“Está definitivamente estabelecida a falsidade absoluta do certificado de morte do poeta Pablo Neruda emitido em setembro de 1973″.

Eduardo Contreras*

Neruda vive!
Neruda vive!

O relatório do Painel de Peritos Internacionais que entre os dias 16 a 20 de outubro, em Santiago, com suas conclusões em matérias genéticas e protéicas relacionadas com as causas da morte do Prêmio Nobel Pablo Neruda, são, mais importantes e profundas que o que até agora foi apresentado.

É talvez por isso a razão pela qual, enquanto a imprensa internacional e boa parte da nacional tem difundido essas conclusões científicas, o diário golpista El Mercúrio e outros de seu tipo tenham silenciado o informe ou lhe dedicaram 7 ou 8 linhas em sua última página de modo a que ninguém saiba nada, ou que “falta um ano para saber a verdade”.

Sabem que mentem, preocupados com que se assuma a verdade do que ocorreu, que é transcendental. Afinal, há que lembrar que o jornal da família Edwards, parte operacional da CIA no golpe de 1973, publicou no seguinte da morte de Neruda que o grande chileno tinha morrido como “consequência de uma parada cardíaca produzida por uma injeção que lhe aplicaram”. Versão que contrastava com os informe médicos mas que tinha sido útil para avançar nas provas deste crime da ditadura. Fica claro que essa gente do Mercúrio sabia de algo, como uma injeção no abdome do poeta.

E por que dizemos que se avançou mais com o que se comenta nestes dias?

Pela simples razão de que embora a objetividade científica dos especialistas os leva com toda razão a continuar investigando a natureza do novo elemento estranho que agora detectaram no corpo de Neruda, o objetivo é que as conclusões já de consenso não deixam dúvida da ação da ditadura.

Vejamos o que mostra o documento de consenso depois de anos de investigação em diferentes laboratórios e de confrontar durante uma semana os resultados de cada um. O relatório científico final sobre os temas específicos de caráter genômica e protônica, conclui categoricamente na “absoluta falsidade do certificado de morte emitida na data ao demonstrar que a tal “caquexia” que Neruda tinha padecido e que o certificado atribuía como “causa da morte” era absolutamente falsa. Ou seja, que nunca existiu tal caquexia e a prova disso é abundante no expediente judicial.

Como consequência, o certificado de morte até hoje conhecido é inteiramente falso. Assim, conclusivamente.

Contudo, há mais. Os cientistas concordam também que, se bem não haver dúvida de que o poeta padecia efetivamente de câncer, não há prova alguma de que seu estado fosse terminal e, ao contrário, sim há de que podia viver mais tempo.

Também está confirmado o fato gravíssimo de que precisamente por seu estado, na clínica Santa Maria, nunca se lhe ministraram o tratamento adequado, somente calmantes. Portanto, na improvável hipótese de que tivesse morrido efetivamente de câncer, isso teria ocorrido porque o deixaram morrer, porque não lhe deram nenhum tratamento.

Como se todo o dito não fosse suficiente, finalmente as conclusões do Painel indicam a presença de outro elementos tóxico, descoberto nas recentes análises de laboratórios e que vai ser mais pesquisado, não descarta a possibilidade de que sua morte foi devida a ação de terceiras pessoas., Ou seja, o informe que acabamos de conhecer constitui nem mais nem menos que uma afirmação que supera as hipóteses até agora aceitas.

Por isso afirmamos que mesmo permanecendo algumas interrogações e outro trecho de caminho por percorrer, já está definitivamente estabelecida a falsidade absoluta do certificado de morte emitido em setembro de 1973.

E é por isso que para todos os que em cada lugar do mundo apreciamos a verdade e a justiça como direitos fundamentais do ser humano, as conclusões do Painel Internacional de Especialistas designados pelo tribunal da causa, aberta pra investigar as causas reais da morte do poeta Pablo Neruda, resultam não só importantíssimas, fundadas, e além disso emocionam.

Conheça quem é quem

É importante conhecer os 16 profissionais, estrangeiros e chilenos, que conformam esse Painel e que, por unanimidade, concluíram como foi mostrado.

