“É certo que a pobreza baixou com relação à 2016, mas a indigência subiu e se bem aprovem a metodologia pouco se discute nos meios. Os dados estão descontinuados entre 2007 e 2015 consequência da “emergência estatística” decretada pelo governo Macri.”

Julio Gambina*

O INDEC informou no dia 28 de setembro um queda no índice de pobreza
O INDEC informou no dia 28 de setembro um queda no índice de pobreza

Efeitos políticos de curto e longo prazo para uma economia que cresce com dívida pública.

O INDEC informou no dia 28 de setembro um queda no índice de pobreza (1) e um crescimento na produção industrial (2). Ao mesmo tempo, um dia antes, difundiu dados relativos à deterioração do déficit comercial, a posição do investimento, saída de capitais, tudo financiado pelo maior endividamento (3).

Os dados contraditórios e combinados expressam a complexidade do momento e as nocivas consequências no futuro para a sociedade argentina.

Por um lado, com a baixa do índice de pobreza e a elevação dos indicadores industriais, o governo disputa consenso em plena campanha eleitoral. Por outro lado, a deterioração das contas externas, com menor difusão e impacto social, esconde a real situação da Argentina já que a hipoteca da dívida terá que ser paga no curto prazo acrescida dos juros, e a médio prazo fica comprometida a riqueza socialmente gerada.

Pobreza

Os dados estão descontinuados entre 2007 e 2015 consequência da “emergência estatística” decretada pelo governo Macri.
Os dados estão descontinuados entre 2007 e 2015 consequência da “emergência estatística” decretada pelo governo Macri.

São pobres 28,6% da população enquanto 6,2% são indigentes, segundo uma pesquisa realizada pelo INDEC em 31 aglomerados urbanos com uma população de 25.451.977 pessoas.

Daí podemos deduzir que do total da população atual da Argentina a pobreza alcança mais de 12 milhões de pessoas; os indigentes somam 2,6 milhões de pessoas.

É certo que a pobreza baixou com relação à 2016, mas a indigência subiu e mesmo que aprovem a metodologia pouco se discute nos meios. Os dados estão descontinuados entre 2007 e 2015 consequência da “emergência estatística” decretada pelo governo Macri.

Dá pra pensar que o profundo ajuste, desde dezembro de 2015, não só gerou recessão econômica como incrementou a pobreza em níveis alarmantes para 2016 e que agora, com certa recuperação da atividade econômica, uma parte da população empobrecida no ano anterior, supera com seus ingressos a linha da pobreza.

A pobreza mede a renda necessária para cobrir a cesta básica total, que inclui alimentos e outros bens e serviços como vestuário, transporte, educação, saúde, etc. A indigência só contem alimentos (cesta básica alimentar).

O total de indigentes e pobres pela renda é um alarmante. Mais ainda o crescimento da indigência, que manifesta que uma parte da população passa de pobre para indigente para mal-viver e subsistir. Alguns saem da pobreza mas seus magros ingressos apenas cobrem suas necessidades.

Indústria

Com a ativação da indústria ocorre algo similar, posto que o crescimento em fins de agosto de 2017  apresenta uma elevação de 5,1% em relação ao mesmo mês de 2016, quando o computo tinha sido de -5,7, ou seja, não se recuperou o que se perdeu um ano antes.

Nem a indústria de alimentos, ou a têxtil, que contém uma quantidade expressiva de pequenas e médias empresas locais alcançaram a média de crescimento. Seus índices são negativos.

Os setores industriais que estão acima da média são as petroleiras e as automobilísticas, que como sabemos, constituem um setor altamente concentrado, com poucas empresas, em geral estrangeiras, exceção da YPF, que apesar de privada está sendo gerida pelo Estado.

De março de 2016 a junho de 2017, 16 meses, os índices de evolução industrial são negativos. Só em julho começou uma recuperação que com o índice de agosto acumula um crescimento de 1,4% anualizado.

