Miguel Mazzeo*

Malvinas

A “questão Malvinas” é uma ferida aberta na memória da sociedade argentina. E é um problema com várias arestas não resolvidas, tanto para a esquerda como para o campo popular em seu conjunto. Os paradoxos proliferam e tencionam os valores mais representativos das tradições políticas emancipatórias. Mostram alguns de seus pontos cegos, suas vacilações, seus mutismos.

Por exemplo, os soldados conscritos mortos durante e depois da guerra de Malvinas, e os que sobreviveram: devem ser considerados “heróis” ou vítimas da repressão interna do estado terrorista da ditadura?; são incompatíveis ambas as condições? Malvinas foi uma guerra anticolonial comparável às guerras de libertação nacional dos países periféricos (como Argélia ou Vietnam) ou foi uma guerra reacionária e irracional imposta verticalmente? Foi uma “guerra de cultura” em que uma contra-modernidade autóctone se enfrentou à modernidade eurocêntrica? É possível empilhar interrogantes desse teor até o cansaço.

Este artigo faz referencia a uma das tantas arestas contidas na questão Malvinas, com finalidade de trazer um modesto insumo para um debate coletivo que, longe de toda autoindulgência nos permita avançar em sua elucidação.

Em torno da questão Malvinas existe uma postura que se converteu em hegemônica e que praticamente se integrou ao sentido comum desta época. A mesma resulta de uma combinação de doses variáveis de liberalismo constitucionalista e de antimperialismo/anticolonialismo de “baixa intensidade”, ou seja: um antimperialismo e um anticolonialismo que tendem a dissolver os conflitos de classe nos conflitos “nacionais”. Esta postura, quase um formalismo complacente, é compartilhada por alguns setores da esquerda, do “progressismo” e do kirchnerismo.

O “politicamente correto” e “realista” com relação a questão Malvinas parece ser a exaltação nacional, mais ou menos antimperialista/anticolonialista (massivamente anti-britânica) e, claro está, pacifista e moralmente reconstituinte. Isto é: um impecável nacionalismo dito popular, sem as distorções do nacionalismo reacionário, do fascismo societário e do voluntarismo. Com relação a Guerra de Malvinas é soes colocar de relevo, por um lado, o justo da causa: a luta contra o imperialismo e o colonialismo, a defesa da soberania violada, etc. Por outro lado, o inadequado da condução político-militar: uma ditadura genocida, reacionária, pró-ocidental. Tal “resolução” da questão Malvinas não contribui com fundamentos contundentes…. estes planos podem ser cindidos tão facilmente?

Por outro lado, poucas vezes se assumem as consequências políticas decorrentes de colocar a questão Malvinas como um conflito colonial, imperialista e de soberania nacional.

Sem dúvida existe um “fato colonial” demasiado evidente para se negado Mas de trata de um colonialismo “residual”, que difere em múltiplos aspectos das atuais normas dominantes do colonialismo e do imperialismo (e também das que estavam vigentes em 1982).

Também existe uma questão pendente: a soberania. Porém no caso de Malvinas se trata de uma dimensão muito específica da soberania, de um sentido territorial e de domínio da mesma.

Quer dizer que a questão Malvinas nos remete a um fato colonial vergonhoso e inaceitável por onde que que se olhe – e a um tema de soberania – que exige solução – mas de segunda ordem e de formatos anacrônicos diante do caráter avassalador do novo imperialismo (e do novo colonialismo).

Esta situação torna possível o desenvolvimento de um antimperialismo e um anticolonialismo abstratos, que botam fogo nas bandeiras britânicas, e que reivindicam ao Gaucho Rivero, enquanto eludem o confronto com os grupos de poder mais concentrados e suas estratégias hegemônicas no âmbito local, regional e internacional. Trata-se do “antimperislismo e o anticolonialismo da reprodução ampliada do capital”, outra forma de distorção nacionalista, outra forma de irracionalidade imposta de cima para baixo.

Vale ter presente que o imperialismo e o colonialismo não são fenômenos estáticos, se alteram e com eles as condições geopolíticas e estratégicas. Uma consciência antimperialista, portanto, não pode estar colocada de uma vez e para sempre. Sobressaltar o confronto com uma ordem e um formato defasados, além de suas sobrevivências excepcionais, pode ser o subterfúgio para eludir a luta fundamental.

Aqui fica exposta uma hipocrisia do kirchnerismo: enquanto denuncia o colonialismo “residual” de Malvinas e enquanto recorre a retóricas e simbologias antimperialistas, permite o avanço das novas formas imperialistas e colonialistas. Enquanto se reclama (com toda justiça, mas sem “custos” e sem demasiada coerência) a soberania de um território, se perdem, dia a dia, quotas de soberania em mãos dos irrefreáveis processos neoimperialistas.

Como em outros campos, os fatos desmentem as palavras. Reveste-se de épica popular latino-americana um projeto que combina: ideologia da modernização, produtividade, vago humanismo, telurismo, tecnocracia, servilismo prática e anemia de ideias. Enunciam postulados que não se pretende levar até suas últimas consequências. Paralelamente se reiteram alguns silêncios. O concreto é que o “pensamento nacional” termina convertido em um instrumento de conciliação com a realidade, em uma bagagem apta para as disputas intra-sistêmicas.

Em torno a questão Malvinas se tem recorrido e se recorre a termos como “recuperação”, “consciência nacional”, “luta antimperialista/anticolonialista”, com fito de ocultar alguma inconsequência, de desembaraçar alguma ambiguidade e não precisamente para realizar as promessas conceituais. Dessa maneira, a política oficial com relação a questão Malvinas não gera práxis, pelo menos não por fora dos esquemas de chancelaria. Ao contrário, produz falsa ilusão, remete a generalidades e não a processos ativos. No longo prazo produzirá desassossego.

Desse modo, a questão Malvinas, encarada desde o ponto de vista prático de alguns quadros políticos e intelectuais do oficialismo, oferece a possibilidade de ser “antimperialista”, “patriotas” e “pacifistas” em um plano que não exige travar as batalhas imprescindíveis para uma libertação genuína e para uma soberania integral, nacional e continental.

Trata-se de dar-se conta da realidade categórica dos novos modos do imperialismo/colonialismo, de resistir a seu projeto de dominação e de colocar em pé um projeto alternativo. Talvez isto nos permita encarar em melhores condições – com mais legitimidade – a luta contra os vícios dos velhos modos. Seguramente também nos permitirá redefinir a memória sobre Malvinas.

As convocatórias para afirmar a dignidade nacional e social devem estar acompanhadas por ações que erodam o poder imperial e o domínio neocolonial, que permitam sair da entropia burguesa, que confrontem com a aliança dominante que articula grupos locais com poderes estrangeiros.

*Miguel Mazzeo é docente na Universidade de Buenos Aires e na Universidade de Lanús. É militante da Frente Popular Darío Santillán – Corrente Nacional.