Com discurso ‘nacional-desenvolvimentista’, João Vicente Goulart, filho do presidente João Goulart (Jango), foi lançado como candidatura Presidência da República pelo PPL / Partido Pátria Livre.

Evandro Éboli*

jangoJoão Vicente Goulart, 60 anos, foi lançado pré-candidato pelo Partido Pátria Livre (PPL), à sucessão de Michel Temer em 2018. João Vicente é filho do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe civil-militar de 1 de abril de 1964. Ato inicial da instauração de uma Ditadura Militar que “governou” o Brasil durante 21 anos.

O PPL / Partido Pátria Livre tem origem no antigo MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), um grupo que defendeu a guerrilha e a luta armada logo após a instauração da ditadura. A partir dos anos 1980, o MR-8 abandonou definitivamente a defesa da luta armada no contexto da redemocratização do Brasil e seus líderes filiaram-se ao MDB. Com o fim do bi-partidarismo a decisão de sua direção que continuar militando nas fileiras do PMDB, não causou surpresa, já que suas lideranças ocupavam cargos e setores estratégicos no partido. Atualmente, o presidente nacional da legenda é o ex-guerrilheiro Sérgio Rubens.

Formado em Filosofia, João Vicente dedica a vida à memória do pai. Ele preside o instituto Jango, escreveu um livro sobre a vida no exílio do ex-presidente – que foi finalista do Prêmio Jabuti – e capta recursos para transformar em filme essa história.

Com a experiência de apenas um mandato eleitoral – foi deputado estadual pelo PDT em 1982, no Rio Grande do Sul – João Vicente também associa à imagem do pai a sua ainda incipiente plataforma de governo e quer relançar as famosas “reformas de base” de Jango. São mudanças que dariam ênfase, entre muitos pontos, à reforma agrária, maior participação do Estado na economia, respeito aos direitos trabalhistas e controle sobre as multinacionais.

Mais de 50 anos depois, ele ainda fala em rigor na remessa de lucros das empresas estrangeiras no país. O discurso nacional-desenvolvimentista prevalece.

“Queremos de volta as reformas de base. Nunca saíram do papel. "
“Queremos de volta as reformas de base. Nunca saíram do papel. “

“Queremos de volta as reformas de base. Nunca saíram do papel. Como a reforma da lei de remessa de lucros. Olhe esse triste problema das teles. Já entregaram a Embratel, criada no governo Jango. Nos últimos quatro anos essas teles estrangeiras enviaram mais de R$ 38 bilhões de lucro para seus países. E ainda ficaram devendo R$ 20 bilhões de multa para o usuário”, disse João Vicente à Gazeta do Povo.

“Ao que tudo indica, serei eu a ir para o sacrifício e será uma honra ser candidato a presidente do país. E levar a palavra das reformas de base, de 50 anos atrás. A causa do golpe de 64 não foi impedir o comunismo, mas impedir que o país fizesse as reformas estruturais. Que seria desenvolver um mercado interno forte e um país mais justo e com maiores oportunidades”, complementa.

Segundo dirigentes do PPL, João Vicente está sendo lançado candidato a presidente principalmente pela necessidade imposta ao partido pela recente aprovação das cláusula de barreiras, que determina que nas eleições de 2018, todo partido precisa obter pelo menos 1,5% dos votos em todo país e mais de 1% dos votos das eleições proporcionais em pelo nove estados para ter acesso a recursos do fundo partidário e a tempo na TV e no rádio. Atualmente, a sigla não tem um deputado na Câmara Federal. Neste contexto, João Vicente Goulart está indo para o “sacrifício” por ser o nome mais conhecido da legenda.

“A dificuldade será imensa. Além da falta de tempo em rádio e TV, você só participará de debate se for convidado. Mas estou disposto a cumprir essa missão. E missão partidária não se discute, se cumpre.” declarou Goulart.

Aliança com partidos de esquerda

João Vicente acredita que pode trabalhar como uma alternativa aos dois líderes na corrida presidencial: Lula e Bolsonaro. Ele aposta em alianças no campo da esquerda, com exceção do PT, e cita PCdoB, PSOL e Rede como possíveis aliados.

“Falta, nesse quadro, um nome que possa puxar as reformas de base na linha do nacionalismo de Jango e Brizola (seu tio). Que seja uma opção ao discurso de ódio de Bolsonaro e também à rejeição ao PT.”

Questionado sobre qual foi a reação de sua mãe, dona Maria Thereza Goulart, sobre a possibilidade dele disputar a Presidência da República, João Vicente respondeu: “Ela não sabe ainda. Mas acho que não vai gostar.”

 

*Original de A Gazeta do Povo