A próxima eleição presidencial mexicana, marcada para 1º de julho deste ano, coincide com os 50 anos do Massacre de Tlatelolco, que ocorreu em 2 de outubro de 1968, considerado “a expressão máxima de um Estado autoritário, da prática repressiva em nome da hegemonia priista” e “um dos episódios mais tristes da história mexicana”, diz a historiadora Larissa Jacheta Riberti.

Wagner Fernandes de Azevedo, no IHU On-Line

Larissa Riberti
Larissa Riberti fala sobre o Massacre de Tlatelolco | Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com a historiadora, no atual contexto eleitoral, em que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) do atual presidente Enrique Peña Nieto voltou ao poder em 2012, depois de ter governado o país entre 1929 e os anos 2000, “ativar a memória sobre o Movimento Estudantil de 1968 e o Massacre de Tlatelolco é uma ação importante para que possamos promover debates sobre o que representou a mobilização daquele momento e suas críticas a um modelo político e partidário que, já naquela época, encontrava-se esgotado”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, a historiadora frisa que “há uma oposição social muito grande ao velho partido, mas até hoje não se conseguiu aprovar nas urnas um projeto de Estado mais progressista ou à esquerda. Dentre as causas estão as fraudes eleitorais, o grande número de abstenções (reflexo também da descrença do mexicano em relação ao sistema político) e a atuação de classes empresariais hegemônicas que manipulam a opinião pública e apoiam candidatos que possam representar seus interesses”.

Larissa Riberti também relembra as manifestações sociais de 1968, que uniram estudantes secundaristas e universitários, classe trabalhadora, políticos e intelectuais, e adverte: “Nesse contexto de 50 anos de 1968, uma das tarefas é a de não se esquecer os que foram os perpetradores da repressão, os herdeiros dessa classe política hegemônica e como eles ainda atuam dentro do ordenamento institucional”.

Larissa Jacheta Riberti é graduada em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestra e doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pós-doutoranda em História na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sua dissertação trata da história e da memória do movimento estudantil de 1968 no México e sua tese analisa o processo de transição à democracia e a implantação de mecanismos de justiça transicional no país. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre os movimentos armados rurais e urbanos atuantes no México entre as décadas de 1960 e 1980.

Confira a entrevista:

IHU On-line: De que forma as versões da História, a historiografia, sobre o Massacre de Tlatelolco são relevantes para a compreensão das mobilizações mundiais em 1968?

Larissa Jacheta Riberti: Existe uma necessidade de deslocar o eixo de entendimento sobre o ano de 1968 da Europa para o resto do mundo. Ou seja, uma necessidade de “deseuropeizar” a compreensão sobre aquele momento. Isso não significa ignorar ou desqualificar a produção Europeia, sobretudo francesa, do ano de 1968 e das manifestações que ocorreram naquela época, e sim atentar para a produção bibliográfica em geral. Em outras palavras, considerar textos acadêmicos, mas também a expressão das memórias, a produção cultural sobre o ano de 1968 em outras partes do mundo, como América Latina, leste europeu, China e África.

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Com relação à historiografia sobre o 68 mexicano, é preciso considerar que ela é integrada por distintos gêneros. Ou seja, é uma bibliografia composta de estudos acadêmicos (teses, dissertações, monografias), relatos pessoais, escritos biográficos e obras que mesclam trajetórias de ex-líderes do movimento estudantil com a reconstrução histórica dos acontecimentos daquele momento. Nesse sentido, a produção historiográfica sobre o 68 mexicano está muito imersa na subjetividade das experiências vivenciadas pelos próprios estudantes. Experiências essas que têm ligação com o contexto internacional, mas que nos falam muito sobre as condições políticas, econômicas e socioculturais do México de então. Ao mesmo tempo, o grande número de trabalhos acadêmicos sobre o tema nos dá um panorama mais amplo de objetos como as ideologias, as estratégias e os objetivos da mobilização estudantil mexicana.

Considerando tudo isso, na minha opinião, a grande contribuição dessa historiografia, que é muito diversa em suas características, é apresentar e discutir uma mobilização estudantil que, apesar de inserida num contexto muito amplo de movimentos de contestações numa escala mundial, possuía especificidades importantes e que refletiam a própria construção política mexicana e o esgotamento de um modelo de governo, de um projeto de Estado, levado a cabo pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI).

