Dia 1º de junho, uma sexta-feira vazia, depois do feriado de Corpus Christi, na quinta 31, muita gente, como de costume, esticou o feriado, de maneira que o mês só teve início na segunda-feira (4). Beleza de feriadão pra programar vadiagem na praia ou na montanha. Será que alguém aproveitou?

Paulo Cannabrava Filho*

Sim, claro. Os mais ricos são imunes às crises e também a esta gerada pela paralisação dos caminhoneiros por dez dias. Nos três poderes da República também, certamente, muita gente se lixou se havia greve ou escassez, seus altos salários e aposentadorias estão garantidos.

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Para a população brasileira, no entanto, este talvez tenha sido o mais aziago dos feriadões. As mães com seus bebês, preocupadas,  com medo de não ter gasolina caso surja uma emergência. As mães com crianças nas escolinhas ficaram em casa, pois os perueiros aderiram à greve ou as peruas escolares ficaram sem combustível e muitas escolas suspenderam as aulas.

A revista virtual Diálogos do Sul decidiu procurar os porquês desta crise e tenta, em uma série de artigos que iniciamos nesta terça-feira (5), explicar os fenômenos que deixaram o país à beira do caos.

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Impotência e imobilidade

 

Recebemos o áudio de um caminhoneiro, em plena greve, que não conseguia segurar o choro. Choro sentido, de raiva, de indignação e impotência. “Paramos pra baixar o preço, agora querem encher o tanque e tem posto que tá cobrando dez reais, cara! Este aqui, onde estou, está cinco reais o litro de gasolina. Eu não aguento mais esta situação. É demais. Tenho família, não dá pra sustentar. Num aguento mais. Tô até pensando em abandonar o país. Mas como?”.

Feirantes fecham a EPIA Norte em frente ao CEASA em protesto de apoio à paralisação dos caminhoneiros. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Estava com a raiva da frustração, por terem feito um movimento que tinha tudo pra ser vitorioso e, no seu entendimento, não adiantou nada. Mesmo quando normalizar a situação, o preço do diesel e da gasolina continuarão subindo.

Para outros, o movimento foi vitorioso. Conseguiram o que queriam e, o mais importante, a queda do presidente da Petrobras, Pedro Parente. Para nós, faltou entendimento sobre o momento político ou falta de vontade política de aproveitar a crise pra derrubar o governo. Diálogos do Sul, em editorial, chamou a atenção sobre estarem dadas as condições para uma ruptura institucional. Temer está por um fio, uma greve geral o derrubaria. Ao mesmo tempo, faltou compreensão e vontade política das organizações para assumirem essa responsabilidade.

Os ilegítimos pensaram que o pior aconteceria. Por isso, decretaram Estado de Emergência e chamaram as forças armadas para assumir o comando.

Isso é apenas parte da situação em que está submetido o país, por conta de uma política burra de um governo ilegítimo.

 

Sindicatos?

 

Na terça-feira, dia 29, as principais Centrais Sindicais (CUT, Força Sindical, UGT, CTB, Nova Central e CSB)emitiram um comunicado em que manifestam“todo seu apoio e solidariedade à greve dos trabalhadores petroleiros, prevista para durar 72 horas”. Sobre os caminhoneiros, apenas concluíam que “o impasse da greve dos caminhoneiros e a sua duração são claros resultados da política de desmonte do movimento sindical, implantada e incentivada pelo governo federal”.

Ainda com relação à paralisação dos caminhoneiros, no dia 25, as centrais sindicais se manifestaram com comunicado no qual expressaram que: “neste momento de impasse nas negociações entre o governo federal e os caminhoneiros, [as centrais] decidem se colocar à disposição como mediadores na busca de um acordo que solucione o caos social que o país caminha”. Mais adiante, afirmam que “colocar as forças armadas como instrumento de repressão é querer apagar fogo com gasolina”.

 

Que “todo seu apoio e solidariedade” é essa?

 

Todo apoio de uma central classista a uma greve de trabalhadores é aderir à greve. Solidariedade por escrito? Solidariedade de fato a população dá, como foi demonstrado nas estradas, levando comida e carinho aos caminhoneiros. Na sexta-feira (8), esse clima já não era só de carinho, tinha gente com raiva, atirando pedras em caminhões, já sentindo na carne as privações decorrentes do desabastecimento. Mas a verdade, certificada por pesquisa do Datafolha, é que 87% da população apoiou os caminhoneiros.

 

Imagem da greve dos petroleiros de 2016 | Foto: FUP

Por que, então, pararam a greve?

