A justiça chilena tardou, mas se cumpriu. Nove ex-funcionarios do exército foram condenados pelo sequestro e assassinato do cantor e compositor chileno Victor Jara, bem como do dirigente comunista Littré Quiroga, em setembro de 1973.

Iela

Jara ainda teve suas mãos decepadas num ação de profunda crueldade visto que o cantautor fazia política com seu violão.

A condenação foi proferida nesta terça-feira (3) pelo ministro Miguel Vázquez e os militares foram condenados a 15 anos e um dia de prisão pela responsabilidade e autoria dos homicídios. Também foram condenados como autores do sequestro de ambas as vítimas, somando assim 18 anos de reclusão. São eles:

– Hugo Sánchez Marmonti;
– Raúl Jofré González;
– Edwin Dimter Bianchi;
– Nelson Haase Mazzei;
– Ernesto Bethke Wulf;
– Juan Jara Quintana;
– Hernán Chacón Soto;
– Patricio Vásquez Donoso;

Já o oficial Rolando Meno foi condenado a cinco anos e um dia por sua responsabilidade em encobrir os assassinatos e mais 61 dias por encobrir os sequestros.

O músico, ator e diretor de teatro Victor Jara foi preso e levado para o Estádio Chile (lugar que hoje leva seu nome) junto com outros milhares de simpatizantes do governo de Salvador Allende, depois de uma batida efetuada na Universidade Técnica do Estado onde exercia a profissão de professor. Descoberto entre centenas de outros prisioneiros, Jara foi submetido a intensas torturas. Mesmo machucado, Victor conseguiu escrever seu último poema, no qual retratada aquele momento de profunda dor :

Somos cinco mil
en esta pequeña parte de la ciudad.
Somos cinco mil
¿Cuántos seremos en total
en las ciudades y en todo el país?
Solo aquí diez mil manos siembran
y hacen andar las fábricas.
¡Cuánta humanidad
con hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura!

No dia 16 de setembro, cinco dias depois do golpe que matou Allende e levou ao poder o ditador Augusto Pinochet, durante a última sessão de tortura, os militares cortaram a língua de Victor e lhe destroçaram as mãos, exigindo que ele tocasse e cantasse naquelas condições. Depois, o assassinaram com 44 balaços.

O advogado, diretor geral do Serviço de Prisões e militante comunista Littré Quiroga, também estava no Estádio Chile e sofreu uma infinidade de torturas e violações sexuais por parte dos militares. Foi assassinato no dia 15 de setembro de 1973, com 23 balaços.

Os corpos de Littré e Victor Jara foram encontrados no dia 16 de setembro de 1973 junto com outros quatro cadáveres no cemitério metropolitano de Santiago.

A condenação dos militares que barbarizaram o músico mais amado do Chile não o trará de volta, mas significa muito para os chilenos. Responsabilizar os autores, conhecer seus nomes, ver suas caras e presenciar sua condenação é ver triunfar a Justiça. Durante anos, os chilenos realizaram as famosas “funas”, que eram manifestações em frente as casas ou nos locais de trabalho dos torturadores, expondo os criminosos mas sem vê-los punidos por seus crimes. Hoje, ver a justiça reconhecendo os assassinatos, dá ainda mais sentido a essa sistemática ação de repúdio e de lembrança.

Os militares que assassinaram Victor, que o torturaram barbaramente e o crivaram de bala acreditavam que estavam fazendo desaparecer a voz dos empobrecidos, dos trabalhadores, mas não. Victor já era eterno e viverá para sempre.

Com informações da Telesur