O movimento estudantil de 1968, enquanto momento histórico e objeto da própria análise histórica, era o reflexo de uma América que dialogava com o mundo, mas que ao mesmo tempo tinha demandas sociais internas que precisavam ser atendidas de maneira urgente. Por isso, de maneira geral, há um esforço muito grande dos pesquisadores para incluir o tema do 68 mexicano nos debates mais tradicionais sobre o momento. Nesse sentido, a experiência mexicana é muito importante para ampliarmos nossa compreensão sobre o ano de 1968 e sobre as características desse momento histórico, deslocando nosso olhar para produções advindas de espaços não hegemônicos e que também foram considerados “periféricos”.

Como se caracterizava a sociedade mexicana da década de 1960?

Larissa Jacheta Riberti: O México do ano de 1968 era uma sociedade que apresentava muitas desigualdades. Ao passo que os estudantes de universidades como a Universidade Nacional Autônoma do México (Unam) advinham de uma classe média cuja ascensão social havia sido possibilitada por mudanças econômicas suscitadas no período do chamado “milagre econômico” — que abriu a economia mexicana para os investimentos e a entrada de capital estrangeiro —, o país convivia com um intenso êxodo rural e aumento da desigualdade social. Essa realidade havia sido consequência dos modelos de gestão econômica e social colocados em prática pelos presidentes do PRI que priorizaram uma política econômica voltada para a ampliação das indústrias e o desenvolvimento urbano, sobretudo a partir da década de 1940.

Nas zonas rurais, por outro lado, as populações camponesas e indígenas sofriam constantemente com a marginalização e a exclusão de suas demandas das decisões políticas. Esses grupos careciam de políticas públicas, de uma reforma agrária plena que lhes conferisse não apenas o direito a ocupar produtivamente as terras, mas que garantisse sua participação no mercado e que impedisse o controle da produção agrícola e da distribuição de recursos naturais e econômicos por parte dos latifundiários. Essas eram, portanto, populações excluídas e que viviam à margem daquele desenvolvimento econômico e social verificado nos grandes centros urbanos. Tal realidade causaria uma migração em massa de camponeses e indígenas para algumas capitais, sobretudo para a Cidade do México. Além do desemprego, tais populações foram acometidas pela pobreza, pela falta de estrutura em termos de moradia, saneamento básico, acesso à saúde e à educação, e ficaram ainda suscetíveis ao preconceito e ao racismo.

A década de 1960 também foi um momento de grande mobilização das classes trabalhadoras. Desde o fim do movimento ferroviário, uma das maiores greves de trabalhadores já registradas no país e que acabou sendo duramente reprimida em 1958, sindicatos, grêmios e associações de categorias profissionais organizaram-se para reivindicar maior participação política, melhorias nas condições de trabalho e fim da repressão aos seus movimentos. Dentre eles se destacam, por exemplo, o movimento médico e o movimento de professores, este que, no início de 1960 já discutia questões como a falta de autonomia universitária e problemas na legislação trabalhista.

No campo, as mobilizações também se faziam presentes, como o caso da Asociación Cívica Guerrerense, uma organização sindical criada em 1959 que reuniu líderes e trabalhadores indígenas camponeses para reivindicar as questões de terra e autonomia produtiva, além de denunciar e combater as repressões e crimes cometidos pelos latifundiários do estado de Guerrero e as arbitrariedades do então governador Raúl Arturo Caballero.

O México da década de 1960 convivia, portanto, com essas desigualdades extremas. Ao mesmo tempo, faziam-se presentes inúmeros movimentos e organizações de contestação e resistência. A explosão demográfica das cidades naquele momento era a consequência imediata de um “milagre econômico” relativo e excludente que, por outro lado, tinha impactos nada favoráveis às populações camponesas e indígenas. Obviamente, os centros de educação superior não se isentariam de discutir tais problemas e as questões sociais mais urgentes.

Massacre de Tlatelolco
Massacre de Tlatelolco: Participantes detidos por militares e colocados em linha no corredor entre a Igreja de Santiago Tlatelolco e a antigua sede da SRE.

Quais influências externas incidiram no movimento estudantil mexicano em 1968?

