Testemunho carcerário de Martin Almada
Cela 12. Controle!!!!!

Martin-Almada1É o grito com que me despertaram no Campo de Concentração de Emboscada, a 45 Km de Assunção em uma madrugada de 1977, durante o governo de “Paz e progresso sem comunismo” de Alfredo Stroessner.

Eram cinco da manhã e fazia frio dentro dessa montanha de pedra onde foi construído um quartel tipo feudal. Um bruto sargento nos ordenou que ficássemos de pé, fez a chamada dos prisioneiros políticos e nos cominou a voltar aos nossos lugares.

Sentado  em um canto da Cela 12 que compartilhava com 45 companheiros vítimas, enrolado em um velho cobertor, tratei de compreender a situação. Olhava as grades da cela e não me resignava a aceitar a realidade. Estava rodeado de caras estranhas e doloridas de homens que se encolhiam para se defender da baixa temperatura, acusados de ser comunistas, isto é, pessoas que atentavam contra a civilização ocidental e cristã.

Martin AlmadaA Cela 12 estava destinada exclusivamente  aos prisioneiros políticos que  pensavam que  Darwin descobriu a lei da evolução da natureza e que Marx descobriu a lei da evolução da história.

Estivemos nesse Campo de Concentração mais de 400 prisioneiros e para evitar a contaminação ideológica, nós, os da Cela 12, tínhamos horários diferentes, sobretudo nos momentos destinados aos recreios.

Supostamente, estávamos na Cela 12 a flor e a nata do marxismo leninismo, trotskistas, maoistas, ligas agrárias campesinas, Teologia da libertação, independentes, liberais, PM, (organização política/militar), febristas, PORA (Partido Obreiro Revolucionário Armado).

Eu pertencia ao Movimento Popular Colorado, (MOPOCO), reformista, porque minha luta foi melhorar a condição econômica e social do magistério. Também porque aplicamos na minha Escola a metodologia da educação libertadora de Paulo Freire.

Finalmente, a maioria saiu desse inferno como socialista. Socialistas por contaminação. A ironia do destino…

Recordo que durante o controle houve um intenso barulho ao qual sucedeu um silencio inquietante. O silêncio dos cárceres é mais silencioso que os outros.

O assédio da angustia, somado ao ronco do meu vizinho não me deixavam dormir.

Minha filha Celeste, órfã,  de 7 anos de idade, estava na cela das mulheres seguramente sofrendo o frio como nós. Mas ela teve a sorte de partilhar o catre com a prisioneira heróica, Dra. Gladys M. de Sannemann. Estava seguro que  ela estaria bem protegida, pensamento que me tranquilizou.

Por volta das seis, tomamos o café da manhã no refeitório, isto é, na sombra de uma frondosa árvores de “Guapo” e sob o olhar atento do coronel José Félix Grau, o Carniceiro da Morte, comandante da prisão com o chefe de Guarda, Major Fidel Larramendia, gordinho, tão baixinho que seu sabre de aço muito longo, tocava a terra fazendo um particular ruído de metal tililin, tililin…

Celeste e eu ficamos no fim da fila para poder conversar muito discretamente. Era proibido “falar”. Tínhamos medo de ser castigados pelo famoso coronel Grau, bêbado consuetudinário.   O café era servido em um jarro de lata com mate cozido  negro  com três bolachas quartel, isto é, duras como uma pedra. O mate cozido tinha um gostinho de gasolina porque a água era trazida do contaminado rio Piribebuy em uma lata vazia de gasolina Shell de 200 litros. Sentíamos o império até em nossas tripas.

Partilhei o café da manhã com minha filha Celeste  que chegou enrolada em um cobertor e me deu um forte abraço. Veio até o refeitório em companhia da Dra. Sanneman. Notei que não gostou da comida, mas tínhamos fome atrasada. Não havia opção: Shell ou Nada, Shell ou Esso, as marcas preferidas no Paraguai para os luxuosos veículos.

Depois, o Sargento ordenou:   “Cada um para a sua cela”

Vários de meus companheiros tornaram a dormir e se sentia na cela o forte cheiro de gasolina. Lembrei-me da propaganda no rádio: “use gasolina Shell, um tigre em seu motor”, mas nunca pensei que carregaríamos esse veneno em nosso motor estomacal o que nos provocava permanente diarreia.

Eu tratei de fazer a mesma cosa, isto é, dormir, mas nos meus ouvidos ressoava ainda o grito do analfabeto sargento (seguramente  treinado na Escola das Américas em técnicas de tortura, na Zona do Canal do Panamá).  Cela 12, Controle!

Era um grito que me resultava familiar, que havia ouvido antes. Quando? Onde? Pus-me a pensar, até que percebi que o familiar não eram os termos, mas sim o volume da voz, a expressão da prepotência militar/policial.

A  história deste pesadelo tinha começado três anos antes, quando na minha cidade, San Lorenzo, no dia 26 de novembro de 1974, no Instituto “Juan Bautista Alberdi”  onde era Diretor, fui detido pela polícia política de Alfredo Stroessner,  junto com meu sobrinho argentino de 17 anos, Lorenzo Lidio Jara Pérez que estava de visita proveniente de Clorinda. Jogaram-nos como um saco de batatas dentro do famoso “Centro de Tortura Móvel” marca Chevrolet da  General Motors.” Um centro móvel  utilizado para o “pré aquecimento” a cargo de policiais caratecas. O veículo era mais conhecido como a famosa “chapeuzinho vermelho” que provocava pânico quando passava pelas ruas do nosso bairro.

Chegamos a Assunção por volta das oito da noite. Lorenzo Lídio foi levado à Sala de Tormento onde perdeu um olho, e eu diretamente ao escritório do Chefe de Investigações, Pastor Coronel, onde foi instalado um Tribunal militar da Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai ( Operação Condor), e me submeteram durante 30 dias a interrogatórios/ torturas  e pelo meu delito fui qualificado como  Terrorista intelectual.

Posteriormente, me comentaram que Stroessner estava sentado no fundo do tribunal para escutar minha declaração e condenação.

Mantiveram-me  desnudo, algemado e acorrentado, somente faltava que colocassem na minha testa a palavra INRI, quer dizer “instigador natural da rebelião dos infelizes”, parafraseando o destacado poeta   salvadorenho, Roque Dalton.

Depois de percorrer vários centros de torturas me levaram ao Campo de Concentração de Emboscada no dia 6 de setembro de 1976  onde  o uivo, digo, grito de um Sargento nos cominava nesses termos que se repetem hoje nos meus terríveis pesadelos noturnos:
Cela 12. Controle!!!!!

 

*Martin Almada, Prêmio Nobel Alternativo é colaborador de Diálogos do Sul, de Assunção do Paraguai