Theotonio dos Santos*

Povo Hugo Chavez  

Gostaria de ter uma palavra de animo e confiança neste momento tão dramático. A perda do companheiro, amigo e comandante Hugo Chávez dói mais q ue muitos outros momentos de perdas qu vivi nesta já longa vida. Entre outras coisas porque além de ser um líder carismático era sobretudo um generoso, alegre e vital ser humano. E também era um genial condutor. A direita sofreu com sua capacidade de manter-se na ofensiva todo tempo, estabelecendo a agenda sem deixar-lhe nunca espaço para os inimigos de nossos povos. De onde tirou estas qualidades? De muitos lados, de sua capacidade de estudos e concentração, de sua honestidade e capacidade de decisão, de seus anos de disciplina militar.

Porém, sobretudo, tirou estas qualidades de seu próprio povo.

Chávez é um filho privilegiado de um povo que destruiu o poder colonial ibérico, assumindo a vanguarda de toda a América Latina com o grande caudilho da raça: Simón Bolívar.

Que lutou por anos e anos contra o maior império que estava alí a seu lado, explorando a cada minuto de seu trabalho, o que permitiu a Venezuela ser o maior exportador de petróleo do mundo durante 40 anos sem que a grande maioriaa pudesse desfrutar dessa riqueza colossal.

Este povo que teve que enfrentar umas ditaduras endinheiradas, corruptas e corruptores que finalmente soube se impor sobre seu último tirano, Pérez Giménez, e ver em seguida suas conquistas democráticas reduzidas a uma classe média alta em acordo com seus exploradores. Povo que soube admirar o caminho seguido pela sua revolução irmã, a Cubana, e os que subiram às montanhas na Venezuela, para tentar resgatar as bandeiras da revolução democrática que se aprofundava em Cuba, alfabetizada, dona de sua saúde, de seu destino, soberana e solidária com os oprimidos de todo o mundo, filha da revolução bolivariana, com a gesta libertadora de José Martí.

Povo que soube forjar e apoiar a nacionalização de seu petróleo, riqueza colossal que não obstante não conseguiu colocar a serviço de sua emancipação devido a traição de seus dirigentes. Povo que reagiu drasticamente ao programa de fome, em plena riqueza do petróleo, que o FMI tentava impor, através de seus falsos líderes. Povo que possivelmente alcançou seu auge no “Caracazo” com o qual despertou definitivamente a consciência de seus militares que mudaram de repressores para libertadores, seguindo a gesta histórica de Simón Bolívar que forjou um exército de libertadores.

Chávez é o filho esplêndido deste povo cheio de coragem e decisão. A verdade é que Venezuela produziu uns milhões de Hugo Chávez. Um líder como ete, tão fortemente identificado com seu povo não nasce do nada. E esta é a razão do ódio da direita venezuelana e internacional contra este líder que não puderam nunca vencer.

Subestimaram-no, como subestimam a seu povo. Como se pode ver nesta propaganda eleitoral apoiada na ideia de que seguirão as políticas de Chávez sem suas “exagerações” e “radicalizações” “inúteis”.

Interessante: nós acreditamos que os inúteis são eles. Os exagerados com seus padrões de consumo ostensíveis. Abobalhados com suas tentativas grotescas de imitar os costumes e gostos das elites das nações dominantes no mundo. E incompetentes com seu culto a preguiça e o abuso do ócio.

Ao contrário, consciente da ameaça da morte imediata, Chávez soube cuida do grande plano de desenvolvimento socialista da Venezuela que comandou sua companha presidencial e que orienta agora seu partido, suas forças armadas apoiadas em um povo em armas, seus poderes comunitários, seu parlamento, a consciência aguda e esclarecida de um povo alfabetizado, que aprendeu a estudar como seu chefe, devorador de livros cuja leitura compartilhava com seu povo em todas as oportunidades ensinando-o o poder do conhecimento e da reflexão livre e emancipadora.

Aí está o problema desta classe dominante e seus seguidos: não têm diante deles um povo ingênuo e incapaz. Ao contrário, têm diante deles alguns milhões de Hugo Chávez. Eleitores e candidatos, unidos na mesma paixão libertadora que se alimenta do outro filho querido: Simón Bolívar. Esta é sua tarefa Maduro… Terá de cumprí-la.

*Theotonio dos Santos – Um dos fundadores de Diálogos do Sul, professor visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro