A agora ex chanceler argentina Susana Malcorra firmou um acordo com o Reino Unido em que reconhece a soberania desse país para explorar recursos petroleiros e pesqueiros nas ilhas e também compromete a Argentina a ajudar os ingleses a conectar o arquipélago por via aérea.

Vásquez del Faro*

A ex chanceler argentina Sussana Malcoirra renunciou ao cargo por "questões pessoais".
A ex chanceler argentina Susana Malcorra renunciou ao cargo por “questões pessoais”.

Um dia como hoje, em 1829, o governador da província de Buenos Aires criava o Comando Político e Militar das Ilhas Malvinas. Também num dia como hoje, porém em 1973, se decretava o dia 10 de junho como o Dia da Afirmação dos Direitos Argentinos sobre as Malvinas, ilhas e Setor Antártico.

Malvinas é uma fortaleza militar

Em poucos dias reúne-se o Comitê de Descolonização das Nações Unidas para tratar da questão das Malvinas.

Contudo, não nos importam as datas nem os formalismos. O que importa são as ilhas Malvinas. O que nelas está ocorrendo? O que os ingleses estão fazendo lá?

Antes de responder a essas perguntas, sabemos o que a Argentina está fazendo, pelo menos este governo.

A agora ex chanceler Malcorra firmou um acordo com o Reino Unido em que reconhece a soberania desse país para explorar recursos petroleiros e pesqueiros nas ilhas e também compromete a Argentina a ajudar os ingleses a conectar o arquipélago por via aérea.

Um gesto de cordialidade e boa vizinhança para com os usurpadores de mais de um milhão de quilômetros quadrados de território argentino que desconhece o estabelecido pela própria Constituição Nacional, compromete gravemente a soberania nacional e desacredita a Argentina no contexto mundial ao claudicar da posição tradicional do país.

A troco de que?

Soldados britânicos em manobras de treinamento. Malvinas, Novembro. 2016.
Soldados britânicos em manobras de treinamento. Malvinas, Novembro. 2016.

A troco de investimentos britânicos que nunca chegam, e que, se chegarem, seguramente serão para explorar os recursos que estão sendo cedidos. Uma forma paradoxal de atrair investimentos.

Por enquanto, o único investimento britânico que o atual governo conseguiu atrair foram os US$390 milhões que o Reino Unido anunciou formalmente que investiria na modernização da defesa da ilha, em 25 de novembro de 2015, três dias depois que Cambiemos ganhou no segundo turno.

O principal objetivo da modernização e ampliação da infraestrutura de defesa das ilhas – segundo declarações dos próprios britânicos – é fixar as bases de um esquema que lhes garanta segurança e capacidade de ataque pelos próximos vinte anos. Daí a magnitude dos recursos orçamentários e humanos despendidos.

Os britânicos não são novatos nisso. Estão há mais de 30 anos construindo uma fortaleza militar nas Malvinas. Ali estão destacados mais de 2.000 soldados, onde vivem apenas 2.400 civis; mantêm uma base aérea com aviões de caça, aviões de transporte militar, helicópteros, baterias de mísseis e uma base naval com destróieres, fragatas e submarinos nucleares.

Fragata e cargueiro desembarcando material não classificado. Malvinas, Dezembro. 2016.
Fragata e cargueiro desembarcando material não classificado. Malvinas, Dezembro. 2016.

O anúncio do investimento britânico – quase 400 milhões de dólares – veio acompanhado de um conjunto de contratações para executar a “modernização” das instalações militares que o Ministério de Defesa do Reino Unido estabeleceu como prioritárias.

Devido a necessária confidencialidade do trabalho que está sendo realizado nas ilhas, o orçamento de defesa britânico desistiu de contratar empresas privadas do setor armamentista na execução da obra.

Para esse efeito optou por um método pouco convencional para o estilo britânico. As tarefas estão sendo realizadas pelo Corpo de Engenheiros do exército do Reino Unido. Com isso, de um lado perde em experiência, posto que o exército britânico soe contratar empreiteiras para esse tipo de obra; de outro lado, ganha em discrição, posto que o trabalho realizado é classificado como confidencial.

Soldados do Corpo de Engenheiros doReino Unido. Malvinas, Março. 2017.
Soldados do Corpo de Engenheiros do Reino Unido. Malvinas, Março. 2017.

As obras de “modernização” nas ilhas se dividem em três áreas.

O primeiro objetivo é ampliar e modernizar a base militar de Monte Agradable, onde se alojam a maior parte dos dois mil soldados britânicos acantonados na ilha e estão localizados os aviões de caça, os helicópteros e o principal arsenal de canhões, baterias de mísseis e munições em geral.

O segundo objetivo é ampliar o porto militar que os ingleses possuem a menos de 50 km da base de Monte Agradabel. Buscam dessa forma melhorar a capacidade das instalações para receber maior quantidade de navios de carga e permitir a operação simultânea de até três fragatas armadas de mísseis.

Caminhões do Corpo de Engenheiros do Exército do Reino Unido na Ilha Grande Malvina. Malvinas, Março. 2017.
Caminhões do Corpo de Engenheiros do Exército do Reino Unido na Ilha Grande Malvina. Malvinas, Março. 2017.

O terceiro objetivo é potencializar a rede de vigilância e inteligência nas ilhas. Para isso estão modernizando as instalações de radares e de equipamentos de espionagem digital que controlam em diferentes pontos do arquipélago, tanto na Ilha Soledad como e, principalmente, na Ilha Gran Malvina.

Tomando em conta a magnitude da modernização da infraestrutura de defesa nas ilhas pode-se entender porque do aumento dos voos de aviões de carga militares nas Malvinas nos últimos meses desde a Ilha Ascención – onde está o aeroporto “amigo” do Reino Unido – bem próximos do litoral argentino como do litoral brasileiro, fato que está sendo acobertado pelo governo Temer.

Essa estratégia logística tem como prioridade reforçar o caráter de fortaleza militar que os britânicos designaram para o arquipélago.

Moviumento de terras e maquinários do Corpo de Engenheiros do Exército do Reino Unido. Malvinas, Março. 2017.
Movimento de terras e maquinários do Corpo de Engenheiros do Exército do Reino Unido. Malvinas, Março. 2017.

Um arsenal cravado no Atlântico Sul, ameaçando não só a Argentina, mas a toda América do Sul, e o acesso à Antártica quer da Argentina como do Brasil.

Num momento de extrema debilidade da posição do Reino Unido no cenário global, devido ao Brexit, o governo argentino deixa “alegremente” que os britânicos reforcem as fortalezas nas ilhas.

Recorde-se que somente no âmbito da diplomacia, devido ao vazio provocado pelo Brexit, os britânicos estão sendo obrigados a renegociar 759 tratados com 168 países que vão desde acordos de transporte, agricultura e questões nucleares até questões comerciais e aduaneiras.

Isso constitui um volume de mini negociações jamais visto anteriormente por um só país em um lapso tão breve de tempo.

Se existe um momento para pressionar pacífica e diplomaticamente os ingleses é agora.

O governo da Argentina não só não utiliza uma estratégia inteligente para capitalizar a difícil conjuntura britânica em favor dos interesses argentinos, como ademais cede demasiado permitindo uma modernização e ampliação de todo o sistema de defesa das ilhas Malvinas que terá efeito pelas próximas duas décadas. Uma grande política de estado, certamente… dos britânicos.

 

*Original de Red Nacional e Popular de Notícias http://nacionalypopular.com/2017/06/11/que-estan-haciendo-los-britanicos-en-nuestras-islas/