Larissa Jacheta Riberti: É inegável que a mobilização estudantil de 1968 no México é também parte de um grande mosaico de manifestações que aconteceram no mundo todo. O maio parisiense, a primavera de Praga, as lutas guerrilheiras por toda América Latina, as mobilizações nos Estados Unidos, a contracultura e as manifestações por liberdade de expressão e sexual foram fatores que impactaram a vida dos estudantes mexicanos daquele momento. Nem eles, nem a própria sociedade mexicana — inserida, como dito anteriormente, em seus ambientes urbanos e na lógica contraditória do “milagre econômico” — estiveram isentos dessas influências. Além das notícias sobre as mobilizações em todo o mundo, a eclosão das rebeldias, os sonhos e utopias compartilhados pela juventude, os estudantes mexicanos dividiam as referências teóricas e históricas que circulavam nos ambientes acadêmicos de outros lugares, como Paris, Estados Unidos, América Latina.

Entre os estudantes mexicanos, que não eram um grupo hegemônico, circulavam ideias e referenciais que diziam respeito à Revolução Bolchevique, à Revolução Cubana, à Revolução Cultural chinesa, sobre as críticas à Guerra do Vietnã, o apoio aos processos de descolonização. Esses estudantes liam Lenin, Marx, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro, Che Guevara. Por causa dessas referências, o movimento estudantil de 1968 no México contava com grupos maoístas, trotskistas, marxistas ortodoxos, guevaristas, dissidentes e ainda partidários do Partido Comunista Mexicano – PCM e de suas diretrizes político-programáticas, além de setores, podemos dizer, mais conciliadores e centristas.

Vale destacar que o movimento estudantil mexicano também disputava símbolos nacionais como a figura dos líderes camponeses Emiliano Zapata, Pancho Villa e do antigo presidente indígena Benito Juárez, apropriados pelo discurso supostamente nacionalista e revolucionário do PRI.

Que relação o PRI exerceu no México no século 20 e com os movimentos sociais? Quais foram as consequências de 70 anos de priismo para esses movimentos?

Larissa Jacheta Riberti: O impacto do PRI nos movimentos sociais ainda pode ser sentido. Desde sua criação, em 1929, o partido criou mecanismos para o controle e a cooptação da dissidência, buscando, assim, garantir a sua permanência no poder. Dentre essas estratégias estavam direitos “extraconstitucionais” conferidos ao Poder Executivo, por exemplo, que permitiram aos presidentes mexicanos do século 20 controlarem boa parte do Legislativo e do Judiciário nacional. Além disso, o próprio Código Penal deu o alvará jurídico e legal para a prática de medidas repressivas contra grupos e movimentos enquadrados no chamado “delito de disolución nacional”. O fim desse mecanismo de atuação repressiva da polícia e do corpo de “granaderos” (a polícia antimotins que atuou contra vários movimentos sociais) foram, vale destacar, duas das principais demandas do movimento estudantil de 1968.

O PRI também conseguiu cooptar boa parte das lideranças sindicais na época de Lázaro Cárdenas e com a criação da CTM (Central de Trabalhadores Mexicanos), que congregou as antigas estruturas de mobilização profissional e as manteve sob a vigilância do Estado. Somam-se a isso mecanismos de fraudes eleitorais, ameaças a candidatos de oposição e uma constante perseguição ao PCM, principal opositor do PRI durante boa parte do século 20.

Todas essas estratégias foram colocadas em prática a partir de manobras para ocultar o caráter repressivo e controlador da política priista. Por outro lado, nos discursos de seus presidentes se reivindicava o nacionalismo, as heranças da Revolução Mexicana e se exaltavam símbolos nacionais e populares.

Por isso, o que se atesta é que, para além do movimento estudantil de 1968, as mobilizações sociais, de caráter pacífico ou não, foram duramente afetadas por essa estrutura priista que controlou o poder por quase todo século 20. Os já citados movimentos ferroviário, de professores e médico também sofreram com as estratégias repressivas. Os movimentos estudantis de 1968 e 1971 não ficaram isentos da maneira violenta e violadora que o Estado historicamente havia lidado com a oposição. Posteriormente, essas práticas foram sistematizadas e aperfeiçoadas para a perseguição e combate às guerrilhas rurais e urbanas que surgiram no país principalmente na década de 1970.

Como se desencadeou o Massacre de Tlatelolco?

