As “pedaladas” são a justificativa formal, mas as ruas se encheram por outro motivo.

Flávio Tavares*

Brasília, DF, Brasil: Deputados aguardam início da sessão para votação da autorização ou não da abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no plenário da Câmara dos Deputados. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Brasília, DF, Brasil: Deputados aguardam início da sessão para votação da autorização ou não da abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no plenário da Câmara dos Deputados. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O processo de impeachment é insólito, esdrúxulo. Todos os anteriores presidentes da República usaram as mesmas “pedaladas fiscais” de Dilma Rousseff sem que, por isso, cometessem crime de responsabilidade. Por que, então, multidões foram às ruas pedindo o impedimento da presidente

A antipatia que o estilo presunçoso do PT acirrou na sociedade brasileira, ao se dizer acima de tudo e de todos, explica tudo. Quando Lula da Silva disputou a primeira eleição, em 1989, os chefes petistas pareciam ter inventado o Brasil. Só eles conheciam os problemas e a solução. Lula era um redivivo Pedro Álvares Cabral descobrindo a Nova Terra.

Essa visão mágica se multiplicou após o triunfo e passou aos militantes e eleitores, que de boa-fé os seguiram. Os chefes do PT ignoraram as lutas sociais do passado. Desprezaram, mais do que tudo, a esquerda – dos socialistas e socializantes aos anarquistas e comunistas. Faziam mofa da legislação trabalhista e da infraestrutura industrial surgida a partir de 1930. Riam com sarcasmo da visão liberal de liberdade política.

Lembram-se de 1988? Lula e demais deputados do PT não queriam assinar a nova Constituição que sepultou, formalmente, a ditadura.

Os petistas reivindicavam e denunciavam e, nisso, prestaram grandes serviços ao País. Mas não se escoraram em nenhuma doutrina política ou projeto de Estado e sociedade. Para quê? Eles eram infalíveis lutadores sociais, honestos e incorruptíveis e nos levariam à Canaã bíblica com rios de leite e mel!

No poder, porém, lambuzaram-se com outro mel.

A posse de Lula na Presidência emocionou até os que nele não votaram. O retirante nordestino mostrava que a obstinação é artífice da História. Numa República de bacharéis e banqueiros, ou num país de generais-ditadores, um trabalhador iria armar (ou tornear) um país novo.

No poder, o hábil e sagaz (mas primário) Lula copiou o que o País tinha de pior em termos éticos. Imitou a simulação política inventada na ditadura. O assistencialismo demagógico da Bolsa Família tornou-se única visão de Estado. O apelo ao consumo multiplicou o lucro dos bancos. A indústria nacional desapareceu, acossada pelas multinacionais que se lambuzaram no “dólar barato” e compraram o que era nosso. A defesa do meio ambiente foi relegada a plano secundário. O ensino superior privado passou a empresas estrangeiras com cotação na Bolsa.

O escândalo do mensalão mostrou o veneno da jararaca, mas Lula se reelegeu. Depois elegeu Dilma, que salvara o segundo mandato lulista. Mas, aí, o PT e a correta e organizada Dilma Rousseff já se haviam lambuzado na doçura da aliança com o PMDB. Michel Temer guiava o partido que reúne todas as cores, até as indefinidas.

O governo Dilma ficou nas mãos do PT e do PMDB. O vice Michel Temer, mudo acompanhante eleitoral de Dilma, chegou a coordenador político da presidente. Surgiu a “base aliada”, com 11 partidos. Mas era base alugada, ávida por ministérios e outros penduricalhos repartidos a caçadores de votos sem compromissos, a não ser a cobiça pelo quinhão do poder.

Assim, o impeachment é só um episódio isolado no contexto geral da política. Resolvida a questão, o tema se esgota, mas a política e a vida não se alteram.

Ficam os mesmos partidos, os mesmos parlamentares e chefetes, muitos envolvidos em escândalos ou denunciados por corrupção, como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que comanda a derrubada da presidente. Inertes ante os problemas da Nação, hábeis demagogos seguirão guiando o sistema partidário pelo oportunismo e pela corrupção pessoal.

Por isso, o que chama a atenção na pendenga do “sai Dilma” ou “fica Dilma” não é o resultado. O “não” ou o “sim” são apenas números em confronto. O fundamental não é, sequer, definir se as “pedaladas” são um crime de responsabilidade capaz de anular o resultado da eleição.

O umbigo está mais embaixo e o cordão umbilical é outro.

O nascedouro do caos é a degradação da política, carcomida pelo atual sistema de partidos formados por gente que se oferece à venda como produto de mercado. Os fatos dos últimos dias mostram a prostituição em curso. Em busca de vantagens, os partidos mudam de parceiro sem pudor. Com o mesmo falso deleite, afagam e se entregam hoje aos adversários de ontem, ou vice-versa. Tentam usufruir o poder como aquelas meninas de aluguel que compartem prazeres seja com quem for?

Ou o PMDB e o PP (que “desembarcaram” do governo) não formavam com o PT o trio que mandou no País desde a primeira eleição de Dilma? Ou o trio PT-PMDB-PP não comandou o assalto bilionário à Petrobras, em conluio com grandes empresas?

A quem o PT (dito de “esquerda”) havia entregue o comando tático da bandidagem na Petrobras? Ao PP de Paulo Maluf (dito de “direita”) e ao PMDB, de tudo ou de nada. Faz poucos dias, os dois eram parte do governo, com ministérios, departamentos, estatais e outras sinecuras.

Hoje, os dois armam a derrubada definitiva da presidente, capitaneados pelo vice Temer, que participou do governo e do poder e foi, até, coordenador político de Dilma Rousseff. E tudo sob a regência de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, processado por milionários subornos nas fraudes da Petrobras.

Foi reconfortante ver o povo sair à rua, externar ideias e opiniões, “sim” ou “não”. Mas sem política nem políticos confiáveis se imita o fanatismo do futebol. O ódio está em todas as partes e nas duas partes. E a intolerância tudo permite. Quanto mais cruel e sibilino for o horror, mais a cegueira fanática se regozija.

Que não seja esse o único legado do episódio do impeachment.

 

*Flávio Tavares é jornalista e escritor, prêmio Jabuti de Literatura em 2000 e em 2004 – Original de O Estado de S. Paulo cedido gentilmente pelo autor.