São eles os chilenos Cristian Orrego e os estadunidenses George Sensabaugh, Charles Brenner e John Swartzberg, da Universidade da Califórnia, Berkeley; Hendrik Poinar e sua esposa Debbie Poinar, da Universidade de Hamilton, Ontario, Canada; Gloria Ramírez, do Ministério da Saúde do Chile, Niels Morling da Universidade de Copenhagen, Dinamarca, Jean Olivier Cathelineau, do Instituto Montsouris de Paris, França, Aurélio Luna da Universidade de Murcia, Espanha, Francisco Etxeberria da Universidade do País Vasco, Espanha, Javier Domínguez da Universidade Católica de Chile, Cecília Abdala do INTA Chile, Andrei Tchamitchian e Leonardo Gaete da Universidade de Chile.

Dez especialistas internacionais e seis chilenos. Todos profissionais da mais alta qualificação acadêmica, com expertise reconhecida internacionalmente, e que do ponto de vista médico-forense estão escrevendo uma página de notável importância internacional.

Durante essa discussão científica estivemos presentes vários assessores jurídicos com o objetivo de, se necessário, dar segurança de que todos os elementos considerados que fossem além do estritamente médico constituíssem efetivamente parte do expediente judicial, ou seja, que não houve nenhum elemento estranho ao estrito mérito do processo.

Fazendo história

Deve-se ter presente também qual era o contexto histórico na época em que ocorreu a morte do poeta. E este não era outro que o de uma recém implantada ditadura brutal, um clima de terror e insegurança.

Tampouco se pode esquecer que a clínica Santa Maria estava sob intervenção militar desde o dia 11 de setembro de 1973 e que os médicos que trataram de Neruda eram também médicos do Hospital Militar. E menos ainda esquecer que enquanto na rua os soldados queimavam livros e perseguiam as manifestações culturais, a vítima indefesa, Neruda, era um intelectual de alto nível, um personagem politicamente engajado nas antípodas da ditadura, democrata, antifascista, um homem influente internacionalmente.

Um alto dirigente comunista que durante a vida sofreu todo tipo de perseguição tanto de governos de direita no Chile como de agentes da CIA estadunidense. Esta demonstrado, por exemplo, o papel da CIA na operação de 1964 para impedir na época o outorga do Nobel ao poeta chileno.

Neruda também denunciou as manobras da ITT e escreveu sua “Incitação ao Nixonicídio”.

Os resultados das perícias sem dúvida muda o rumo da história. Este fato ocorre  a mais de 44 anos da morte de Neruda e mais de seis anos desde que em 31 de maio de 2011 ingressou nos tribunais essa querela apresentada pelo Partido Comunista do Chile.

Finalmente, corresponde destacar o papel da imprensa e dos jornalistas nos fatos que dão forma e vida ao “caso Neruda”. Tudo começa quando meses antes de iniciar a ação judicial, a revista mexicana “Proceso”, em nota do jornalista chileno Francisco Marín, publicou declarações de Manuel Araya. Este foi o último chofer de Neruda e o acompanhou na Ilha Negra.

Antes de sua entrevista, em que denunciou os fatos que abriram os caminhos para a realidade atual, o que se sabia era que o poeta tinha morrido consequência do câncer que o acometia. Eram os primeiros dias do golpe o que tornava especialmente difícil contar com elementos antecedentes ou testemunhas que apontasse uma causa morte diferente para ser investigada.

Porém, mesmo se tivesse ocorrido, quem poderia denunciar a ditadura aos tribunais? O que se poderia esperar dos tribunais se a própria Corte Suprema da época era cúmplice ativa do criminoso golpe de Estado? Sobram razões para que a verdade não aflorasse nesses tempos.

Depois de saber da entrevista iniciamos com o colega Pedro Piña e o apoio de outros companheiros a estudar os fatos, incluindo longas conversas com o próprio Araya, com o jornalista Marín e com o médico que tratava do poeta na região costeira, e com outras pessoas confiáveis do lugar. Também contatamos o engenheiro Gonzalo Martínez Corbalán, que era o embaixador do México que levaria Neruda para o México no domingo 24 de setembro e a quem conheci durante meu exílio no México e com várias outras pessoas próximas do caso.