Larissa Jacheta Riberti: O Massacre de Tlatelolco de 2 de outubro de 1968 foi justamente a expressão máxima de um Estado autoritário, da prática repressiva em nome da hegemonia priista. É considerado um dos episódios mais tristes da história mexicana. E isso se dá, na minha opinião, por dois fatores principais. Um deles foi a maneira como se orquestrou a estratégia repressiva: um plano de ataque ao movimento estudantil para ser executado exatamente dez dias antes do início das Olimpíadas, o grande evento internacional e através do qual o PRI defendia o caráter democrático do seu governo e do Estado mexicano. O acordo foi feito entre o Estado Maior da Presidência com a participação de generais do exército e do Batalhão Olímpia, esquadrão especial que, naquela época, deveria garantir a segurança durante os jogos. O plano contou com a anuência do Estado, então presidido por Gustavo Díaz Ordaz e com a participação do Secretário de Governo, Luis Echeverría. A estratégia era acabar com o movimento, prender as lideranças, liquidar qualquer tentativa de reorganização.

Assista ao documentário Tlatelolco, As Chaves do Massacre (em espanhol):

A ação foi iniciada quando luzes verdes sinalizadoras provenientes de helicópteros deram a autorização para que os franco-atiradores posicionados nos edifícios que rodeavam a praça iniciassem os disparos. Logo após, vieram as balas das armas dos efetivos do exército que bloqueavam as avenidas de saída do local. Ao mesmo tempo, membros do Batalhão Olímpia executaram a prisão de todos os líderes do Conselho Nacional de Greve – órgão central do movimento – que discursavam no terceiro andar do Edifício Chihuahua.

O segundo fator é o fato de que o movimento estudantil de 1968 contava com ampla aceitação social. O caráter pacífico de sua luta — apesar das barricadas, incêndios de ônibus e estratégias combativas de luta — era bem-vindo entre a sociedade, sobretudo entre as classes médias que, como já destacado, haviam ascendido socialmente nas áreas urbanas do país naquela época. O movimento também contou com o decisivo apoio da classe intelectual, do professorado, dentre eles o próprio reitor da Unam, Javier Barros Sierra, e de outras categorias profissionais como a operária e a camponesa. Assim, tanto o caráter criminoso e violador do massacre de Tlatelolco, quanto a legitimidade da atuação dos estudantes entre a opinião pública, foram fundamentais para que o episódio fosse considerado um dos mais trágicos da história mexicana, bem como um momento de ruptura, divisor de águas, na política e na sociedade.

Quais impactos O Massacre de Tlatelolco permaneceu no movimento estudantil mexicano?

O massacre foi um duro golpe contra o movimento. Como já dito, todos os líderes do Conselho Nacional de Greve foram presos na operação de 2 de outubro. Estiveram na prisão de Lecumberri e no Campo Militar nº1 até 1971, quando foram anistiados por Echeverría, sucessor de Díaz Ordaz, numa estratégia política de “abertura democrática”. Outros estudantes foram exilados e, assim, impossibilitados de continuar atuando. Alguns setores ainda tentaram alguma mobilização, mas o movimento ficou enfraquecido. Isso se deu também porque no dia seguinte ao massacre, os veículos de comunicação de grande circulação no México deram início a uma campanha de difamação dos estudantes. Divulgaram amplamente a “versão oficial” dos acontecimentos, destacando que os estudantes haviam sido responsáveis pelo tiroteio ocorrido na Praça das Três Culturas, já que os primeiros tiros teriam, segundo essa versão, sido disparados por “franco-atiradores” ligados ao movimento e que se encontravam nos telhados dos edifícios que rodeavam a praça.

A falsa versão só seria de fato disputada e contestada após a saída dos ex-membros do movimento estudantil da prisão e o retorno dos exilados. Os arquivos sobre esse tema só seriam abertos décadas mais tarde e, só no final dos anos 1990, os primeiros estudos acadêmicos sobre a Operação Galeana — como foi chamado o operativo de 2 de outubro de 1968 —, e com base nesses arquivos, foram publicados.

