“O heróis e mártires da revolução sandinista na Nicarágua não merecem que sua memória seja manchada pelos atos genocidas de um ditador que os traiu. As vítimas de Ortega e Murillo merecem justiça”.
Ernesto Cardenal

Alfonso Gumúcio*

É um filme que nunca chega ao fim e as cenas mais escabrosas se repetem uma e outra vez sem que se possa deixar de vê-las, como a tortura visual a que é submetido o personagem de Malcolm McDowell em “Laranja mecânica”. Assim vejo agora as imagens da Nicarágua, e dói.

Somoza e sua família eram donos de meios de informação e de empresas, controlavam com mão de ferro o aparato militar que teve que ser desmontado com o triunfo da Revolução Sandinista. A década de 1980 foi muito dura por causa do bloqueio e da agressão do governo dos Estados Unidos que não só se negou a comercializar com a Nicarágua, mas converteu Honduras em uma espécie de porta-aviões pronto para atacar, e contribuiu com dinheiro e armas para a formação dos tristemente célebres “contras”, mercenários nicaraguenses que organizaram uma contra guerrilha que enlutou uma a uma a todas as famílias nicaraguenses.

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É uma dor particular porque tive a sorte de viver o início da Revolução Sandinista no começo de 1980, poucos meses depois da derrocada e da fuga precipitada de Somoza para o Paraguai. Estive na praça no dia em que foi lançada a Campanha de Alfabetização. Eram outros tempos: a direção colegiada da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) era então exemplo de juventude, integridade, honestidade e compromisso para devolver ao país a dignidade que o ditador tinha arrebatado.


Com o apoio de Jaime Balcázar, que estava em  Manágua como Representante das Nações Unidas, tive a oportunidade de colaborar como consultor de Henry Ruiz, Ministro do Planejamento, mais conhecido como “Modesto”, um dos nove Comandantes da Revolução que compartilhavam a direção colegiada do FSLN, representando as três tendências que haviam lutado durante a guerra de guerrilhas contra Somoza: três da Guerra Popular Prolongada (GPP), três da corrente Proletária e três da tendência Terceirista.

Apesar das dificuldades, era uma época de entusiasmo. Todos davam o melhor de si mesmos para sustentar o processo revolucionário que ainda não mostrava as ambições pessoais de Daniel Ortega. A comunidade de bolivianos era pequena, mas se fazia notar sobretudo nas artes: Luis Ramírez (arquiteto), Marisol Barragán (cineasta), Antonio Peredo (jornalista), Álvaro Montenegro (músico), entre outros.

Meu trabalho era na Central Sandinista de Trabalhadores (CST), onde criamos a Oficina de Cine Super 8. Menciono isso por um fato específico: mostrei aos meus alunos fotos das milícias do MNR em 1952 e eles encontraram um paralelo com o que estava acontecendo nesse momento na Nicarágua: um povo em armas. No entanto, eu disse a eles: “não tenham ilusões porque esses processos não são eternos, se a gente se descuida, eles se desviam”. Não acreditaram, estavam muito seguros de que sua revolução seria para sempre.

Barricada de jovens na cidade de León, Nicarágua.

Ungido novamente como presidente em 2007, Ortega pactuou com a extrema direita de Arnoldo Alemán, com a igreja reacionária de Monsenhor Obando e Bravo e com os “contras”, incrustados na Polícia Nacional que agora reprime os estudantes.Não foi, é claro. A ambição de poder foi dominando cada vez mais Daniel Ortega e o foi separando de outros Comandantes da Revolução (os nove), dos poucos que não participaram na “piñata” e que se afastaram dos autoritários irmãos Ortega. Modesto foi desses poucos, da mesma forma que o Comandante Luís Carrión, hoje acérrimos opositores. Também entre os Comandantes Guerrilheiros (cerca de 50), houve dissidências importantes: Doris Tijerino, Dora María Téllez, Mónica Baltodano, e outros.

Em dois meses, há 164 pessoas assassinadas e muitas mais torturadas, presas ou desaparecidas. Daniel Ortega deixou para trás todos os ideais do sandinismo. Só resta um discurso de impostura para aferrar-se ao poder com sua mulher, Rosario Murillo, no cargo de vice-presidenta, e seus filhos donos dos principais canais de televisão e inumeráveis empresas. Nem Somoza havia se atrevido a tanto.

A quinta-feira, 14 de junho, foi um dia crucial para a Nicarágua: todos os setores sociais contrários à ditadura de Ortega-Murillo se uniram em uma greve nacional que paralisou completamente o país: estudantes, empresários, transportistas, entidades religiosas e de direitos humanos, e todos os que consideram que está na hora de Daniel Ortega e Rosario Murillo deixarem o poder.

Não foi apenas a resistência civil auto convocada, mas também Ortega que usou todos os recursos de violência que tem sob seu controle: paramilitares, censura da mídia e outros mecanismos. O regime conseguiu bloquear durante várias horas o site do emblemático diário La Prensa que foi fundado e dirigido por Pedro Joaquín Chamorro em sua luta contra a dinastia Somoza. La Prensa continuou informando através de suas páginas nas redes virtuais.  O que pudemos ler naquela quinta-feira dói: mais jovens assassinados, inclusive um coroinha da Catedral de León, Sandor Dolmus, com um tiro no peito.

Não passa um só dia sem que a violência viole o limite de toda a humanidade. Uma família inteira morreu carbonizada porque se negou a emprestar sua casa para que paramilitares franco-atiradores se instalassem ali para disparar contra o povo. Diante da negativa, esses assassinos incendiaram a casa.

Ortega tornou-se incômodo para os Estados Unidos, embora anteriormente tenha recebido apoio da potência do Norte. Agora parece que já está buscando uma maneira de sair da Nicarágua que preserve sua segurança pessoal e de sua família próxima, e se sabe que está negociando uma saída com enviados dos Estados Unidos. Como todos os ditadores derrotados, fugirá para um país onde não possa ser alcançado pela justiça. Mas em algum momento a justiça o alcançará, como aconteceu com Somoza.

*Colaborador de Diálogos do Sul, de La Paz, Bolívia