Enquanto pesquisadora de temas árabes e imigratórios dentro da Federação das Entidades Americano-Árabes (Fearab América), esta era a primeira vez que eu me debruçava sobre o tema da mulher e o seu papel dentro do contexto imigratório árabe.

Claude Fahd Hajjar*

A minha vivência de mais 33 anos de Fearab nas Américas tem demonstrado que um dos maiores méritos desta organização é a contínua troca de experiências entre os membros das comunidades americano-árabes e a descoberta constante de semelhanças nos percursos trilhados pelos imigrantes e seus descendentes. Neste trabalho, eu vou falar da mulher brasileira-árabe, sabendo de antemão que estas especificidades podem ser encontradas nas mulheres americano-árabes.

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Ao ser solicitado o tema “a mulher americana árabe na imigração”, eu me surpreendi do quanto eu teria que me focar, lançar um olhar do pesquisador sobre uma vivencia pessoal e particular, da minha experiência, que está registrada no meu corpo, enquanto mulher; aquele conhecimento tácito, que torna-se incorporado ao sujeito, que está impregnado nele, mas do qual não se fala dificultando assim a sua sistematização enquanto conhecimento teórico.

A pergunta que norteou o meu foco foi: qual é a especificidade da mulher, qual é a sua marca, a sua particularidade; neste início do século 21, e após a revolução de costumes à qual assistimos, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, qual foi a contribuição da mulher brasileira árabe à sua comunidade, à sua família e ao seu país.

Para responder a estas perguntas, precisei ir do particular para o geral, do espaço privado, para a contribuição da mulher no cenário público. Ao estudar uma amostragem[1]representativa, de mulheres brasileiro-árabes, pude mergulhar na história da vida cotidiana de cada uma delas e pude extrair a especificidade da mulher que persegui desde o início do trabalho: a mulher tem o dom de nutrir, agasalhar, agregar e influenciar. E ao contribuir para construir o espaço particular ela contagia o espaço macro ou público com suas ideias simples e universais, porém extraídas de sua vivencia cotidiana; ela humaniza os locais pelos quais transita e sensibiliza aqueles que a cercam no sentido da construção de um cotidiano mais produtivo e saudável.

 

A mulher ponte entre origem e destino

 

A mulher como interprete do desejo do homem e de sua família — ponte entre origem e destino. Desde os primórdios da humanidade, ao homem é atribuído o papel de caçador, de guerreiro, de desbravador, — ao homem o exterior… À mulher tradicionalmente é destinado o solo, a terra, o plantio… a prole, a casa, o lar, o fogo e tudo aquilo que aconchega e dá estabilidade e segurança, isto é, o interior. Na imigração não foi diferente.

Como sabemos, apenas recentemente o estudo deste âmbito interno, do cotidiano, recebe atenção especial da história, antes ocupada apenas com os grandes feitos e fatos públicos e políticos, isto é, com os resultados das ações, deixando de observar que toda ação e todo fato são resultados de um coletivo, e não poderiam prosperar e se fortalecer se não tivessem um amparo interno, não estivessem fincados dentro de um centro da sociedade e da família, portanto  são fruto do trabalho e inspiração das mulheres anônimas do entorno, não surgiram do acaso.

O papel “interno” da mulher é ainda mais importante na imigração.

O imigrante árabe: sírio, libanês ou palestino imigra pensando em voltar à terra natal. Dentro deste quadro, cabe à sua mulher manter vivos os hábitos e costumes de sua região original. As lembranças trazidas na sua bagagem cristalizam-se, sendo idealizadas. Muitos são irredutíveis na manutenção dos hábitos e costumes de seus ancestrais. Sua distinção reside na manutenção dos modelos importados de sua pátria original, como forma de preservação da identidade pessoal, do “EU”.

A importância da mulher revela-se na manutenção destes costumes e, ao mesmo tempo, no processo do gradativo enraizamento no país da imigração — a mulher faz a ponte entre dois territórios, a origem, e o destino.

Cabe a esta mulher administrar a inquietude e indecisão de seu esposo dividido entre a terra da imigração e o país de origem. Cabe a ela ainda decodificar, decifrar e explicitar o desejo de seu companheiro e aproximá-lo dentro do possível da demanda de seus filhos.

Os filhos nascidos ou criados na imigração, sentem suas raízes cada vez mais americanas, envolvidos pela necessidade de fixação e de pertinência. Cabe à mulher interpretar esta demanda do jovem que quer se fixar enquanto que o pai sonha em retornar.

Este trabalho de bastidores da mulher árabe na imigração não foi abordado ainda em nenhum trabalho científico e, mesmo nós mulheres que pesquisamos e escrevemos sobre a Historia da Imigração Árabe, não nos aprofundamos no estudo e na análise do importante papel da mulher no enraizamento e na permanência e fixação da família árabe na imigração.