Para além do próprio movimento estudantil, que não conseguiu se rearticular após o massacre de Tlatelolco, podemos dizer que houve uma cisão entre as lideranças estudantis naquele momento. Em cidades como Guadalajara, Cidade do México e Nuevo León, começaram a surgir nos anos 70 grupos radicais conformados por estudantes e que reivindicavam a luta armada e a clandestinidade, numa declarada oposição às estratégias pacíficas da “geração” de 1968. O desenvolvimento desses grupos conformaria guerrilhas urbanas que foram duramente perseguidas e reprimidas pelos governos priistas até o final da década de 1980.

Como se trabalha a memória do Massacre de Tlatelolco na política mexicana? Que sujeitos a sustentam?

Larissa Jacheta Riberti: A memória do movimento estudantil e do massacre de Tlatelolco tem sido sustentada sobretudo pelos ex-líderes do Conselho Nacional de Greve e participantes das mobilizações. São eles as vozes mais privilegiadas no espaço público. Eles detêm de uma legitimidade na opinião pública que é possível identificar até os dias atuais. Um deles, Raúl Álvarez Garín, faleceu recentemente e encampou uma série de iniciativas para se rememorar aquele momento. Esteve à frente do Comitê 68, órgão que, até hoje, lidera as marchas de 2 de outubro e é um dos principais organismos civis em nome da memória e da justiça. Para além desse caso em específico, temos também a produção de uma série de obras de antigos membros do movimento que fazem parte da historiografia sobre o tema e que falam sobre a memória construída por esses agentes sobre suas próprias experiências. No âmbito civil e público, não foram poucas as manifestações, debates e iniciativas para se rememorar o ano de 1968. Existe um monumento na Praça das Três Culturas, inaugurado em 1993, que homenageia algumas das pessoas que morreram durante o massacre.

Em 2008, a Unam inaugurou o Memorial de 1968, uma exposição permanente no Centro Cultural Universitário Tlatelolco, num espaço junto ao prédio do Ministério das Relações Exteriores, na Praça das Três Culturas. A exposição exibe cartazes, livros, imagens, documentos e disponibiliza uma série de entrevistas com ex-membros do movimento estudantil e intelectuais mexicanos que buscam promover a memória sobre esse passado.

Oficialmente, o 2 de outubro é considerado luto nacional desde 2008. Existe também uma classe política, sobretudo de partidos mais de esquerda e de centro, que se considera “herdeira” das reivindicações dos estudantes de 1968, da democratização do Estado. Por isso, não é raro ouvir em discursos e em sessões do Congresso Nacional referências a esses estudantes e sua luta. No entanto, é verdade também que oficialmente, com exceção da Fiscalía Especial, criada por Vicente Fox em 2001, e dos trabalhos realizados pela Comissão Nacional de Direitos Humanos, muito pouco foi feito em nome da responsabilização pela matança de 2 de outubro. No geral, portanto, a promoção da memória e a luta pela justiça tem ficado a cargo de organismos civis de direitos humanos, de familiares de vítimas e de ex-líderes e membros do movimento estudantil de 68.

Como aconteceu a justiça de transição no México?

Larissa Jacheta Riberti: O debate sobre o processo de transição mexicana é extenso e não há um consenso sobre quando ele foi iniciado e se ele realmente terminou. Eu acredito que as lutas sociais da década de 1960, e nesse contexto inserida a dos estudantes em 68, foram um conjunto de acontecimentos que determinou o início desse processo. No entanto, é preciso também considerar que as guerrilhas rurais e urbanas que começaram a aparecer na sociedade mexicana desde meados da década de 1960 também exerceram um papel fundamental de opositores ao governo. Ao contrário da luta estudantil de 1968, que pregava reformas no sistema político, participação efetiva e fortalecimento da democracia, as guerrilhas propunham a derrubada do sistema e sua substituição por um novo modelo. Eram um perigo ao establishment mexicano, aos grupos empresariais, e à elite política priista. Na minha percepção, portanto, é preciso inserir também os movimentos guerrilheiros – em geral bastante obscurecidos pelo protagonismo exercido pelo movimento estudantil de 1968 — nesse debate sobre a transição mexicana e reconhecer seu protagonismo nesse processo.

De fato, a transição só alcançaria seu “ápice” com a eleição de Vicente Fox, do Partido Ação Nacional (PAN), em 2000. Ela foi o resultado de uma forte aliança entre setores de centro-direita e da esquerda mexicana. O voto útil, foi assim a estratégia que reuniu as lideranças políticas em nome da transição. A transição à democracia no México foi um processo votado, endógeno, mas que não representou a substituição de boa parte da classe política nacional que, em espaços como Câmaras Municipais e Congresso Nacional, ainda estava fortemente atrelada ao PRI.