Não são cifras para se festejar, mas o governo anuncia como o fim do ciclo recessivo e, com vistas às eleições de outubro, anuncia que o processo de recuperação teve início para não mais parar.

Segundo o ministro da Fazenda, virão agora 20 anos de crescimento da economia na Argentina. É um otimismo que não se compadece com as contas externas da economia.

Setor externo

Para o segundo trimestre de 2017, abril a junho, o déficit comercial alcançou 5 bilhões 954 milhões de dólares, o que significa importações maiores que as exportações.

Esse déficit deve ser saldado com divisas (moeda de outros países), pois não se pode pagar compras externas com pesos, a moeda local.

Para acumular divisas o país tem que ter uma balança externa superavitária, que se consegue com maiores exportações que importações. Não é o que ocorre e a tendência é de crescimento substancial das importações contra uma débil evolução das exportações.

Também se pode acumular divisas através dos investimentos externos e isso não ocorre, salvo em conta-gotas. Isso explica as concessões regulares, atuais ou prometidas a investidores externos para tornar rentáveis seus investimentos no país. Para isso vem a OMC em dezembro ao país e  a coordenação argentina do G20 durante 2018 avalia isso. Finalmente, o problema se soluciona com endividamento. É o que ocorre, hipotecando o presente e o futuro da Argentina.

O ingresso líquido de capitais, ou seja, ingressos menos egressos, foi de 6.376 bilhões de dólares e as reservas internacionais se reduziram no período em 2.804 bilhões de dólares. São dados oficiais dos relatórios do INDEC.

A dívida externa alcançou 204.818 bilhões de dólares. São 5.950 milhões de dólares mais em relação a fins de março de 2017, como consequência de emissões de títulos da dívida pelo governo e do BCRA.

Em síntese

Se observamos o conjunto das análises desses dados comprovamos a hipoteca sobre o conjunto da sociedade, já que a relativa baixa da pobreza, ou o relativo crescimento industrial só se explica por maiores compromissos de dívida assumidos que convocam a renovadas políticas de ajuste fiscal nas costas da maioria de menor renda.

A orientação da política econômica da Argentina gera essa debilidade estrutural financiada pela dívida para continuar contribuindo para a acumulação mundial do capital.

É um processo dirigido por uma minoria parlamentar, o macrismo, que funciona através de acordos políticos com outras minorias no Congresso e a mediação de burocracias políticas, sindicais e mediáticas que facilitam o consenso eleitoral.

Torna-se necessário pensar e atuar politicamente para construir uma perspectiva alternativa da realidade, com outra orientação, além da lógica do lucro e do regime do capital. É o sentido da reunião federal realizada pela Faculdade de Ciências Sociais para construir uma Semana de Ação Global “Fora a OMC da Argentina” e a construção de uma cúpula dos povos construindo soberania.

O que não é assumido pela institucionalidade pode ser acionado pela iniciativa popular na busca de novos horizontes, mesmo quando a premissa continua sendo o que não se deseja, mas interessa destacar a busca de proposições alternativas. Em definitiva, a informação plasmada em dados é utilizada para a política governamental e o grupo de beneficiários e de poder no país. Mas a iniciativa política popular também pode disputar sentido e construir soberania, tal como formula o movimento “Fora a OMC da Argentina.

[1] INDEC. Incidencia de la pobreza y de la indigencia en 31 aglomerados urbanos. Resultados primero semestre de 2017, en: http://www.indec.gob.ar/uploads/informesdeprensa/eph_pobreza_01_17.pdf(consultado el 30/09/2017)

[2] INDEC. Estimador Mensual Industrial. Agosto de 2017, en: http://www.indec.gob.ar/uploads/informesdeprensa/emi_09_17.pdf (consultado el 30/09/2017)

[3] INDEC. Estatísticas integradas de Balanza de pagos, Posición de inversión internacional y Deuda externa

Segundo trimestre de 2017, en: http://www.indec.gob.ar/uploads/informesdeprensa/bal_09_17.pdf (consultado el 30/09/2017)

*Original de  Resumen Latinoamericano / 5 de octubre de 2017