Buscamos na imprensa e com ajuda de pessoas em diversos países nos encontramos com surpresas tais como que o próprio Pinochet tinha declarado a uma radio estrangeira, no dia 15 de setembro de 1973, ou seja, quando Neruda nem sequer tinha sido levado à fatídica clínica, que “Neruda está bem e se morrer será de morte natural”. Por que falou antecipadamente desse assunto?

Uma vez convencidos da seriedade da denúncia de Manuel Araya, foi aberto processo pelo Partido Comunista, que está sendo acompanhada pelo juiz Mario Carroza. Pouco depois se somaram a esta ação judicial os advogados Rodolfo Reyes, sobrinho de Neruda e Elizabeth Flores, ambos em representação dos familiares do poeta. Mais adiante o caso foi patrocinado também pelo Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior, o que permitiu a participação de profissionais do direito que contribuíram substancialmente.

Ao reconhecer todas essas contribuições, em especial o que tem sido a ajuda do governo, é também de justiça destacar a contribuição de pessoas como dr Cristian Orrego, filho do grande músico chileno Juan Orrego Salas, ou de outros destacados médicos nacionais como a dra. Gloria Ramírez, Luiz Fornazzari ou o dr Luis Soto, já falecido, que nos mostraram a possibilidade de que o desenvolvimento progressivo da ciência médica forense pudesse por fim ajudar-nos a descobrir a verdade que buscávamos.

Menção especial a Eugênio Ortega, também falecido, que foi marido de Carmen Frei e se aproximou espontânea e generosamente para proporcionar antecedentes que emanavam dos expedientes judiciais referentes ao assassinato de seu sogro, o ex presidente Eduardo Frei Montalva.

Com diferença de anos, se tratava na mesma clínica e com alguns dos mesmos médicos, e tudo parece indicar, utilizando os mesmos métodos.

O que vem agora?

Com relação ao trabalho jurídico e à luz do já estabelecido se fará o estudo para um eventual processo aos que participaram na manipulação de Pablo Neruda durante seus dias nessa clínica.

Enquanto que com os cientistas especializados, tratar de aprofundar os estudos e pesquisas sobre o encontro de novos elementos nocivos como já se tinha feito antes com relação aos estafilococos aureus. Só que agora pode ser mais rápido posto que essa bactéria foi encontrada nos laboratórios do Departamento de Antropologia da Universidade Mcmaster, de Hamilton, Ontário, Canadá. Ademais, hoje temos conhecimento e confirmação judicial de outros episódios de envenenamento por agentes da ditadura de Pinochet.

Precisamente por esses mencionados processos é que ficamos sabendo da existência de laboratórios secretos do exército, confessados pelos próprios militares nos tribunais. O que conduz a estimar que não se tratava só de atos do químico Berríos, ou de Oyarzun ou de Michael Townley ou desse estranhíssimo “doutor Price” inventado por um dos principais culpados no caso Neruda, como é o doutor Sergio Draper.

A investigação continuará, mas o passo adiante dado pela verdade histórica no país com o informe pericial no caso Neruda, foi imenso. Constitui também um estímulo para a continuidade da heroica luta dos familiares de milhares e milhares de vítimas da ditadura que há anos buscam verdade e justiça.

Há poucos dias da morte do poeta, em 4 de outubro de 1973, na Sala Pleyel de Paris, na França, outro grande poeta, o prêmio Nobel e grande amigo de Neruda, o guatemalteco Miguel Ángel Asturias leu seu texto “Neruda Vivo” em que fala de “a diástole e a sístole de um só coração, a diástole, Allende, a sístole, Neruda”, e finaliza… “falem de tua morte, eu te proclamo vivo, eu te proclamo vivo, e ao chamado de Chile, tu respondes, presente!

Foi o que sentimos na tarde em que encerraram o encontro de cientistas. Neruda continua combatendo. Neruda vive. Está na frente e por cima do crime dos fascistas de 73, boa parte dos quais continua também na ativa.

*Original de Barómetro Internacional