Em suas campanhas, Vicente Fox prometeu criar uma comissão da verdade para atender aos anseios de organismos civis de direitos humanos e familiares de vítimas que demandavam a investigação dos casos de assassinato, perseguição, tortura e desaparecimento de guerrilheiros nas décadas passadas. Era urgente, portanto, iniciar processos de investigação desses casos e atribuir responsabilidades aos perpetradores, muitos deles ainda vinculados ao Estado, ao exército e às corporações policiais.

Já no poder Vicente Fox não criou uma comissão da verdade, pois tal proposta desagradou à grande maioria do corpo legislativo ligado ao PRI e cujo apoio Fox necessitava para aprovar outras reformas empreendidas por seu governo. O novo presidente optou por criar a Fiscalía Especial para Movimientos Sociales y Políticos del Pasado (Femospp). Foi uma espécie de corregedoria, sob responsabilidade da Procuradoria Geral da República, na época chefiada pelo militar Rafael Macedo de la Concha. O modelo de Fiscalía Especial é conhecido no México e pouco acreditado pela população, já que experiências anteriores com esse tipo de órgão investigativo não tiveram resultados satisfatórios.

A Femospp foi, então, o instrumento de justiça de transição do Estado mexicano que pretendeu investigar os crimes contra os movimentos de 1968 e 1971, bem como contra as guerrilhas que atuaram entre as décadas de 1960 e 1980. Teve um caráter sobretudo jurídico, mas esbarrou em muitos obstáculos como a falta de vontade política em levar adiante as investigações, um ordenamento jurídico ainda muito conservador quanto à agenda de proteção e promoção dos direitos humanos, a falta de confiança de setores da sociedade civil, como as organizações de familiares de vítimas e as contradições da gestão foxista em nome da governabilidade. O organismo iniciou processos investigativos, mas não resultou na condenação dos perpetradores de violações aos direitos humanos.

No entanto, o grupo de investigação histórica da Femospp conseguiu produzir um informe bastante importante, cuja narrativa dá conta de explicitar os mecanismos repressivos e agentes repressores do Estado que atuaram nesses diferentes episódios. Para alguns, o informe carece de validade. Desde a minha perspectiva, porém, que analisei seu conteúdo pensando-o enquanto objeto da história, ele é um importante instrumento para se verificar como o Estado mexicano construiu sua própria história, marcada por violências, massacres e violações aos direitos humanos. É inegável que há um reconhecimento muito claro dessas práticas repressivas, de sua sistematização e do impacto social das mesmas. Essa é uma das contribuições mais importantes do informe produzido pela Fiscalía. Esse pode ter sido um dos motivos, por exemplo, de tal informe ter sido ocultado pelo próprio governo do PAN, que não promoveu sua difusão de maneira ampla quando ele foi publicado, em 2006. Desde então e nos dias atuais, não é possível encontrar uma cópia oficial do Informe, não existe um site que reúna os documentos produzidos pela Femospp e esse fundo documental está “perdido”. O debate sobre o assunto é muito mais amplo e existem muitos detalhes e discussões sobre a atuação da Fiscalía e o papel do Informe Histórico. Ele ainda carece de atenção por parte da academia e da sociedade.

A história mexicana é marcada por assassinatos e golpes políticos. Porém, a violência contra o movimento estudantil, como a repressão na Plaza de Tlatelolco, El Halconazo, em 1971, e o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, em 2014, pode ser considerada característica da política mexicana?

Larissa Jacheta Riberti: Existe uma continuidade muito clara das práticas repressivas no México, o que não significa que o México seja uma sociedade cuja característica principal é “uma cultura da violência” partilhada por todos. O que se verifica no país é uma estrutura política baseada na manutenção do poder a qualquer custo. A hegemonia priista foi mantida com base em uma série de mecanismos, legais e ilegais, que facilitaram sua permanência no poder por décadas.

