“Como “morto em combate” ia passar o Che a história das mentiras, se o jornalista Albert Brun, da Agência France Press, não tivesse visto o médico José Miranda Caso no pátio do hospital e logo ficar sabendo que ao guerrilheiro o haviam matado há algumas horas com uma rajada disparada a curta distância.  O doutor lhe mostrou o relatório forense que havia elaborado.”

Jorge Mancilla Torres*

JORGE_MANCILLAO jornalista fotografou esse documento e regressou à lavanderia do hospital de Vallegrande, onde o general Joaquín Zenteno Anaya continuava declarando à imprensa que o guerrilheiro “não quis se render” diante dos soldados “no combate de ontem na quebrada do Churo”.

A versão oficial durou dois dias, porque no dia 11 de outubro se soube que o Che tinha sido assassinado impunemente na escola de La Higuera na segunda-feira, 9 de outubro de 1967. A notícia foi publicada pela AFP assinada por Bruno correspondente franco argelino enviado à Bolívia. Teceram-se os fatos.

Che tinha sido assassinado impunemente na escola de La Higuera na segunda-feira, 9 de outubro de 1967
Che tinha sido assassinado impunemente na escola de La Higuera na segunda-feira, 9 de outubro de 1967

Ernesto Guevara caiu prisioneiro com outros três combatentes na tarde do dia 8. Seu captor, o capitão ranger Gary Prado o levou caminhando até La Higuera, onde foi encerrado em uma sala da escola. Nessa mesma noite foi atacado a socos pelo cubano Félix Rodríguez, um agente da CIA. O Che inerme e manietado cuspiu-lhe na cara, e ele o atacou. Eduardo Huerta Lorenzetti, encarregado de vigiar o prisioneiro, separou-os com energia e o cubano caiu no chão. “Índio de merda, você já vai saber quem sou eu”, lhe gritou Rodríguez.

Às seis da manhã do dia 9 entrou na sala a professora Julia Cortez, amiga do tenente Panozo, para insultar o Che por “invasor”, mas nada pode lhe dizer porque “esse homem me falou com muito respeito dos professores que ensinamos nesses lugares abandonados”. Às 10:45 chegaram até o prisioneiro Ninfa Arteaga e Élida Hidalgo, esposa e filha do telegrafista de La Higuera, levando para ele uma sopa de amendoim “que sempre convidamos aos forasteiros”. A professora Élida, que havia tramitado a permissão militar para essa visita, vigiou a porta enquanto sua mãe dava de comer ao prisioneiro: “eu desamarrei suas mãos para que pegue a colher”, explicava a senhora.

O oficial Mario Terán matou o Che com uma rajada de 8 balas de metralhadora G-2 mais ou menos às 13:40 horas. El cadáver foi levado para Vallegrande em uma maca atada à fuselagem de um helicóptero. Na curta viagem, o vento da serrania abriu os olhos do Che e assim ficou o corpo exposto sobre um banco do Hospital Señor de Malta.

Seriam as quatro da tarde, quando Graciela Rodríguez, lavadeira do hospital, em atitude espontânea limpou com um trapo úmido o pó do peito e dos pés do guerrilheiro e às 17:15, a enfermeira Susana Osinaga aparou seu cabelo e barba com uma tesoura. Dois dias depois, ao ver o rosto do guerrilheiro na foto tirada por  Johnny Alborta disse a senhora que estremeceu porque “tinha a cara de Cristo…”

Dessas cinco mulheres que se acercaram ao Comandante, duas ainda vivem: a enfermeira reside em Vallegrande, em uma casa na frente do hotel México lindo y querido. Estas histórias foram recolhidas com dados aportados pelos cronistas cubanos Adys Cupull e Froilán González e outros pesquisadores.

Depois desse movimentando outubro vallegrandino ocorreram outros fatos que nenhuma história registra. Um meio-dia de janeiro de 1968, Miranda Caso foi crivado de tiros em um bairro de La Paz. Seu irmão Luis “el Pollo” Miranda, co diretor do vespertino Jornada, costumava contar que segundo testemunhas oculares os pistoleiros foram dois jovens “murukullus” (de cabeça raspada) que fugiram pela rua Illampu abaixo. Aquele médico forense, ao que parece, não foi avisado pelos militares que havia que dizer que o Che havia morto em combate.

No dia 9 de outubro de 1969, o automóvel guiado por Eduardo Huerta que ia de La Paz a Oruro foi chocado por um caminhão perto de Caracollo; aí morreu o ex-oficial, nascido em Sucre, que dizia que o Che lhe falou “quase toda a noite” das razões de sua luta e que por isso o queria “como um irmão mais velho”. Relatos casuais de jornalistas e políticos da época atribuíam a Arce, “el Cubo”, ministro de Banzer, o fato de dizer que quem poderia saber algo desse “acidente” era um capitão Andrés Selich, amigo e confidente do “Gato” Rodríguez em sua estadia em La Paz.

Se o jornalismo é a história imediata, muitos jornalistas não cumpriram essa tarefa nos anos setenta porque o banzerismo nos cortou os fios e fechou caminhos. Mas aí estão os fatos – e outros mais dramáticos e sangrentos -, depois de meio século da presença do Che Guevara em nosso país.

 

 

*JMT, jornalista, diplomata, poeta (Coco Manto) e colaborador de Diálogos do Sul.