Um novo partido de esquerda surgiu na Argentina no ambiente político estimulado pelo Movimento Popular “La Dignidad” (MPLD) e pela Corrente Villera Independiente, entre outros. Trata-se da Izquierda Popular, cujo lançamento oficial ocorreu há pouco mais de um mês na fabrica recuperada IMPA. Nos últimos dias, a Izquierda Popular tem realizando uma forte campanhá publicitária na rede de metrô de Buenos Aires e também por meio de caminhonetes com megafones que percorrem o centro da cidade e a Grande Buenos Aires. Para saber um pouco mais sobre as aspirações do novo partido, o site Resumen Latinoamericano entrevistou Rafael Klejzer, dirigente da MPLD e da Central de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP).

Por Carlos Aznárez*

O que é a Izquierda Popular? Por que o Movimento Popular La Dignidad e as outras organizações que até agora construíam a luta social decidiram se lançar na disputa eleitoral?

Acreditamos que a decisão política não é dar um salto para o político ou ir do social ao político, e sim entendemos que é uma frente e mais uma trincheira. Decidimos que é parte das tarefas que nos cabe como organização que pretende contribuir com um processo emancipatório. O déficit das organizações sociais e populares é que aspiram às eleições e não a chegar a um posicionamento político, programático, para além da organização. Ou seja, que viemos de muitos anos de luta e de construção e quando chegam as eleições, não temos a quem propor para votar ou acompanhar.

Acreditamos que não deve haver mais uma mediação entre o Estado e os setores populares com políticos de fachada. No poder legislativo da cidade de Buenos Aires há 60 legisladores que se colocados numa esquina e se perguntar, os transeuntes não os conhecem. Não conhecem cinco sequer. Além disso, nenhum deles é da economia popular, nenhum deles é favelado. 10% da população de Buenos Aires vive em favelas e não há nenhum favelado no legislativo. Nós apostamos em uma nova mediação, a de fazer as próprias políticas institucionais, ou seja, questionar se estão discutindo propostas de políticas públicas e sem nenhuma intermediação.

Por outro lado, vemos que simbolicamente na Argentina, a esquerda é a esquerda do FIT (Frente de Esquerda dos Trabalhadores), a esquerda trotskista que simbolicamente representa a esquerda. Aqui há um problema e nós apostamos que há outra esquerda que não é a esquerda liberal, a esquerda que propõe a sindicalização da polícia, a sindicalização da prostituição, que há uma esquerda em nossa corrente que é uma esquerda popular, que não é gorila, uma esquerda unida. Buscamos com os coletivos, com os agrupamentos, fazer uma proposta política, com um programa de combate, um programa guevarista, de independência e com uma ponte ao que é o nacionalismo revolucionário, que eleitoralmente não tem uma proposta política. Nós apostamos nisso. Quem nas eleições  se anima a reivindicar os revolucionários dos anos 1960 e 1970? Quem nas eleições se anima a reivindicar o método de luta por piquetes como próprio da classe trabalhadora? Quem nas eleições propõe solidariedade com o povo bolivariano, com o povo venezuelano? Ninguém. Então o que propomos é que isso leve a um programa de libertação nacional, que se aproveite as eleições como tribuna para politizar os setores populares e os trabalhadores.

Se nos mantermos no nosso setor não será possível porque não dá para pretender ver em cada mobilização uma futura insurreição. Queremos trabalhar para a insurreição, mas de nada serve mentir para as pessoas de que cada marcha, cada luta é uma porta para a insurreição. Para nós, há que trabalhar não somente por uma reivindicação e um programa mínimo de governo e ir mobilizando as pessoas nas ruas. Há que saber que tem que ir para a rua, que tem que ter propostas políticas e entender porque o mais conservador do liberalismo triunfou nas eleições democráticas na Argentina. Tudo isso se faz com uma plataforma política. Queremos aproveitar o parêntesis eleitoral que se abre na Argentina para intervir politicamente. Também é uma questão defensiva porque os velhos manuais de intervenção territorial já não servem nesta nova relação de dominação que há no território. É preciso ir com formas novas de intervenção e uma das formas é a visibilidade. A fórmula é a unidade, é trabalhar em rede.

Vocês se antecipam em oferecer um canal para os que não se decidiram sobre a questão eleitoral possam ter uma plataforma para vincular-se ao processo?

Sim, claro.

Qual o limite da unidade que o partido se propõe?

É a aceitação de um programa. Os kirchneristas que estavam socialmente organizados em movimentos são os que estão se aproximando.

Esta é uma tarefa enorme. Ter representação nos 120 distritos de Buenos Aires e na Capital Federal onde já está a partidocracia e se põe de acordo. De fato, nós tivemos o nome de Izquerda Popular impugnado na justiça por parte do FIT. Não foi o imperialismo, foi o FIT que impugnou nosso nome porque diz que os nomes esquerda popular e esquerda dos trabalhadores são parecidos. Além disso, eles dizem que sãos os únicos de esquerda. É muito engraçado.