O caso do desaparecimento dos estudantes de Ayotzinapa é uma prova da continuidade dessas práticas. Vale lembrar que esses estudantes pertenciam à Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, situada numa região de antigos conflitos rurais entre latifundiários e poder local contra populações indígenas camponesas. Atualmente, a região de Ayotzinapa, assim como todo o estado de Guerrero, ainda sofre com a expansão dos cartéis narcotraficantes e suas relações com o poder institucional. Esta Escola Normal, assim como várias outras com esse mesmo caráter, tem como projeto educacional a luta pela terra e pela autonomia produtiva, a promoção das tradições indígenas e camponesas. Pela escola de Ayotzinapa passaram nomes como Lucio Cabañas, professor normalista que se tornaria o líder guerrilheiro do Partido de los Pobres, cujos membros atuaram clandestinamente na região da Serra de Atoyac na década de 1970.

O que eu quero dizer é que esses estudantes de Ayotzinapa cumpriam um papel político e reivindicavam suas antigas lideranças. Eram herdeiros de Cabañas e Zapata na luta pela terra e incomodavam as estruturas hegemônicas de poder. Foram reprimidos quando se dirigiam justamente à marcha de 2 de outubro que aconteceria na Cidade do México. Seu desaparecimento deriva do fato de que esses estudantes passaram pela cidade de Iguala e pretendiam fazer uma intervenção à cerimônia de apresentação do Informe de Governo do então prefeito da cidade, ocasião que também serviria para lançar a candidatura de sua esposa à prefeitura. Ambos eram acusados de ligação com o narcotráfico.

O desaparecimento dos 43 estudantes foi fruto de uma manobra estatal e dentre os responsáveis figuram não apenas o prefeito da cidade de Iguala e sua esposa, mas também o secretário local de segurança, policiais e narcotraficantes. O caso revela a triste continuidade das práticas repressivas por parte do Estado, que resultam em perseguições, assassinatos, desaparecimentos, ou seja, violações permitidas por uma impunidade que se perpetua.

As eleições deste ano coincidem com os 50 anos do Massacre de Tlatelolco. Em que medida o evento é relevante para a oposição ao PRI?

Larissa Jacheta Riberti: O PRI voltou ao poder em 2012, com a eleição de Enrique Peña Nieto numa disputa contra Andrés Manuel López Obrador. Na época, houve uma série de denúncias de compra de votos que havia sido executada dias antes das eleições pelo PRI. Há uma oposição social muito grande ao velho partido, mas até hoje não se conseguiu aprovar nas urnas um projeto de Estado mais progressista ou à esquerda. Dentre as causas estão as fraudes eleitorais, o grande número de abstenções (reflexo também da descrença do mexicano em relação ao sistema político) e a atuação de classes empresariais hegemônicas que manipulam a opinião pública e apoiam candidatos que possam representar seus interesses.

Nesse sentido, ativar a memória sobre o Movimento Estudantil de 1968 e o Massacre de Tlatelolco é uma ação importante para que possamos promover debates sobre o que representou a mobilização daquele momento e suas críticas a um modelo político e partidário que, já naquela época, encontrava-se esgotado. É importante para que sejam retomadas as discussões sobre as utopias, os sonhos e as estratégias de luta daqueles estudantes. Esse é um exercício imprescindível de se conhecer o passado para mudar o presente.

Nesse sentido, devemos entender que o movimento de 68 não se resume a tragédia do Massacre de Tlatelolco. Ele foi amplo e representou uma mobilização que se fazia presente desde julho de 1968. Uniu estudantes secundaristas e universitários, classe trabalhadora, política e intelectuais. O movimento continha uma série de demandas, seus membros atuavam politicamente e disputavam os espaços públicos. Ou seja, entender o 68 mexicano não se resume a debater a violência do Massacre de Tlatelolco.

Não podemos cair no erro de sacralizar a luta ou vitimizar os protagonistas daquela época de maneira a marginalizar o caráter político de suas reivindicações, ainda que seja preciso denunciar a violência e as violações cometidas naquele momento. Nesse contexto de 50 anos de 1968, então, uma das tarefas é a de não se esquecer de quem foram os perpetradores da repressão, quem são os herdeiros dessa classe política hegemônica e como eles ainda atuam dentro do ordenamento institucional.

Fazer um debate sobre o 68 mexicano é imprescindível para que, 50 anos depois, possamos conhecer de fato quem são os representantes políticos interessados em atender as demandas pendentes sobre aquele momento, como a justiça, a promoção da memória e da verdade e a não repetição das violações.