As eleições presidenciais na Venezuela, marcadas inicialmente para o dia 22 de abril, foram empurradas em um mês, e acontecerão junto com a votação para escolher os membros dos conselhos legislativos estaduais e municipais, no dia 20 de maio. A decisão, anunciada pelo CNE (Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela), é fruto de um acordo de garantias eleitorais entre as forças políticas que respaldam a reeleição de Nicolás Maduro, além dos grupos Avançada Progressista (AP), Movimento Ao Socialismo (MAS) e Copei, que apoiam a postulação do opositor Henri Falcón.

Por Aram Aharonian, em la Estratégia

Na verdade, o acordo significa o fim da coalizão opositora chamada Mesa de Unidade Democrática (MUD) e o início do eventual surgimento de novas lideranças na oposição, e também dentro de um governismo conturbado. O acordo nasceu de conversas secretas, nas que o governo aceitou mudar a data da votação e respeitar o período da Assembleia Nacional (de maioria opositora), ampliar o prazo para inscrição de candidaturas, entre outras concessões.

Porém, segundo o jornalista Eleazar Díaz Rangel, diretor do diário Últimas Notícias, tudo isso não passa de um engano: “o que parece mais interessante neste cenário é que nos três dias de conversas entre as partes, apesar de algumas deserções opositoras, foram dados passos significativos para consolidar a paz e tranquilidade que estamos vivendo há meses, e que leva a supor que teremos um processo eleitoral em paz”.

De qualquer forma, as partes também concordaram em propor ao secretário-geral da Organização de Nações Unidas (ONU), o português António Guterres, “que seja conformada uma delegação de acompanhamentos e observação eleitoral ampla e qualificada para todas as fases do processo eleitoral, assim como de outras instâncias e organizações internacionais convocadas a partir de um acordo mútuo”, explica o texto assinado no dia 1º de março, na sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

Após muitos conflitos, revoltas, marchas e reuniões de conciliação, os partidos da MUD decidiram se não concorrer nas eleições, quando estavam marcadas para o dia 22 de abril — entre outras coisas, pela dificuldade que teriam em encontrar uma candidatura única em pouco tempo, e também devido às pressões recebidas de Washington e da chamada comunidade internacional.

Mas a apresentação de cinco candidaturas — além da de Maduro — deixou claro a falta de consenso na decisão. A inscrição oficial de Henri Falcón, apoiado pelos partidos Avançada Progressista (AP), Movimento ao Socialismo (MAS) e pela organização democrata cristã Copei, evidencia as divisões dentro da MUD. A do pastor Javier Bertucci, em representação do grupo Esperança por Mudanças, marca a participação evangélica em busca do poder terrenal (poderia ser a surpresa nas eleições estaduais).

Até a semana passada, a estratégia opositora estava voltada à acumulação de forças dentro do sistema e de suas instituições. Agora, longe de poder enfrentar eleitoralmente o chavismo, esperam que as decisões sejam tomadas fora do país, com a ingênua crença de que eles serão os que dirigirão os destinos após a queda do governo bolivariano.

Estes setores oposicionistas, que têm maior repercussão no exterior do que no próprio país, continuam afirmando que não há condições para participar numa “farsa”, “simulacro eleitoral”, que buscaria legitimar uma “fraude”. A 80 dias das eleições, outros preferem se prevenir contra os perigos da abstenção, e tentam mobilizar o público, sem perder a oportunidade de construir, com o esforço de todos os opositores, “um novo país, com um novo governo”.

A megaeleição marcada para o dia 20 de maio pode conduzir o país a um panorama de depuração das lideranças políticas dentro da oposição, mas também favorece esse mesmo efeito dentro do chavismo. A reprogramação sugere que o oficialismo entende a necessidade de entregar concessões para poder garantir a governabilidade.

Este deve ser entendido como um complicado processo de negociação política, que ajudará Maduro a unir a votação presidencial com a dos conselheiros municipais e estaduais, permitindo reforçar as bases do chavismo (inclusive as descontentes com sua gestão), que participarão ativamente da campanha eleitoral.

Maduro parece prisioneiro da legitimidade que poderia lhe outorgar a chamada comunidade internacional, sobretudo devido a uma situação econômica, financeira e petroleira dramática, e necessita diminuir as críticas globais contra si em uma eventual vitória chavista, especialmente se os observadores da ONU avaliam o processo eleitoral, que fragmentará ainda mais a oposição, e que posicionará as novas lideranças e partidos como referentes de um novo processo de negociação política.

Nestes escassos três meses até a megaeleição, a cidadania necessita conhecer as propostas dos candidatos para solucionar a devastadora crise multidimensional que destrói o país. A socióloga Maryclén Stelling assegura que as pessoas querem cifras, planos, medidas, compromissos, prazos e resultados, mas sobretudo querem diálogo, negociação e acordos que abram passo ao reconhecimento do outro, à paz e à convivência em democracia. Porém, a crise esperará até as eleições para que as soluções sejam encontradas?

(*) Aram Aharonian é jornalista e comunicólogo uruguaio, fundador do canal TeleSur e presidente da Fundação para a Integração Latino-Americana (FILA)