Depois de 12 dias de viagem, em 20 de janeiro de 1881 o líder independentista cubano Jose Martí chegou a Caracas. Na breve permanência de seis meses – abandonou o país apressadamente em julho do mesmo ano por diferenças com o então presidente Antonio Guzmán Blanco- o já consolidado poeta e jornalista cultivou profunda amizade com figuras relevantes da intelectualidade venezuelana.

Mario Hubert Garrido*

Jose Martí10Nesta etapa, apenas prestou homenagens ao libertador Simón Bolívar. Depois de uma arriscada travessia pelo chamado Caminho dos Espanhóis, Martí se alojou numa casa de hóspedes em frente da praça que hoje leva seu nome na capital venezuelana.

A nenhum outro lugar Martí chegou com tais expectativas e respeito. Caracas é para ele a “Jerusalém dos sul-americanos, o berço do continente livre, onde Andrés Bello, um Virgílio, estudou; onde Bolívar, um Júpiter, nasceu”, ele escreveu.

Seus dons de jornalista e orador fizeram com que em poucos dias estivesse acompanhado de personalidades como Aristides Rojas, Diego Jugo Ramírez, Agustín Aveledo, Guillermo Tell Villegas, Heraclio Martín de La Guardia e Cecilio Acosta entre outros, com quem realizou atividades políticas, intelectuais e literárias.

Em fevereiro de 1881, Martí foi dar aulas de literatura e gramática francesa no colégio de Santa Maria. Em março fundou a disciplina de oratória no colégio de Villegas, e em 21 desse mesmo mês pronuncia um memorável discurso no Clube do Comércio, porém, não nos salões fechados como previsto, mas do terraço diante da multidão reunida na praça.

Principais colaboradores

Entre os intelectuais e políticos que conviveram com Martí destaca-se Nicanor Bolet Peraza, escritor, jornalista e político, editor da revista literária El Oasis, fundador do jornal literário El Museo Ilustrado (1865) e do jornal Tribuna Liberal (1877). Este, por criticar o governo de Guzmán Blanco, foi fechado e teve que refugiar-se em Nova York conde fundou a revista Las Tres Américas, dedicada à corrente literária do modernismo.

Outro entre os amigos de Martí foi o poeta, filósofo e poliglota Juan Antonio Përez Bonalde, considerado então o expoentes máximo da poesia lírica venezuelana, do romantismo e um dos precursores do modernismo. Pérez Bonalde traduziu as obras de Heinrich Heine e Edgar Allan Poe, conheceu Martí antes numa sala de concertos em Nova York onde se reuniam latino-americanos.

Na relação de amigos também consta o diplomata, poeta e historiador Jacinto Gutierrez Coll, que foi ministro de Relações Exteriores de 1864 a 1870; funcionário da Embaixada da Venezuela em Roma, Paris e Nova York. Redator da revista caraquenha La Entrega Literária; colaborador do jornal El Cojo ilustrado e membro fundador da Academia Nacional de História.

Outro intelectual que aparece nos textos da época difundidos recentemente pelo jornal Ciudad de Caracas, que manteve estreitas relações com Martí, foi Cecilio Acosta, escritor, jornalista, advogado e filósofo. Ele integrava a chamada geração intelectual da independência e da república junto com Juan Vicente González, Fermín Toro e Rafael María Baralt. Sobressaem também Digo Lugo Ramírez, filho do prócer Diego Jose Lugo.

Diego lutara na Guerra Federal, quando obteve a patente de coronel. Formou-se na Academia de Matemáticas e era membro da Academia Venezuelana da Língua. Também fez parte da Assembleia Popular constituída em 5 de julho de 1869, de onde se reivindicou o reconhecimento da independência de Cuba e Porto Rico.

Outro intelectual associado à passagem de Martí por Venezuela foi o poeta, jornalista, político, diplomata e dramaturgo Heráclito Martín de la Guardia. Consta também entre os amigos Agustín Aveledo, ensaísta, engenheiro, político e educador, fundador do Colégio Santa Maria e dedicado a estudos humanísticos.

Avançado para seu tempo, Aveledo propôs o ensino gratuito para o curso primário com entrega dos materiais escolares. Fundou um asilo para órfãos e a Sociedade de Ciências Físicas e Naturais de Caracas.

Martí foi professor de francês e deu aulas de oratória a David Lobo, Lisandro Alvarado, Víctor Manuel Mago, Jose Mercedes López, Jose Elías Landínez, Gonzalo Picón Febres, Jose Gil Fortoul, Luis López Méndez e Cesar Zumeta.

Outro venezuelano relacionado com a presença de Martí na Venezuela foi Guillermo Tell Villegas, advogado, político e presidente interino em 1868, 1869, 1870 e 1892.

Os cubanos que integram as diversas missões internacionalistas na Venezuela mantém viva a tradição de não deixar de visitar o monumento a Simón Bolívar e com as palavras de Martí, recordar: “Diga-me Venezuela, em que posso servi-la: ela tem em mim um filho”.

*Prensa Latina de La Habana, especial para Diálogos do Sul