LE FIL Rouge** (O Fio Vermelho) é uma saga. Apresenta-se como romance, mas enquadra-se mal nesse gênero literário.

Miguel Urbano Rodrigues*

miguel urbano rodrigues1Gilda Landino Guibert escreveu um poema revolucionário em prosa que projeta os leitores para cenários de luta pela liberdade e pela transformação do mundo.

O sujeito é simultaneamente individual, uma família, e coletivo, os italianos de aldeias da Toscana que se bateram contra o fascismo mussoliniano e posteriormente em França, como imigrantes, ao lado dos franceses da Resistência, contra a ocupação alemã. A ação transcorre na primeira metade do século XX.

couv-le-fil-rouge (1)O patriarca da família é Aristodemo, um lenhador de Torniella, uma aldeia Toscana de camponeses sem terra, a grande maioria analfabetos. Residem em toscos casebres e a fome é companheira diária dessa gente  proletária  que sobrevive com salários de miséria.

Aristodemo é desde a adolescência um rebelde. Aos 14 anos a sua participação ativa na ocupação de terras comunais de que se tinha apropriado um conde, grande latifundiário, assinala o início de uma vida dedicada à revolução. Lê tudo o que lhe cai nas mãos. Descobre Marx e Lenin, entusiasma-se com a gesta da Comuna de Paris. Mobilizado para combater contra o povo líbio , deserta. É preso, condenado e no cárcere aprofunda a sua cultura politica A companheira, Violeta, passa também pela prisão; torturada, não cede. Ambos são revolucionários, muito antes deformação do partido comunista italiano.

A escritora dedica capítulos à ascensão do fascismo em Itália, à destruição da cidade de Roccabrada pelas camisas negras de Mussolini, à prisão dos comunistas de Torniella. Nomeadamente Aristodemo.

O chefe dos Landini, com a cabeça a prêmio, emigra para França onde a mulher e os filhos se lhe reúnem.

Gilda descreve com minúcias a difícil, dolorosa integração de Aristodemo (Passou a chamar-se Aristide em França) nas minas de ferro da Lorena, e, depois, como lenhador, noutra região e finalmente na Provença, onde a família, já com quatro filhos, se fixa numa aldeia onde a maioria dos habitantes são imigrantes italianos quase todos comunistas.  

As perseguições acentuam-se apos a pós a derrota da França. O filho mais velho, Arnolfo (torna se Roger na Provença), destacado militante comunista como o pai, é particularmente visado pelas autoridades de Vichy. A família vegeta numa pobreza próxima da miséria sem perder a alegria. Quando o cerco aperta, Aristide e os seus mudam-se para Creuse, um departamento do Maciço Central. Fieis ao seu ideário, mantendo uma combatividade exemplar

Gilda

Gilda Landini Guibert é neta de Aristide, filha de Leo, o benjamim da família.

Não viveu a dramática epopeia da família. Dela tomou conhecimento escutando o pai e através do muito que se escreveu sobre os Landini.

Professora de história, presidente da Comissão de História do Museu da Resistência, dedicou dez anos à pesquisa e estudo dos acontecimentos de que os seus antepassados foram protagonistas. O seu trabalho levou-a à Toscana natal do avô, aos arquivos de Roccastrada, ao Museu da Resistência de Florença, aos arquivos provençais de Draguyignan e Muy, ao antigo presidio de Montluc, ao Centro da Resistência em Lyon e ao Museu Nacional da Resistência e da Deportação em Champigny sur Marne. Comunista desde a juventude, na tradição familiar, a sua opção ideológica revolucionária transparece de início a fim do livro. Ela escreve com a paixão, a confiança e o entusiasmo dos bolcheviques da Revolução de Outubro.

As dezenas de combatentes citados por Gilda foram revolucionários reais. Muitos deles personagens históricos. Togliatti dormiu em casa do avô e Thorez pronunciou no Norte o discurso de que ela transcreve alguns parágrafos.

A emoção que escorre das páginas de muitos capítulos suscita reparos da crítica. Mas não foi a ambição literária que a empurrou para a escrita da saga dos Landini.   

Do terror nazi à esperança

Em circunstâncias diferentes, Aristide, Roger e Leo são presos e torturados.

Resistem; nenhum deles fala.

A luta contra os alemães na Resistência é o tema das últimas duzentas páginas, mais de um terço do livro.

Roger, primeiro, e depois Leo, um adolescente de 17 anos, participam de múltiplas ações de sabotagem que visam os transportes ferroviários, fábricas, aviões, edifícios que produzem armas para os alemães.

O cenário é a região de Lyon.

Gilda move-se no tempo como historiadora. Cita as datas e os lugares de cada iniciativa da guerrilha rural (o maquis) e da urbana. Alguns capítulos abrem ao leitor páginas da história da França do ano 44, quando a derrota alemã era já uma certeza.

Leo, capturado, é submetido pela Gestapo a sessões de tortura minuciosamente descritas. Mas não lhe arrancam uma palavra. Sofre tanto que deseja a morte. Nesses dias venceu mais uma batalha. Adquiriu a certeza de que era possível resistir, que suplicio algum o faria falar…

Klaus Barbie

O chefe local da Gestapo, Klaud Barbie, o «açougueiro de Lyon» dirige pessoalmente a tortura de Leo Landini.

O seu retrato é esboçado com realismo. Foi um dos mais sangüinários assassinos da organização criminosa.

Finda a guerra, conseguiu fugir para os EUA protegido pelo Country Intelligence Corps da US Army com o qual passou a trabalhar intimamente no quadro da guerra fria.

Em l951 está a má Argentina, colaborando com a CIA. Mas em 1961 já vive na Bolívia, sob o nome de Klaus Altmann e torna-se um próspero comerciante. Durante a ditadura do general Hugo Banzer é assessor do alto comando do exército boliviano. Enriquece.

Não esqueci que em l983 eu estava em n La Paz quando o presidente progressista Siles Suazo decidiu prender entregar à França Altmann -Barbie, que fora identificado por um jornalista que o entrevistara.

Julgado como criminoso de guerra, foi condenado à prisão perpétua. Faleceu no cárcere em l991.

Epílogo

O livro termina com a reunião de toda a família Landini. Um desfecho feliz.

Gilda escreveu um livro comovedor.

Mas ao magnificar Aristide, Roger, Leo, a mãe Violeta e outros membros da família, erige-os em heróis quase sobre-humanos.  

Os Landini surgem na sua saga romântica como revolucionários exemplares. O leitor é  levado à conclusão de que a grande maioria dos comunistas são como eles, autênticos continuadores dos bolcheviques da geração de 1917.

Oxalá assim fosse. Mas a evolução da História contemporânea desmente essa visão idealista da neta de Aristodemo Landini.

 

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Vila Nova de Gaia, Fevereiro de 2017

**Le Fill Rouge, Gilda Landini Guibert, Ed.Delga, 560 págs, Paris 2016