. Atualmente já estão sendo utilizados para ler os curriculum dos que solicitam trabalho e são capazes de selecionar os melhores candidatos com base em previsões: Maria renunciará em dois anos; José pedirá aumento antes do terceiro ano. Etc., etc.. Claro, logo nem Maria nem José serão necessários nem para cuidar de crianças ou de anciãos porque as IA poderão fazer muito melhor e cometendo menos erros.

Estas coisas, que em princípio podem ser celebradas pelos otimistas, pela sua inquestionável efetividade, repetida incansavelmente, tem seu lado tenebroso. Os robôs inteligentes não necessitarão ser maus para organizar o Mal. Basta que sirvam aos poderosos, como qualquer outra inovação, sejam governos despóticos ou mega corporações (despótica e manipuladora, como qualquer grande empresa, tal como comprova a história).

Poderíamos citar centenas de exemplos, mas somos razoáveis e consideraremos um simples aspecto. Já há milhares de anos, levamos nossa privacidade conosco para onde queiramos, seja em lugares públicos ou privados. Com a IA essa privacidade se dissolverá automaticamente. O reconhecimento facial não só pode detectar mentirosos, ou a orientação sexual (isto não é especulação. Já está ocorrendo inadvertidamente para o público). Logo, qualquer IA poderá determinar, em poucos segundos, as ideias políticas, sociais, religiosas e sociológicas de qualquer pessoa, seja lendo um simples CV, um texto, artigo, carta ou escaneando nosso rosto. Não será nada difícil de se concretizar considerando o que já estão fazendo.

Como consequência, os que não concordarem com essa ordem infinitamente opressiva, não pegarão em armas tradicionais mas sim nas mesmas armas fundadas nas IA ou similares. Serão os hackers do futuro, e, como no passado, serão os guerrilheiros idealistas e os criminosos comuns, todos metidos num mesmo saco pelos que ostentarão o poder dos deuses (ou dos demônios).

Terminará essa luta numa negociação pacífica?  Bom, nunca ocorreu na história, alto diferente das negociações como pelo direito às oito horas de trabalho, etc.

A luta será violenta pela restauração da liberdade e dos direitos individuais de todos, mais ou menos como a Revolução Francesa ou outro magnicídio? Estarão os indivíduos suficientemente intoxicados pela educação funcional, dócil, acrítica, e a manipulação ideológica e psicológica para que não haja reação nem lutas para libertar a consciência da opressão? Como em tantos outros períodos da história, serão os escravos os mais fervorosos defensores do sistema escravagista? Poderemos, os “velhos antiquados” dizer algo útil desde uma perspectiva do ano 2018 para os “libertados” ou “superados” dos anos 2040 e dos 2070? Algo que sirva de advertência aqueles que estarão submersos na tormenta de seu próprio presente?

Ou, pior. Terminará nossa orgulhosa e arrogante espécie humana num colapso final?

Ninguém pode ter uma resposta conclusiva a nenhuma destas perguntas. Porém, fazê-las e advertir sobre os grandes problemas atuais e os das gerações futuras é, simplesmente, nossa obrigação moral.

*Escritor uruguaio estadunidense, autor de Crisis e outras novelas. Original de ALAI, abril de 2018