A modéstia, o hábito da discrição no trabalho e na vida, colocam obstáculos ao estudo, à deferência e ao reconhecimento público do mérito das mulheres. Em uma pesquisa realizada anteriormente junto a mulheres de destaque na comunidade árabe, muitas delas, quando tomaram conhecimento do estudo do qual elas eram o sujeito, reagiram com a pergunta: porque eu? Existem contornos que fazem desta guerreira o sinônimo da heroína desconhecida.

Entretanto, é sobre a capacidade de adaptação e enraizamento da mulher, ponte entre origem e destino, que repousam todas as demais aquisições e conquistas da imigração.

 

A mulher como profissional

 

A mulher como profissional universitária: como educadora, médica, advogada, pesquisadora. A mulher no comércio e indústria na política e na diplomacia

É impossível falar da mulher sem falar da vida profissional, certamente a mais importante conquista desses últimos tempos. A maciça entrada da mulher no mercado de trabalho (fora de casa), que teve início por volta da Segunda Guerra Mundial, proporcionou uma das  maiores revoluções sociais deste século. Foi a partir de 1932 que a mulher no Brasil obteve a sua cidadania reconhecida, a partir da conquista do seu direito ao voto.

Algumas décadas depois, a mulher foi a artífice de uma das transformações mais poderosas. Esta mudança que se deu no Brasil nos últimos 25 anos, fez crescer no país, em 70% o número de mulheres economicamente ativas…

Ora, a mulher brasileira — árabe está inserida neste contexto, pois nestes últimos 25 anos vamos encontrar uma imensa massa de filhas de imigrantes, nas universidades, nos escritórios, nas corporações, nos hospitais. Da robótica à medicina nuclear, da economia à química, elas passaram também a dominar o cenário acadêmico.

Cada uma em sua área, hoje, contribui decisivamente para a evolução da sociedade. A taxa econômica, é uma das maiores da América Latina: 40% da população total de mulheres trabalha fora. A escalada rumo a maiores salário, e a cargos executivos continua extremamente lenta, isto até o final do século 20, pois nos últimos anos, cada vez mais encontramos mulheres ocupando cargos de chefia e posições onde tanto são aquelas que tomam decisões como aquelas que influenciam na tomada das decisões.

Muitas mulheres destacam-se hoje no comércio e na indústria; algumas foram herdeiras de seus negócios. Outras empreendedoras e de espírito livre, preferem a livre iniciativa; desejam e buscam cada vez mais soluções que atendam às necessidades de trabalho criativo, produtivo, com flexibilidade de horários. Antecipam assim a tendência dos próximos anos onde, o emprego cada vez menos disponível, abre o espaço das terceirizações, dos serviços. Como empresárias correm mais riscos, porém atingem melhor seus objetivos.

No Brasil foram construídos hospitais, creches, sanatórios, orfanatos, escolas, revistas. Esses empreendimentos vingaram e permanecem pelo constante e perseverante labor, empenho e dedicação das mulheres.

A presença da mulher na política e na diplomacia é um movimento relativamente recente. Nos últimos 15 anos passamos a ter aproximadamente 4% das mulheres nos cargos legislativos… porém a sua presença nos cargos executivos ainda é pouco expressiva

Quando o nosso olhar pousa sobre a produção da mulher não deixamos de celebrar a beleza, a harmonia, a perseverança, a firme delicadeza, e o trabalho: valores femininos envolvidos nas sagradas tarefas da gestação e manutenção da vida.

Nesta época em que a humanidade enfrenta aterrorizada a possibilidade de mais guerras, a homenagem que dirigimos às mulheres frutos da imigração constitui-se um brado pela paz, uma das maneiras pelas quais podemos reafirmar os nossos ideais de fraternidade entre os homens, fundamentais na tradição Árabe, Síria e Libanesa, joia de nossa herança, patrimônio e raiz, que compartilhamos alegremente com todas as pessoas de boa vontade do planeta.

Ao enfocarmos a mulher americana árabe, não deixaremos de estar privilegiando  também outras mulheres, cidadãs anônimas que constroem suas vidas, seus lares, suas cidades e países, elas mesmas cidadãs e educadoras de cidadãos, contribuindo decisivamente para a paz mundial.

*Claude Fahd Hajjar, Psicóloga, psicoterapeuta, pesquisadora de temas árabes e imigratórios, autora do livro: Imigração Árabe 100 anos de Reflexão, e atualmente ocupa o cargo de vice-presidente de Fearab América.

**Original de Oriente Mídia

[1]Em 8 de março de 2003 o Centro Cultural Árabe Sírio e o Consulado Geral da Síria em São Paulo , fizeram uma festa condecorando quarenta mulheres da comunidade brasileira árabe. Na ocasião eu fui a curadora deste evento e a responsável por eleger e ajudar a elaborar o curriculum destas mulheres