Então, sim, há uma aproximação de muitos movimentos e agrupamentos, grupos da CTEP que veem a possibilidade de debate, que não estão satisfeitos em organizar companheiros no território e sair à luta; que acham que tem que ter um programa. Isso serve para discutir um programa e levá-lo para a luta. Não há projetos políticos num país sem uma força social que o acompanhe e que o leve adiante. Não estamos com essa ideia de que a luta por um lado e a política institucional por outro, como por exemplo, quando dizem que Evo Morales não participou da Guerra da Água e que depois, sem ter participado, acaba por capitalizar tudo. O que não contam é que Evo e seus companheiros vêm de anos e anos de luta. É o reformismo que tende a separar a luta política do Palácio e nós afirmamos que: ou no Palácio entramos todos, ou não entra ninguém.

Símbolo da amplitude que propõem poderia ser Evita e o Che Guevara?

Sim, a Evita plebeia, não a Evita das instituições, sim a dos retratos nas casas dos companheiros.

Vocês como organização, não só como Esquerda Popular, mas como o conjunto de organizações que a compõem, têm bastante inserção no mundo da imigração e também na luta das mulheres. Como esses dois pontos se enquadram no programa do partido?

A luta feminista no país entrou na agenda como nunca. A problemática ultrapassa os programas de todas as organizações. Digamos que tem vida própria. Esse é um diferencial do partido que se acredita de vanguarda e o partido como a externalidade às frentes e aos setores. Nossa organização não vai elaborar os programas. Vamos aos setores em luta para que nos forneça esse programa histórico desses setores. Nós vimos o programa que a companheiras estão construindo e o que já esta construído e esse não é o programa da Esquerda Popular, mas o feminista, o realizado pelas companheiras lutando contra o patriarcalismo, inclusive o patriarcal de esquerda.

Por outro lado, o tema da imigração é um tema quotidiano para nós. É uma luta pela dignificação dos trabalhadores, sejam do país que sejam, está muito enraizada na construção política quotidiana. Nossa organização se baseia na organização por comunidades, onde os moradores propõem o que desejam reivindicar e a organização, por origem, funciona como a velha sociedade de resistência. É o exemplo de companheiros como César Méndez, recentemente assassinado em Moreno, e é a comunidade peruana defendendo-se dos “soldaditos” (capangas dos narcotraficantes) que ocupavam as casas e expulsavam os moradores. Neste caso, a comunidade peruana tinha se organizado para se defender entre eles. Então, há uma forte característica de defesa, mas também o que temos que dizer é que há um grande nível de solidariedade entre as comunidades nos bairros, entre os paraguaios e os bolivianos ou os peruanos. Sem essa solidariedade, não teriam resistido a tantos anos de discriminação, de opressão, o que potencializa toda a prática política, porque também incorpora a política, a cultura, os saberes de origem de cada um dos companheiros.

A propósito disto, qual a tática que empregam para evitar que os “soldaditos” e os oficiais do narcotráfico expulsem os moradores dos bairros, sendo que esse é um tema forte que cada vez aparece mais?

A nós não nos tiram dos bairros. A diferença é que aplicamos a violência organizadamente. Por outro lado, no cone  urbano buenairense, há que dizer o seguinte: há muita diferença entre estar organizado e não estar organizado para resolver a materialidade da vida. Há muita diferença de onde tem um restaurante popular, onde tem um jardim da infância, ou a possibilidade de um trabalho, onde tem uma casa durante o dia para as crianças que estão na “fronteira”, iniciando seus primeiros passos nos vícios ou consumos problemáticos. Há muita diferença, por isso as famílias se organizam. Antes, no início dos Movimentos de trabalhadores desempregados, as mulheres eram só mulheres, agora essas mulheres estão trazendo a família inteira, porque vão com as crianças e com os jovens, fomentam os espaços para eles. Nós temos os casos dos assassinatos e os casos da localidade de Almirante Brown, onde com o fomento ao esporte e as coisas que conseguimos na CTEP, tiramos todos os “soldaditos” de um narcotraficante e agora estamos conseguindo que os “ex-soldaditos” expulsem os narcos dos bairros.

Los soldaditos geralmente não são do bairro?

Os “soldaditos” são do bairro. Eu tive a possibilidade de encontrar um jornalista do jornal El Clarín e lhe perguntei por que colocou em uma nota que era “morador contra morador”, se isso é uma guerra social. Ele disse: não são moradores? E se são moradores, inclusive há crianças que receberam apoio escolar durante 5 ou 6 anos, um projeto de vida. Conhece a história do assassinato de César? Esse jovem tinha 18 anos e um mês antes estava trabalhando na construção, renunciou porque estava sendo explorado. Foi ser “soldadito” por 3 mil ou 4 mil pesos, ou mais. Claro que saiu dali para ter um pouco mais de dinheiro, não ser explorado e não seguir os passos de seus pais trabalhadores a vida inteira, e ocorre isso: termina ocupando a casa de outro morador, em seguida, como fazem sempre, vendem, a metade vai para a polícia que “libera” a zona e provê os ferros e a outra parte vai para os traficantes do bairro. Conclusão: termina matando seu vizinho. Agora está prófugo, mas além de assassino, esse rapaz também é vítima, já que a sociedade o que diz pra ele é: consuma, consuma, consuma e depois o exclui de maneira brutal.

*Publicado originalmente por Resumen Latinoamericano