Os Desnorteados

Assim como ser orientado é ter etimologicamente o Oriente como referência, ser norteado seria estar sob a influência do Norte. Portanto, nós nos consideramos desnorteados, porque não aceitamos ter essa influência. Somos, ao contrário, sulientados, no melhor sentido deste neologismo.

Somos sulientados por escolher o Sul como nosso universo existencial, de colaboração e respeito mútuo. Porém, mais que o simples Sul geográfico, o Sul geopolítico, entendido como o múltiplo conjunto de países que podem constituir uma alternativa ao desenvolvimento imposto pelas potências industrializadas do Norte, de natureza hegemônica e espoliadora.

Somos sulientados porque queremos nos livrar de uma relação vertical, impositiva, de questionáveis valores, a que fomos submetidos por longos anos, e construir uma relação horizontal, dialógica, inclusiva e integracionista, compreendendo os países do Sul, mesmo em outros continentes, mas todos eles nossos companheiros de viagem.

Estar sulientados tem um sentido muito amplo. Significa valorizar nossas próprias tradições, nossa cultura e nossa história, como paradigma para a construção do futuro comum. Significa, acima de tudo, ser conduzidos por nós próprios.

Estar sulientados é acreditar no sonho bolivariano da Pátria Grande Latino-Americana e Caribenha, livre de hegemonias alienantes e da ditadura do capital financeiro. É exigir respeito à soberania dos povos, aos princípios já consagrados de não intervenção, de solução pacífica das controvérsias entre as Nações.

Entendemos que a paz é obra política de responsabilidade de todos os habitantes da Terra, e que inexiste paz enquanto houver uma criança passando fome, enquanto houver seres humanos subjugados por outros, enquanto não se detiver a ocupação predatória do solo. Entendemos que defender a natureza é garantir a sobrevivência do próprio planeta e da humanidade, e que o bem maior da natureza é o ser humano.

Como contribuição à construção da paz, estamos iniciando uma campanha para exigir das Nações Unidas que o Atlântico Sul seja declarado um lago de paz, no entendimento de que suas águas têm como fronteiras países que são capazes de resolver harmoniosamente seus problemas de relacionamento. Por isso, reivindicamos que a região fique preservada da ação das potências bélicas e de seus propósitos de dominação.

Seguimos os passos daqueles que se insurgiram na luta contra as condições vis impostas aos nossos povos, infringindo-lhes a pior das servidões, que é a servidão intelectual, do atraso e do desconhecimento, talvez a principal causa dos males que nos atormentam.

Cadernos Terceiro MundoIncentivamos a busca de novos caminhos, inspirados em figuras como Martí, Mariátegui, Salazar Bondy, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Marta Harnecker, entre outros, que se empenharam na formulação de um pensamento latino-americano libertário e criador, e de nossos estadistas, a exemplo de José Artigas, Cézar Sandino, Lázaro Cárdenas, Getúlio Vargas, Salvador Allende, Juan Domingo Perón, Manuel Alfaro, Omar Torrijos, Fidel Castro, Che Guevara, responsáveis por grandes transformações vividas por nossos países. Como desnorteados e sulientados que somos, desejamos realizar um projeto de mídia alternativa, Diálogos do Sul, um espaço de reflexão que ajude a melhor compreensão dos fatos que nos cercam, na perspectiva da criação de um mundo melhor, buscando a verdade sonegada pelas versões da mídia e da historiografia colonizadas.

Na condição de herdeiros de Cadernos do Terceiro Mundo, como nos reconhecemos, que, nos anos de 1974 a 2005, sob a direção do inesquecível jornalista Neiva Moreira, defendeu idênticos ideais, propomo-nos transformar este espaço num cenário de debate dos principais problemas do Brasil e da América Latina. Pretendemos igualmente torná-lo um fator de estreitamento das relações Sul-Sul, englobando países do Mediterrâneo, do Oriente Médio, da Ásia e da África, que são ou foram vítimas do mesmo processo espoliador. Nosso projeto está aberto à colaboração de todos os que pensam da mesma forma.