Nos países menos desenvolvidos a cidadania vive em irremediável estado de frustração.

Carolina Vásquez Araya*

CarolinaVásquezAraya.O sistema no qual se movem as forças do país sob a influência de capitais internacionais gera um círculo vicioso. É o caso da Guatemala, onde esse círculo resulta inquebrantável e anula toda a possibilidade de construir um ambiente propício capaz de gerar uma força cidadã efetiva, contra um sistema que só beneficia certas elites.

Este sistema política e economicamente depredador não apenas afeta os setores mais pobres, nem está enfocado unicamente em deter o monopólio das decisões; é tão perverso como para ter conservado um verniz de democracia quando suas estruturas estão desenhadas para nunca ceder espaços à autêntica participação cidadã. Para isso criou uma trama de leis-cadeado favoráveis à perpetuação de um status propício para governar o país ao gosto e preferência de um setor específico, minoritário, mas esmagadoramente poderoso.

Os obstáculos contra a participação política de setores importantes como os das mulheres e dos povos originários entram no modelo tradicional de monopolização do poder.
Os obstáculos contra a participação política de setores importantes como os das mulheres e dos povos originários entram no modelo tradicional de monopolização do poder.

Os obstáculos contra a participação política de setores importantes como os das mulheres e dos povos originários entram no modelo tradicional de monopolização do poder, pois um dos objetivos desse modelo político é, precisamente, impedir o desenvolvimento de uma cidadania envolvida na gestão pública. Por isso é que as reformas às leis que definem o sistema eleitoral e de partidos políticos dependem daqueles que se beneficiam delas e marginalizam completamente as aspirações da população por uma democracia real e inclusiva.

Uma das consequências do monopólio do poder em um círculo de corrupção e privilégios, somado à ausência de qualidade da gestão pública, é a marginalização da infância e da juventude como uma estratégia de dominação. A táctica de privar esse sector de acesso à educação e relegá-lo nas prioridades de investimentos resulta, naturalmente, no aprofundamento da pobreza e, por isso, a impossibilidade de ceder-lhes espaços de decisão e nenhum acesso à participação política em um futuro próximo. Em outras palavras, a juventude guatemalteca continuará castrada e condenada a se desenvolver em um ambiente de privações e criminalidade inevitáveis, se não houver um giro rotundo nas políticas públicas dirigidas a esse sector.

Por outro lado, a exploração irracional da riqueza – terras, águas, recursos minerais – sob o argumento de ser a única via para gerar o desenvolvimento econômico ao qual aspira a população, constitui o gasto discurso de um círculo de poder historicamente incapaz de gerar mais desenvolvimento que o de suas propriedades, sob a proteção de um sistema político que lhe tem servido incondicionalmente e sem reparos. A força das evidências dos problemas gerados por uma indústria depredadora e pobremente manejada como a de mineração, no entanto, provocou o fim dessa classe de projetos em outros países da região e do continente por serem prejudiciais e não propiciarem desenvolvimento a não ser a das companhias exploradoras, enquanto os territórios morrem e  suas fontes de água se perdem para sempre.

O desenvolvimento não reside em projetos de mineração nem em construção de hidrelétricas. Reside em planos bem elaborados, inclusivos, democráticos e racionais, de médio e longo prazo, capazes de romper os habituais círculos de influência e converter um Estado fraco e dependente em uma força geradora de riqueza, bem-estar e justiça para toda a população. Isso requer consciência, inteligência e qualidade humana, valores indispensáveis para converter as fraquezas em fortalezas e avançar em direção a um futuro mais promissor.

Um país, para crescer, necessita planos de desenvolvimento inclusivos, sustentáveis e bem estruturados.

 

*Colaboradora de Diálogos do Sul, da Cidade da Guatemala