Niko Schvarz*

ven_euaSucessivos governos de Estados Unidos sistematicamente realizam intervenções na vida política da Venezuela, particularmente a partir de finais do século passado, quando se produziu a ascensão ao governo de Hugo Chávez  e o PSUV. Sempre contra esse governo e a favor de forças opositoras.

Assim ocorreu no golpe de Estado de 2002, como foi amplamente documentado. Agora essa intervenção se torna patente em véspera das eleições parlamentares do dia 5 de dezembro próximo.

Estas revestem de grande importância para o país e para todo o continente que está em uma etapa de transição e atravessa por uma intensa ofensiva das forças reacionárias contra os governos de esquerda e das forças progressistas que no comando da maioria dos países da região. Hoje, o governo de Estados Unidos é o principal apoio das forças opositores ao governo bolivariano de Nicolás Maduro e trabalha por múltiplas vias.

Operações clandestinas, investigações secretas, acusações criminais, financiamento multimilionário, guerra psicológica e provocações militares, tal e a emboscada de Estados Unidos contra Venezuela.

Esta incisiva caracterização da analista Eva Golinger tem como título, precisamente “A emboscada desde Estado Unidos”. EUA gastou mais de 18 bilhões de dólares em financiamento para grupos anti-governamentais. Desde a Fundação Nacional para a Democracia (National Endowment for Democracy, NED), foram entregues em 2014-2015 a soma de três milhões de dólares para as organizações opositoras. Uma parte substancial foi pra mão do grupo opositor Súmate, criado pela própria NED em 2003 para impulsionar um referendum revogatório contra o presidente Hugo Chávez (manobra que fracassou rotundamente, diga-se). Outras somas foram entregues a um programa de apoio aos membros da oposição na Assembleia Nacional. Outras foram destinadas a “melhorar as capacidades estratégicas comunicacionais de organizações políticas através de meios alternativos”, ou seja, a financiar o uso de redes sociais para projetar a visão antigovernamental em meios nacionais e nutrir a campanha internacional. Outras somas aportadas pela NED são destinadas a “fortalecer a capacidade técnica e promover a liberdade de expressão e direitos humanos através do Twitter”. Outras ainda estão dedicadas a financiar grupos opositores que “documentam e disseminam informação sobre direitos humanos, inclusive a preparação de denuncias contra o governo venezuelano em instâncias internacionais.

Além da NED, participa deus operativo um organismo dependente do Departamento de Estado, a Agência Internacional de Desenvolvimento de EUA, a Usaid, que tem dedicado milhões de dólares à oposição venezuelana no período 2014-1015. No orçamento  para Operações Exteriores do Departamento de Estado para o ano fiscal 2016, que começou em outubro de 2015, estão contempladas somas milionárias de dólares para “defender e fortalecer práticas democráticas, instituições e valores que apoiam os direitos humanos na Venezuela” e para “ajudar a sociedade civil a promover a transparência institucional, o processo democrático e a defesa dos direitos humanos”.

Note-se que essas mesmas agências estadunidenses são as que apoiaram a chamada “sociedade civil” na Venezuela no golpe de Estado contra o governo de Hugo Chávez em abril de 2002. E que a presumível “sociedade civil” foi a que utilizou franco-atiradores para matar pessoas inocentes, para derrubar a um presidente democraticamente eleito e impor logo uma ditadura (o que foi desbaratado pela ação enérgica e consciente do povo unido, que prontamente restabeleceu a legalidade democrática).

Nas últimas semanas, e diante as eleições parlamentares de 6 de dezembro, tem se intensificado os ataques contra o governo da Venezuela na “grande imprensa” mundial e nas cadeias internacional de TV. Meios como o The New York Times, The Washington Post, The Wall Street Journal têm empreendido campanhas sistemáticas cobre o tema. acusam a personagens e instituições chaves do governo venezuelano de corrupção, atividades ilícitas, lavagem de dinheiro, narco-tráfico, violação de direitos humanos. Não se apresenta uma só prova, porém o impacto mediático é considerável.

Eva Golinger conclui sua análise com o seguinte conceito fundamental: “Não se pode esquecer nunca que Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do planeta e sempre será alvo dos mais poderosos interesses de nosso mundo. É hora de cerrar filas, de não deixar-se distrair por intrigas, egoísmo, avareza e armadilhas. O objetivo por trás dessas emboscadas não é que caia uma pessoa, o objetivo final é a Venezuela”.

As revelações de Edward Snowden

Em plena coincidência com o anterior, nestes dias repercutiram as revelações proporcionadas pelo ex agente da Agência de Segurança Nacional d EUA, Edward Snowden (que creio continua refugiado na embaixo do Equador em Londres), segundo as quais a referida agência de segurança, com a ajuda da embaixada estadunidense na Venezuela, espiona as comunicações internas, correios eletrônicos, perfis de funcionários e outros dados da empresa estatal Petróleos de Venezuela -PDVSA.