 

Para os petroleiros foi porque a Justiça declarou a greve ilegal e impôs uma multa de R$ 2 milhões por dia… sem condições de suportar. Já os caminhoneiros, uns porque ficaram satisfeitos com os acordos alcançados, outros porque não tinham mais condições físicas de se manterem mobilizados e outros ainda porque foram estimulados pela ação das forças armadas e da polícia nas estradas. E assim, tudo como dantes no Quartel de Abrantes.

 

Negociar o que e com quem?

 

A economista e professora Ceci Juruá, colaboradora de Diálogos do Sul, observadora arguta da realidade, percebeu que a paralisação dos caminhoneiros teve mais de greve espontânea do que de locaute ou greve sindical. Ressalvando, claro, que no meio disso há muito oportunismo e provocação. E burrice, acrescentaríamos, por parte do governo que sem saber raciocinar um pouco mais além da questão fiscal, tornou-se refém dos caminhoneiros.

O governo anunciou com alegria que alcançara acordo com as representações e que o movimento estava a caminho do fim. Caramba, a paralisação nas estradas começou no dia 21 e isso só foi acontecer no dia 25. O que o governo conseguiu, na realidade, foi um acirramento do movimento.

“Negociou com quem?”, perguntaram os caminhoneiros, esclarecendo que “esses caras não nos representam”. Quem os representa? Eles mesmos, que se comunicavam entre si numa grande corrente virtual. Não precisaram de representantes nem de mediadores.

Deixaram claro: não queriam migalhas, mas a redução no preço do diesel e a não cobrança do eixo levantado nos pedágios, além de um tratamento justo para aqueles que são assalariados, estradas boas e bem cuidadas, pois do jeito que estão só acarretam prejuízo com os danos que os buracos provocam nos caminhões.

Quem trafega por estradas pelo Brasil afora sabe que eles têm carradas de razão. Se mora na cidade de São Paulo, tem que revisar a suspensão do automóvel a toda hora, senão fica na rua, enfiado num buraco.

 

Precarização

 

Reportagem da Folha de São Paulo (26/05/2018) registra que “a carga mais pesada que o caminhoneiro leva é a carga de trabalho”. Esclarece que as modificações nas leis trabalhistas, estabelecem 72 horas de trabalho semanal, e que para atender as exigências das empresas, trabalham até mais de doze horas por dia.

De fato. Diz um caminhoneiro em vídeo postado na web que “uma viagem de Natal a São Paulo e volta a Natal, com o frete de R$ 16 mil, R$ 13 mil são gastos com óleo diesel, R$ 1.050,00 ficam com os pedágios. Sobram R$ 1.950,00 pra rodar 6 mil quilômetros. Um pneu custa R$ 2 mil e uma carreta leva 22 pneus que precisam ser trocados a cada 8 ou 9 meses. Que é o que sobra?”, questiona.

Informa também que estudo da Universidade de São Paulo mostra que 58% dos caminhoneiros trabalham com carteira assinada; 27% são autônomos, 15% com outro tipo de contrato. 43% trabalham mais que as 44 horas previstas e 85% ganham entre um e cinco salários mínimos.

Esses são “os caras” que carregam 61,1% de toda a carga transportada no país.

 

Forças Armadas

 

Carlos Latuff/ Brasil de Fato

Recebemos gravações e lemos mensagens postadas nas redes sociais da web, nas quais caminhoneiros encararam a mobilização das forças armadas como uma declaração de guerra. “Se é guerra, se vierem com violência sobre nós, responderemos com violência”. Alguém mais radical rematou, “se é pra ir pra violência, vamos queimar essa carga toda, e os caminhões-tanques…”.

Bravatas à parte, as forças armadas até que agiram corretamente… não saíram batendo, dando tiros, nem passando com tanques por cima das barreiras obstruindo estradas. Houve bom entendimento entre os caminhoneiros e a Polícia Rodoviária e PMs estaduais, sob o comando do Exército (Estado de Emergência).

Devem ter aprendido a lição dada pela repercussão negativa que teve por todo o mundo as malvadezas que praticaram contra a população nas duas décadas de ditadura repressiva e regressiva. Devem também ter aprendido a atuar como mantenedoras da “ordem” em zona urbana, quando sob o comando de EUA nas tropas da ONU no Haiti, e agora na ocupação militar no Rio de Janeiro…

E assim, o ilegítimo Temer pode se gabar de ter resolvido o conflito pacificamente embora, até agora, ninguém esteja cumprindo os preços acordados.

*Jornalista editor de Diálogos do Sul