Os documentos proporcionados por Snowden revelam a execução de uma operação conjunta entre a NSA e a Agência Central de Inteligência de EUA, a CIA, para infiltrar na empresa petrolífera. A agência informativa Telesur difundiu há poucos dias documentos que demonstram a espionagem em assa desenvolvida pela NSA, de tal maneira que mais de 10 mil empregados foram espionados pela agencia. O documento detalha que a rede interna de PDVSA foi penetrada em fins de 2010. Ao mesmo tempo se soube que a embaixada estadunidense em Caracas foi sede da rede de espionagem. A agência estadunidense utilizou equipamentos de vigilância de alta tecnologia a partir de sua sede em Caracas, situada a poucos quilômetros da sede da petroleira estatal. Soube-se também que para esse trabalho de espião, EUA utilizou uma metodologia similar a aplicada em Berlim para espionar a chanceler alemã Angela Merkel. Esta última foi revelada pela revista Der Spiegel, de Berlim.

Sobre esse tema, o porta-voz do Departamento de Estado EUA, John Kirby, declarou que o organismo explicará ao governo de Caracas, “por canais diplomáticos”, as condições em que foram monitorado mais de 10 mil trabalhadores da PDVSA (tudo isso segundo os documentos desclassificados por Edward Snowden, e logo difundido por Telesur). Chegou-se ao extremo de que a NSA espionou inclusive o então presidente da PDVSA, Rafael Ramirez, atualmente embaixador da Venezuela nas Nações Unidas. “Vigilância Eletrônica”, é “a política de governo de EUA”e isso não mudou, disse Kirby.

Ao mesmo tempo, o governo de Washington admitiu que violou o espaço aéreo venezuelano e se viu obrigado a pedir desculpas ao governo. Isto foi informado há alguns dias pela agência AFP, destacando que o general John Kelly, chefe do Comando Sul, admitiu que a aeronave estadunidense voou durante três minutos e meio dentro de território venezuelano.

Vale acrescentar, o presidente da PDVSA, Eulogio del Pino, afirmou que os executivos da petroleira estatal, quando solicitam visa para viajar a EUA, são submetidos a um questionário sobre as realidades comerciais e as estratégicas da empresa, o que qualificou como “uma espionagem industrial descarada”. Isto ocorria antes da denúncia sobre espionagem em massa.

Protesto da chancelaria venezuelana

Diante de todos esses fatos, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ordenou uma revisão integral das relações com Estados Unidos e a chancelaria venezuelana declarou que a espionagem em massa contra a PDVSA  “é uma agressão inaceitável”.

O governo de Caracas exigiu da embaixada de EUA uma explicação imediata e solicitou conhecer a identidade dos espiões. Em essência, o governo venezuelana protestou energicamente pelas atividades de espionagem realizadas do interior da embaixada de EUA em Caracas, sede centro da operação, em que trabalharam também a agência de Segurança Nacional e a Agência Central de Inteligência, de acordo com documentos difundidos. O comunicado oficial da chancelaria venezuelana qualificou de “inaceitável” que a partir da embaixo se espiona as atividades e as comunicações dos funcionários da empresa estatal. A espionagem em massa constitui “um grave atentado” e Venezuela exige um pronunciamento “expresso e imediato” que explique em forma e legalmente satisfatória a gravíssima agressão cometida por EUA. O governo venezuelano soltou também conhecer a identidade dos agentes envolvidos, independentemente de sua condição de funcionários diplomáticos ou de outra natureza.

Missão da Unasul para as eleições

Já está em Caracas, desde o dia 17 de novembro, a missão da Unasul -União de Nações Sul-Americanas= que acompanhará as eleições parlamentares de 6 de dezembro. Esta integrada por 50 especialistas, e observará com plenos poderes e a mais absoluta liberdade de ação todas as etapas do processo eleitoral. A missão é presidida pelo ex presidente da República Dominicana, Leonel Fernández e conta com a presença do presidente da Unasul, que é o ex presidente colombiano Ernesto Samper. A Comissão foi recebido pelo presidente Nicolás Maduro no Palácio de Miraflores e subscreveu um acordo com a Comissão Nacional Eleitoral venezuelana, presidida por Tibisay Lucena quem outorga total imunidade e livre trânsito por todo o território e a possibilidade de observar todas as etapas do ato eleitoral. Também participam da missão o chanceler equatoriano Ricardo Patinho.

Serão realizadas 23 auditorias, perfeitamente identificadas, que ocorrerão nos dias prévios e na própria instância eleitoral. Toas eles sujeitas a controle e verificação. Leonel Fernandez afirmou que a missão velará planamente pelo respeito ao voto dos venezuelanos e ratificou seu compromisso com o princípio da imparcialidade. Seguramente isso será cumprido posto que como já certificou em outra oportunidade o Centro Carter, o sistema eleitoral venezuelano “é o mais perfeito do mundo”.

Sobre essas sólidas bases, assistiremos, em 6 de dezembro, qual é a opinião autêntica do povo venezuelano.

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Montevidéu, Uruguai.